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DIÁRIO DE UMA GORDINHA - Cap. 9

- Boa tarde, meus colegas!

Quase beijei o Doutor André na boca. Meu chefe chegou falando alto, conseguindo superar o tamanho do ronco do meu estômago. Deveria ter um alien consumindo minhas entranhas. Ou seria a minha lombriga de estimação? Bem, o fato é que o Doutor André conseguiu estragar o clima romântico/sexual que talvez por algum acaso do destino pudesse ter se formado entre mim e Aírton. Ele largou a pasta de couro preta sobre minha mesa, olhou para o Aírton e perguntou:

- Tudo pronto para a viagem amanhã?
- Como assim? Que viagem é esta?

Perguntei quase aos berros. Muito paciente, Doutor André me olhou enquanto colocava o braço sobre o ombro do Aírton.

- Vamos fazer uma pequena viagem amanhã cedo. Nem iremos aparecer aqui. Vamos com um dos motoristas da empresa e voltaremos na sexta-feira.

Não, dois dias não!

- Precisamos combinar direitinho como será amanhã, Aírton - continuou meu chefe me ignorando totalmente. - Que tal tomarmos um café no meu gabinete para tratarmos disso? Gisele, mande a copeira nos trazer dois cafés bem fortes.

A porta se fechou e eu fiquei parada no meio da minha sala, atordoada. Dois dias longe dele eu não iria suportar. Caminhei até minha cadeira. Eu precisava sentar e raciocinar sobre o assunto. Nem fome eu sentia mais.

TUM!

O segundo tombo do dia aconteceu quando não olhei para onde eu estava sentando e caí de bunda no chão. Fiz um barulhão. Tentei me agarrar na mesa e levei canetas, grampeador, telefone, clips e documentos junto comigo. O vaso com aquela planta horrorosa do Doutor André caiu em cima de mim, espalhando terra nas minhas pernas. A porta do gabinete se abriu e Aírton saiu para ver o que tinha acontecido. Eu já estava em pé e digna. Foi como se minha bunda fosse um trampolim. Bateu no chão e eu levantei em um pentelhésimo de segundo depois.

- O que houve, Gisele?

Eu não podia ficar vermelha.

- Sou uma desastrada. Deixei cair tudo no chão! Incrível!
- Ah… Achei que você tivesse caído.
- Eu? Nunca caí na minha vida - meu nariz de Pinóquio foi crescendo. - Ah, a moça do café já está vindo.
- Muito obrigado - respondeu ele me olhando muito estranho.

A porta do gabinete se fechou outra vez e eu respirei fundo. Que vexame. Chamei a copeira com o telefone se desmanchando e consegui organizar a mesa rapidinho. A planta do Doutor André ficou torta e perdeu algumas folhas. Foda-se. Mas FODA-SE mesmo. Aquela tinha sido por pouco.

Depois daquele horror, nem sinal de fome ainda. Lá pelo meio da tarde resolvi fazer xixi. Os dois estavam trancados dentro do gabinete. Um diretor havia chegado para participar e pelo visto a reunião iria prosseguir por mais algum tempo. Com a bunda dolorida, tentei caminhar elegante até o banheiro. Já tinha mijado e estava retocando meu batom quando Cássia, a histérica, entrou esfuziante. Puta que pariu.

- Guria, você nem sabe!

Não queria saber mesmo.

- O que?
- O Aírton!
- O que tem o Aírton? -pelo espelho eu percebi quando fiquei com olhos de louca.
- Ele me chutou durante o almoço!
- Chutou? Chutou você?

Burra. Ela não tinha se dado conta que havia sido eu a autora do chute.

- Chutou! - ela bateu palmas e saltitou na minha frente. Uma perfeita retardada. - Sabe o que isto quer dizer?
- Não.
- Ele está afim de mim!
- Aírton deu um chute em você e isto significa amor?
- Ora, ele errou a força. Olha a marca que ficou.

Cássia tinha um roxo no meio do joelho.

- Por que você não faz uma selfie do seu joelho? - eu destilei ironia e raiva, mega querendo acertar uma voadora naquela besta.
- Ora, Gigi! Não fique com ciúmes!
- Eu? Ciúmes? Tenho fé no meu ta-co! - bati com tanta força no meu peito que até tossi.
- Amiga!!! Sério? Tudo bem! Agora me dê licença que eu tenho que fazer xixi, tá?

Ela se trancou na cabine e eu saí do banheiro soltando fumacinha por todos os orifícios do meu corpo.

Minha barriga roncou de novo. Dentro da cabine Cássia gritou:

- Gisele, você peidou?




Patrícia da Fonseca
Enviado por Patrícia da Fonseca em 18/10/2015
Reeditado em 18/10/2015
Código do texto: T5418509
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Patrícia da Fonseca
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 49 anos
646 textos (48888 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 17/01/20 10:45)
Patrícia da Fonseca