Flores da Minha Vida (EC)

Dizem que a vida só passa a ter sentido quando a gente encontra um elo dentro de nós que nos faz enxergar cada detalhe de forma menos geral e mais abstrata, um pouco mais complexa que simples e alguns chamam isso de loucura e outros de amor. Tanto faz! O que me importa não é tanto a forma do sentido, mas sim o conteúdo.

Sei que às vezes pareço confuso. Subjetivo demais. Pensar muito me faz, de certa forma, ser um pouco intolerante comigo mesmo, perfeccionista. Nerd? Desajeitado e solitário. Porra, auto análise de mim agora, será assim mesmo? Fala sério! Bom, quero deixar claro que nada que eu pudesse ter feito mudaria o final da minha história, e hoje, enquanto voltava para casa, pude perceber que flores murcham, depois de um tempo sem água, sem alimento.

Em 2008 quando entrei para o curso de Comunicação Social – acredite se quiser – eu era o cara mais tímido do curso, o mais abestalhado e o menos comunicativo, até porque existem aqueles tímidos que gostam de chamar a atenção depois de um tempo, bobões.

- Matheus? Esse é seu nome? – Gabriel me tirou dum devaneio louco no primeiro dia de aula. Sei lá, só sei que aquele garoto era gostoso demais e, ouvir sua voz me fez sentir um frisson irrefreável. Parei por alguns instantes fitando aquele olhar castanho esverdeado.

- Sim! Algum problema com ele? – tentei ser engraçado, mas pareci ridículo, confesso!

- O que? De que planeta você foi mandado? – ele riu. Valeu seu imbecil! Ah, foi assim que me senti mesmo sabendo que eu estava me apaixonando por aquele garoto. Mas já? Claro!

Tive a sensação, a partir daquele dia, que meus olhos não viam mais nada além dele e nem meus ouvidos ouviam mais nada além da voz suave e doce do Gabriel. Sério, me apaixonei de verdade. Não como nos contos de fadas, eu sei que essas porcarias não existem, tudo invenção de Walt Disney – a quem admiro muito – mas que não passam de mentirinhas para crianças. Paixão é um sentimento contrário, que derruba e sacode, acorda e faz dormir. Cara, um puto sentimento maluco!

Lembro, como se fosse uma marca cravada em mim, de que Gabriel não hesitava em me humilhar ou rebaixar na frente das pessoas, me tratando com indiferença ou, quando eu falava alguma coisa, me recriminar e sempre, sempre, discordar. Parecia incrível, e por mais que ele fizesse isso, longe das pessoas fazia questão de me olhar nos olhos e dar bom dia.

Certa vez ele veio até mim, no intervalo, deixei minhas amigas e fui conversar com ele.

- Moleque, por que você é assim? – perguntou.

- Depende do ponto de vista. Assim como? Lindo e gostoso? – tentei soar descontraído, mas a real é que meu coração estava pulsando muito rápido, mais um pouco ali e um infarto aconteceria na certa.

- Idiota! – ele riu – Gay! – revirou os olhos e me empurrou – É difícil ficar dois minutos falando com você! – caí sentado num banco logo atrás de mim, mas me ergui e gritei nervoso.

- Imbecil! Acha que vou deixar de ser gay por que você quer? Nada vai mudar e você vai continuar sendo esse imaturo ridículo!

- Como assim? – ele voltou até mim e me grudou na parede.

- Você é um estúp... – antes que eu pudesse terminar, ele me segurou pelo rosto, beijou meus lábios, soltou um suspiro e saiu correndo.

Estranho. Fiquei ali parado uns dez minutos passando os dedos sobre meus lábios tentando realizar o que tinha acontecido.

Dois meses depois dessa cena incrível, Gabriel se declarou para mim. Fato que algumas pessoas não conseguem sobrepujar o Golias que existe dentro delas e acabam se tornando seres humanos fracos e vulneráveis ao ponto de interferir na felicidade de alguém por prazer, causando sofrimento e depressão. Bullying! A palavrinha da moda está em moda. Sim, fazer o que se é a realidade? Sentar com o Gabriel durante uma tarde inteira no Parque do Ibirapuera e escutar ele dizer as barbaridades que aconteciam em sua casa por seus pais não aceitarem, de jeito nenhum, ter um filho homossexual, me fez entender que o porquê ele havia se tornado uma pessoa cheia de medos, de infelicidade e opressão. E isso o fazia me oprimir por saber que eu era assumido, minha família sempre aceitou e não tinha problemas nenhum em dizer: Eu sou gay!

O fato é que a paixão era recíproca. Enquanto eu desenhava imagens dele tocando meus lábios com seus dedos, segundo o Gabriel, ele fazia o mesmo, mas tinha medo de aceitar a sua própria realidade e me culpava por seduzi-lo involuntariamente. Inclusive, tem uma frase de Shakespeare que define muito bem isso: Lutar pelo amor é bom, mas alcançá-lo sem luta é melhor! E apesar de eu ter sofrido muito com as loucuras do meu amor, enquanto eu alimentava meu sentimento por ele, Gabriel fazia o mesmo por mim. Bom, fala a verdade?

2010. Tortura. Sempre fui o tipo de pessoa que buscou desde a maturidade – sei lá, meus quinze anos? – achar as flores da minha vida, que fariam com que meu jardim interior estivesse sempre florido, necessitando apenas ser regato com muito carinho, sexo e amizade. E chegou o dia em que pude respirar aliviado e esbravejar que eu estava me sentindo tão completo que só um corpo não seria suficiente para tanta alegria. Então, Gabriel e eu juntamos nossas tralhas, fomos morar juntos. Quem diria? Mas aconteceu!

Antes de o ano terminar, com tanta correria de faculdade, trabalho, contas e preocupações alheias nos distanciamos um pouco. Parecíamos estar vivendo em mundos paralelos muitas vezes, até mesmo no sexo, na hora mais quente e fogosa, tudo parecia mais nublado. Foi quando, em Janeiro de 2011, descobrimos que meu amado anjo sofria uma dor insuportável e, infelizmente, a única cura para o seu caso, era a fé. A Leucemia poderia tirar a vida do meu Gabriel, mas eu juro que se eu pudesse iria até o céu pedir que Deus nos desse a chance de sermos felizes juntos, envelhecermos e ser tudo aquilo que desejamos desde o início, somente um casal feliz.

Nada. Era basicamente isso que respondia quando via meu amor preso nas camas de hospitais desesperado, lutando para manter a própria vida, que ele tanto amava. Tranquei a faculdade. Cuidei do meu amor. Cuidei para que ele não fosse embora.

Ágape. Lutei com todas as minhas forças para ver o sorriso no rosto do Gabriel todos os dias, abdiquei das minhas vontades para estar ao seu lado e perdoei – na verdade já as tinha esquecido – todas as suas falhas cometidas contra mim, desde o Bullying sofrido na faculdade até os nomes feios que ele usava quando queria me deixar lá embaixo.

Insolentes podem dizer que o meu amor não passou de uma fantasia, retrógrados dirão que sou apenas um objeto do demônio ou sei lá o que mais, pouco me importa, e no mais, que vão todos para o inferno, mas o amor que surgiu em mim pela convivência com o Gabriel me deixou uma pessoa mais digna e sincera.

2012. Enquanto todos curtiam seus lindos carnavais, recebi um telefonema do Dr. Pedro que estava cuidando do meu amor.

- Matheus, pode vir visitar o Gabriel hoje? – estranhei.

- Sempre! Mas o que aconteceu? – ele ficou mudo por um tempo.

- Estou te esperando.

Desliguei o telefone com uma dor no coração que fazia as lágrimas escorrerem dos meus olhos, despercebidas. Quase cinco minutos para colocar a chave na ignição. Desespero. O calor queimando meu corpo como chama e eu desejando estar lá cada minuto com ele, na praia, em Campos do Jordão, sei lá, qualquer lugar que o tirasse daquela porra de hospital e situação e o trouxesse a vida que era dele por direito.

Estacionei o carro e corri.

- Dr. Pedro, ele está bem? – ele fez que sim, enquanto eu me dirigia para o quarto do meu amor.

Os olhos dele fechados, a respiração fraca e a pele pálida. Puta que pariu! Eu estava perdendo o homem da minha vida. Devagar, caminhei até ele, enxuguei as lágrimas que caíam, respirei fundo, me aproximei. Segurei as suas mãos e o fitei com muito temor e conversei um pouco com ele.

- Amor, você me ensinou a ser homem... Ser o que sou... O amor que desenvolvi por você é incondicional e não importa como esteja sempre estarei te amando em verdade. Sinto sua falta! – me curvei sobre o Gabriel, não contive a dor dentro de mim. O choro era a minha única forma de expressar o que eu estava sentindo. Sua mão se mexeu de leve, foi quando me levantei e fixei meus olhos nele, esperando que ele abrisse os olhos e me visse ali, ao seu lado. Ele tentou afagar minhas mãos, ficou inquieto, muito inquieto, fiquei preocupado. Vi suas pálpebras se moverem vagarosamente, uns fios de lágrimas escorrerem. Ele sabia que eu estava ali, me ouvia e me sentia. Ágape. Amor incondicional.

- Amo... Você... Matheus... – ouvi sua doce voz pronunciar essas palavras pela última vez. Ouvi um apito, ele se calou, sem perceber, Deus o levou para o lado dele me deixando com tudo o que ele me proporcionou na vida: momentos inesquecíveis. Dei um beijo em seus lábios, sem força, saí carregado do hospital.

Hoje um amor digno é difícil de achar, aliança e compromisso são coisas raras de se ter de verdade e quando percebemos que encontramos um alguém que faz todos os dias valerem a pena, um alguém que nos faz esquecer os problemas no trabalho, na vida e nos dá todo o amor e carinho que, como seres humanos, merecemos, a única opção que temos que enxergar é a de ser feliz ao lado de uma pessoa imperfeita mas capaz de fazer cada momento ao nosso lado valer a pena. Tudo que fiz foi por amor e como disse Friedrich Nietzsche: Aquilo que se faz por amor está sempre além do bem e do mal.

A única coisa que desejo é manter todo o amor verdadeiro, e que no meu jardim sempre será regado, de alguma forma, estará comigo.

* * *

Dedicado a todos que perderam alguém que tanto amou.

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Este texto faz parte do Exercício Criativo - Flores da Minha Vida

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Hilton Luzz
Enviado por Hilton Luzz em 24/02/2012
Código do texto: T3516884
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