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DIÁRIO DE UMA GORDINHA - Cap. 8

Excitadas. Assim que minhas colegas ficaram com o “sim” do Aírton. Em seguida ele pediu licença e foi para a sala do Doutor André. Eu olhei para Virgínia sem acreditar que ela havia tido coragem de convidar o Aírton para ir ao Baratex.

— Você tem noção do que fez? Logo no Baratex? Este cara é todo metido! Vai achar que nós somos pobretonas!
— Você acha? Se não está satisfeita, não precisa ir.
— Ah, mas eu vou sim. Vou mesmo!

Cássia falou, tentando apaziguar:

— Meninas, não vamos brigar por tão pouco. Você vai arrasar no Baratex com esta bata, Gisele.

Quase atirei o grampeador na cabeça da Cássia. Ela, Bárbara e Virgínia saíram da minha sala dando risadinhas e gritinhos, animadíssimas com o almoço de logo mais. Eu desabei na minha cadeira e escondi meu rosto entre as mãos. Desesperada. Como eu iria conseguir ficar perto do Aírton durante pelo menos uma hora sem ter uma crise de tesão?

Doutor André entrou na sala com seu cabelo lambido e sua pastinha. Quando me viu daquele jeito perguntou:

— Está passando mal, Gisele?

Levei um susto e me ajeitei na cadeira, arrumando os cabelos.

— Eu? Não, senhor. Estou muito bem. Nunca estive tão bem na minha vida.

Ele parou na minha frente, só a mesa nos separava. Parecia que queria dizer alguma coisa. Esperei pelo pior.

— Muito bom gosto a sua bata.

Pronto. Agora vai dizer que eu estou prenha.

— Muito obrigada, Doutor André.

Ficamos nos encarando. Tive certeza que meu chefe iria perguntar com quantos meses eu estava. Discretamente peguei a tesoura para matá-lo se fosse o caso.

— Parabéns. Mande a moça do cafezinho vir até minha sala, está bem?
Ele entrou no Gabinete e eu soltei o ar devagarzinho. Deus proteja o idiota que elogiar minha bata.

                                                *

O almoço no Baratex foi exatamente isto o que você está pensando. Uma galinhagem. Eu não sabia onde enfiar minha cara. Bárbara, Virgínia e Cássia não se continham. Eu caminhava ao lado delas, um pouco afastada e completamente muda. Aliás, o Aírton também estava mudo. Elas falavam demais, cada uma querendo chamar mais a atenção para si. Chegavam ao ponto de perguntarem e elas mesmas responderem. O cara devia estar tonto, mas disfarçava muito bem com aquele sorriso lindo estampado no rosto. Quando ele conseguia dizer alguma sílaba, as três riam, até quando não tinha graça nenhuma.

Entramos no restaurante e nos dirigimos ao nosso lugar de sempre. Eu tinha uma coisa em mente: comer pouco.  Quando muito, três rodelas de tomate. Tomate cereja, aquele que tem o tamanho de uma unha. Fomos até o buffet e peguei um pingo de comida. Minhas colegas estranharam, mas não disseram nada. Ignorei o buffet de sobremesa e prestei atenção no que o Aírton colocava no prato: arroz integral, salada, peixe. Por segundos eu devaneei. Me vi em uma cozinha aconchegante preparando uma comidinha para ele. Eu mais magra e ele nu no sofá, já em riste. Acordei do meu sonho quando tropecei no indivíduo que estava a minha frente no buffet.

Sentei ao lado dele, depois de uma disputa silenciosa entre nós para ver quem conseguiria tal feito. Me posicionei com uma rainha, a campeã. Sentada e instalada eu descobri que não tinha fome nenhuma. A presença do Aírton me desconcertava. Eu não sabia nem pra onde olhar. Se não quisesse me engasgar, eu teria que olhar fixamente para meus tomates. De repente a Cássia perguntou com a maior cara de pau:

— Você é casado, Aírton?

Eu quis morrer. Enfiei um tomate inteiro na boca e quase engoli sem escalas. Silêncio na mesa. Aírton mastigou calmamente um pedaço de peixe e respondeu:

— Estou divorciado há seis meses.

Quase escutei uma salva de palmas. Humm... divorciado, é?

— Não tem filhos? - desta vez foi a Virgínia.
— Não, ainda não - ele disse.

Quis me candidatar a ser a progenitora dos filhos dele. Até uma bata gestante eu já tinha. Aírton prosseguiu:

— Desejo muito ter filhos, mas para isto é preciso escolher a mulher certa.

Não só eu me candidatei, em silêncio, como minhas colegas quase ergueram os dedos se prontificando. Mulher certa? Havia quatro ali dispostas a tudo. A TUDO MESMO! Bárbara soltou uma pérola:

— Ora, candidatas não devem faltar.

Percebi que Bárbara, aquela puta, sorriu para ele e ainda empinou os peitos siliconados. Estaria tudo muito bem senão fosse o pedaço da folha de alface presa nos dentes dela. Fiz que não vi e implorei a Deus que eu não pagasse um mico daquele porte.

— Na verdade não estou muito preocupado com isto.
— Preocupado com o que? - Cássia quase berrou.
— Em arranjar uma namorada. Mal me instalei na cidade. Estou em um apart hotel. Não tive nem tempo de procurar um apartamento para mim.
— Mas não seja por isto - Cássia estava em pleno surto erótico. — No meu prédio tem dois apartamentos para alugar. Posso passar o endereço da imobiliária para você ir ver.

Minha colega encarou Aírton ansiosa, esperando uma resposta positiva.

— Quem sabe?

Rá! Bem feito! Ele não pareceu muito interessado. Não contente Cássia pegou um guardanapo de papel, uma caneta com tinta cor-de-rosa de dentro da bolsa e rabiscou alguma coisa. Triunfante, estendeu o guardanapo para Aírton.

— Se você se interessar por algum apartamento no meu prédio, me liga. Aí está meu celular.

Cássia foi praticamente fulminada por olhares ensandecidos vindo de nós, mulheres. Bebi um gole da minha água mineral para espantar a raiva. Não deu certo. Enquanto Aírton, um gentleman naquele momento, pegou o guardanapo, eu mirei a perna da desgraçada e lhe acertei um chute. Ela aguentou em silêncio, para minha decepção.
Eu fui a primeira a terminar de almoçar. Não tanto porque comi quase nada, mas porque já estava enjoada daquele papinho idiota. Eu desconfiava que o Aírton estava se achando o máximo por ser tão paparicado por três hienas falantes. Para coroar a desgraceira, Virgínia se deu ao trabalho de ir até ao buffet de sobremesas pegar uma musse de chocolate para ele.

#morri

Eu não sabia o que era pior. Ficar sem a sobremesa ou aturar aquelas três malas. Deus dai-me forças, porque fome eu já tenho e muita.
Voltei para a empresa escutando minha barriga roncar e rezando para que ninguém escutasse. Nem lembrava a última vez que havia sentido tanta fome. Aliás, fome era uma sensação que eu desconhecia. Pudera, eu vivia comendo.

Para se livrar de nós, Aírton inventou que precisava passar no banco antes de voltar para a empresa. Minhas colegas estavam super empolgadas. Bárbara continuava com o alface no meio dos dentes. Eu nem dei bola para elas. Cheguei na minha sala e bebi quase um litro de água para tentar enganar a fome. Eu estava planejando comer um frango assado inteiro quando chegasse em casa à noite quando escutei aquela voz...

— Gisele?

Me voltei em câmera lenta segurando a jarra de água. Parecia um filme, só que sem trilha sonora. Aírton estava a poucos passos de mim. Eu cheguei a ficar ofegante. Aqueles olhos...

— Desculpe ter falado aquilo para você antes. Sobre a bata.
— Ah, não foi nada - eu disse sorrindo, desconcertada e louca de medo que tivesse um tomate preso no meu dente da frente.
— Foi sim. Desculpe minha indelicadeza.

Incrível. Aírton me pedindo desculpas? Me apaixonei mais.

— Não, eu… tudo bem. Acontece.

Veio um silêncio do nada. Achei que estava prestes a se formar um clima romântico. Ou pelo menos sexual, o que já era muito bom.

Minha barriga roncou alto.

Patrícia da Fonseca
Enviado por Patrícia da Fonseca em 08/10/2015
Reeditado em 08/10/2015
Código do texto: T5408872
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Patrícia da Fonseca
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 49 anos
646 textos (48893 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 18/01/20 17:45)
Patrícia da Fonseca