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DIÁRIO DE UMA GORDINHA - Cap. 4

Não me perguntem onde o Aírton e o Doutor André se enfiaram durante toda aquela manhã. Enquanto fiquei com a bunda quadrada sentada na minha cadeira, os dois bonitos não retornaram da apresentação. Só imaginei qual seria a cara das minhas colegas quando descobrissem que o Aírton não somente era apetitoso, mas também um enorme de um antipático e arrogante. Rá! Iriam cair duras!

Minha alegria foi barranco abaixo quando me encontrei com Cássia e Bárbara para almoçar. Já na frente do prédio da empresa o frenesi estava instalado entre as duas. O motivo tinha nome.
Aírton.

— Ele é demais - Cássia vinha caminhando ao meu lado, os olhos brilhantes perdidos no espaço. — Um fofo simpático e sexy.
Bárbara gemeu.
— Aírton... Um doce de pessoa. Um cara fino, educado. Meus parabéns à mãe dele. Você não achou, Gisele?
— Achei o quê? - rosnei.
— Seu novo colega! Um gentleman, não? Super querido!
— Ah, claro - seria possível que ele só tinha sido metido comigo? Resolvi me vangloriar. — Nós vamos trabalhar juntos. Segundo o Doutor André, algumas vezes vou me reportar a ele.

Já nem sabia se aquilo me traria alguma espécie de vantagem em relação às outras mulheres da empresa. O cara por quem eu me apaixonara em uma velocidade meteórica era hierarquicamente meu superior e não me dava a mínima.

— Não! - as duas quase gritaram no meio da rua. Eu continuei andando altiva e disfarçando o constrangimento pelo comportamento histérico delas. — Sério?
— Foi o que o Doutor André disse. Mas estou tranquila. Não achei o Aírton isto tudo. Sou mais o Osvaldo.

Osvaldo. Meu ex-namorado. Volta e meia ele me ligava.

— O Osvaldo? Convenhamos né, Gi? Com aquela barriguinha de cerveja... Tenha dó. Não serve nem como comparação.

Estávamos as três chegando ao nosso restaurante preferido e barato (nós o apelidamos de baratex) e só não acertei uma bolsada na Cássia porque senti o cheirinho da comida vinda do buffet. Minha raiva se extinguiu na mesma hora.

Nos sentamos no fundão. Meu prato parecia o Corcovado. Arroz, feijão, bife à milanesa, batata-frita e um ovo frito por cima para coroar aquela segunda-feira fora do normal. Eu adoro comer. E ainda tinha o buffet da sobremesa me chamando.

— Ué? Vocês não vão mandar ver?

O prato das minhas duas colegas se resumia a um peixe grelhado e montanhas de salada. Bárbara balançou a cabeça, mastigando uma folha de alface. Qualquer semelhança com a vaca mimosa não era mera coincidência.

— É melhor eu começar a entrar em forma, né? - disse ela convicta. — Sabe como é... O Aírton...
— O que tem o Aírton? - eu não estava entendendo lhufas.

Cássia então resolveu esclarecer:

— O Aírton não vai querer uma gorda ao lado dele.

Aquilo me atingiu. Pela primeira vez me senti acima do meu peso.
Claro que eu tinha noção do excesso de banha, mas até então nunca me incomodara com aquilo. Aírton. Filho da puta. Talvez tivesse sido por isto que ele fizera pouco caso de mim. Minhas gordurinhas sexies. Ele não gostava de cheinhas?

Comi com raiva todo meu almoço até raspar o prato. Repeti duas vezes a sobremesa e voltei para o escritório explodindo e ansiando por um chá de boldo.

Bem capaz. Mas capaz mesmo que eu deixaria de comer as coisas que eu gosto por causa das preferências do Aírton!

Não, não e não!

Não?
Patrícia da Fonseca
Enviado por Patrícia da Fonseca em 08/09/2015
Reeditado em 08/09/2015
Código do texto: T5375061
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Patrícia da Fonseca
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 49 anos
646 textos (48903 leituras)
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Patrícia da Fonseca