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DIÁRIO DE UMA GORDINHA - Cap. 5

Cheguei na empresa ansiosa por um chá de boldo. Fechei a porta da sala, preparei o chá e me joguei na cadeira. Precisava de uns minutinhos de paz. Será que o Aírton não gostava de gordinhas, mesmo elas sendo sexies?

A porta se abriu de repente. Pensei que fosse uma das meninas e já estava pronta para dizer um desaforo quando dei de cara com o Aírton, seguido do Doutor André. Dizer que me engasguei não é necessário.

Aírton farejou o ar. Parecia um predador espreitando sua caça. Eu podia ser a caça.

- Humm... – disse ele. - Chá de boldo?

Minha garganta ainda estava ardendo pelo líquido quente que desceu direto goela abaixo. Fiz um sinal de positivo enquanto tentava me recuperar da tosse. Aí, minha gente, o cretino fez a pergunta fatal:

- Você está tomando chá de boldo por que exagerou no almoço? Pelo visto você não dispensa um bastantão.

Idiota. Eu parei de tossir quase no mesmo instante. Inacreditável que um homem fosse capaz de dizer aquilo para uma mulher. Olhei para o Doutor André. Ele disfarçou uma risadinha. Humilhada e constrangida. Foi assim que me senti. Bullying. Assédio moral. Sofri qualquer coisa do tipo. Eu fiquei muito a fim de voar naquele pescoço onde uma correntinha fina e dourada pendia pela camisa revelando um peitoral bem definido e…

Chega!

- Você quer um chazinho? – lancei a ele meu sorriso mais fake.
- Boa ideia. Aceito.

Apontei para a bandeja que estava em cima do aparador.

- Esteja à vontade.

Os dois panacas me olharam se entender. Continuei tomando meu rico chá, sem a menor intenção de servir ninguém. Aliás, a única vontade que eu tinha era de mandar ambos tomarem no cu.

Doutor Andre pigarreou meio sem jeito. Deu uma olhada breve para Aírton e fez um sinal para que eu o acompanhasse até o seu gabinete.

- Gisele, por favor. Vamos lá dentro um instante.

Levantei-me dignamente. Encolhi um pouco a barriga, óbvio, peguei o bule de chá e segui o Doutor André. Respirei fundo. Era certo que uma mijada estava prestes a ser dada.

Sentei-me na cadeira, tentando me manter o mais natural possível. Tudo fingimento. Quem consegue ficar em seu estado normal prestes a receber uma bronca? Nem eu.

- Gisele, eu…
- O senhor quer um chá?

Nem deixei meu chefe responder. Peguei uma xícara que estava sobre a mesa e o servi com toda eficiência. Ele provou em seguida.

- Muito bom. É de boldo, não é?
- Sim, senhor.
- É muito digestivo. Meu pai tinha problemas de estômago e não passava sem um chá de boldo – ele me passou aquela importante informação sem tirar os olhos de mim. - Bem, mas já que o assunto é digestão, não digeri muito bem as suas palavras um tanto… grosseiras com seu novo colega.

Não era uma bronca. Meu chefinho até estava bem calmo.

- Número 1. O grosso foi ele. Número 2. Não tenho obrigação de servir chá para ninguém. Nem para o senhor.

Eu estava possuída.

- Gisele, não leve tudo à ponta de faca. O Aírton estava apenas brincando.

Encarei bem profundamente o Doutor Andre e respondi:

- Pois que vá brincar com a vó dele.

Eu me senti ridícula. Minha inteligência emocional - se é que alguma vez eu tive - havia desandado de vez. Doutor André riu. Da minha cara e da minha fúria. Ele nem imaginava que aquela pequena diferença com o Aírton também tinha me deixado excitada.

- Você não conhece o Aírton. Ele tem um grande senso de humor. Ele fez uma brincadeira.
- Ah, brincadeira? – eu disse com tom de deboche.

Doutor André pôs as duas mãos na mesa e curvou um pouco o corpo para frente para falar mais de perto comigo.

- Gisele, vocês dois vão trabalhar juntos. Preciso que se deem bem.
- Eu sempre me dei bem com todo mundo aqui. Quem se comportou como um bobalhão foi ele.
- Está certo. Vamos zerar tudo. Tenho certeza que vocês dois irão se entender o mais rápido possível.
- Alguém deve dizer para aquele moço que o senso de humor dele precisa ser lapidado.

Meu chefe riu.

- Gisele, você é muito engraçada. Por ora, é isto. Sei que vou contar com a sua compreensão. Você pode chamar o Aírton aqui, por favor?
- Sim, senhor.

Levantei encolhendo a barriga outra vez. Abri a porta do gabinete do Doutor André jurando que encontraria o Aírton bem sentado na minha sala. Ensaiei um olhar sexy. Para porra nenhuma. Ele não estava ali. Onde teria se enfiado?

Escutei gargalhadas femininas do lado de fora. Do que minhas colegas riam tanto? Caminhei até a porta e a abri com força. Em pé, tomando chá, Airton batia papo com Bárbara, Cássia e Virgínia. Todas as três davam risadinhas de alguma piadinha que o bem humorado colega soltou.

Se eu tivesse uma metralhadora tinha fuzilado os quatro ali mesmo.
Patrícia da Fonseca
Enviado por Patrícia da Fonseca em 17/09/2015
Reeditado em 17/09/2015
Código do texto: T5385869
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Patrícia da Fonseca
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 49 anos
646 textos (48937 leituras)
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Patrícia da Fonseca