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DIÁRIO DE UMA GORDINHA - Cap. 6

Nenhum deles me viu. Minhas colegas estavam tão encantadas com o Aírton que fui completamente ignorada.

— Aírton, o Doutor André está chamando você.

Não sei se falei muito baixo ou se a histeria coletiva feminina das colegas vadias impediu que o Aírton escutasse. Ou talvez ele tenha se feito de surdo para me provocar. Fiquei parada na porta, de mãos na cintura. Eu deveria estar parecendo um bule. Bárbara falou alguma coisa totalmente sem graça e Aírton riu. Idiota. Todos ali eram uns babacas.

Menos eu.

— Por gentileza - bati palmas cinicamente.

Aírton virou a cabeça para o meu lado. As meninas pararam de rir. Sim, elas queriam me estrangular porque eu tinha interrompido a sessão “putaria” delas.

— Aírton, o chefe está chamando você.

Ele colocou a xícara em cima de uma bandeja florida e feminina que Cássia estendia para ele. E disse, muito galante:

— Bem, meninas. O trabalho me chama.

Todas elas miaram. Aírton passou reto por mim e se fechou no gabinete do Doutor André. Então assisti a uma das cenas mais bizarras da minha vida. Naquele momento Cássia lambia a xícara que o Aírton tinha usado.

—Ele me disse que tem herpes - eu menti, fechando a porta com força.

Voltei para minha mesa, bufando. Precisava me acalmar. Não era possível um homem tirar tanto uma mulher do sério. Eu precisava ser forte e ler um pouco mais sobre inteligência emocional.

Não levou meia hora. O Aírton continuava encerrado no gabinete, quando o Doutor André interfonou:

— Gisele, faremos uma reunião de Diretoria daqui a meia hora. Convoque todos os diretores.
— Sim senhor.
— Você fará a ata da reunião.
— Sim senhor.

Odeio fazer atas. Respirei fundo, chamei todos os diretores e convoquei a moça da copa a providenciar café, biscoitinhos e água. Fui até o banheiro, penteei o cabelo e renovei o perfume e o batom. Eu queria estar apresentável para o Aírton. As babacas das minhas colegas não iriam passar na minha frente.

Munida de bloco e caneta, fui para a sala de reuniões. Na hora marcada estavam todos os diretores, o Doutor André, o Aírton e eu. Me posicionei na diagonal do cretino, de modo que eu não perdesse nenhum movimento seu. A reunião começou. Tentei me concentrar, afinal sou uma secretária muito competente. De sucesso. Por que não dizer, de futuro. A merda era o Aírton. Eu não podia olhar para ele que me perdia. Literalmente. Algumas partes da reunião eu deixei passar porque simplesmente eu estava vidrada olhando para ele. Quando isto acontecia, eu respirava fundo (sugava todo o ar da sala) e tentava me ligar no que os diretores estavam falando. A reunião era importante. O assunto eram os novos rumos que a empresa teria que tomar para se manter no primeiro lugar no mercado. Aírton, além de lindo, bem humorado e arrogante, também era muito inteligente. Durante a reunião ele deu várias opiniões e que foram bem aceitas pelos demais. Volta e meia o Doutor André dizia:

— Anota o que o Aírton falou, Gisele.

E eu anotava. Mais do que anotar, eu também fiz vários corações na folha. Esperava que ninguém - ninguém mesmo - pegasse os rascunhos daquela ata. Mas… quando urubu tá de azar, cai de costas e quebra o pau. Sem querer, o meu bloco caiu no chão. O diretor da área financeira, gentilmente, fez o favor de me alcançar. Quando ele me entregou já deu cara com as minhas bochechas vermelhas. Ele viu todos aqueles corações em um documento de trabalho. Oh, meu Deus...

A reunião durou cerca de duas horas. Os outros eu não sei como se sentiam, mas minha bunda estava quadrada. Fui flagrada duas vezes pelo Doutor André em um bocejo mal disfarçado. Aquela altura, eu já não estava mais nem aí. E para falar a verdade, eu estava muito decepcionada. Durante todas aquelas duas horas, o filho da puta do Aírton não me olhou uma única vez. Pensei que nossos olhares pudessem se cruzar em alguns momentos e, quem sabe, rolar um clima. Mas me enganei redondamente. A vontade que eu tinha era de socar aquele rosto lindo. E se ele quisesse me bater de volta, tudo bem. Eu adoraria.

Aleluia! A reunião terminou. Continuei sentada, enquanto todos os diretores se cumprimentavam. Deixei meus olhos repousarem naquele corpo lindo. Ah, Aírton. Comecei pelos pés. Lindos sapatos pretos italianos. Depois fui subindo lentamente pelas calças bem cortadas. Cheguei no meio das pernas e reparei um bom volume por ali. Molhei a calcinha. Não satisfeita, meus olhos subiram peito acima. Aírton era bem bombadinho. Músculos na medida certa. O pescoço, então... Eu adorava um pescoço masculino, daqueles de macho mesmo. Cheguei no queixo, depois foquei na boca carnuda, nariz e… dei de cara com ele.

Fiquei vermelha. O Aírton com certeza flagrou toda a análise corporal que eu fiz dele, de alto a baixo. Nos encaramos por uns cinco segundos eternos. O que eu fiz? Levantei e saí correndo da sala.

Comportei-me como uma criança. Corri até o gabinete, guardei o bloco dentro da gaveta e fui embora. Não esperei o Doutor André me passar alguma última instrução. Nunca quis tanto ser abduzida como naquele momento.
Patrícia da Fonseca
Enviado por Patrícia da Fonseca em 24/09/2015
Reeditado em 24/09/2015
Código do texto: T5393434
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Patrícia da Fonseca
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 49 anos
646 textos (48903 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 20/01/20 06:35)
Patrícia da Fonseca