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Uma missão chamada Amor

 "Às vezes, o escritor/o poeta, o artista em
geral, empresta-se para algo que ele (a) não conhece e dá à luz uma obra que não sabe explicar como surgiu.  Assim me senti ao trazer à tona esta história".

          Numa noite abafada de verão em que o céu estava limpo e repleto de estrelas, Johane dirigiu-se à varanda de sua casa e começou a observar a lua cheia que brilhava majestosa na escuridão noturna. A casa de Johane ficava de fronte ao mar, portanto, além do espetáculo que se lhe apresentava aos olhos, seus ouvidos eram presenteados com o suave marulho do oceano, estranhamente calmo aquela noite.
          A paisagem tinha tudo para ser o plano de fundo de um belo idílio amoroso, entretanto, aquele homem bem sucedido e já avançado na casa dos trinta anos estava taciturno. A solidão que se abatera sobre ele após a morte da esposa e das filhas em um trágico acidente fazia-o ficar daquela maneira: recluso da sociedade e perdido em si mesmo com o olhar na vaguidão do infinito.  Resolveu sair para caminhar e respirar ar fresco. A paisagem e a brisa que soprava do mar convidavam-no a isso. Desceu as escadas e, descalço, foi caminhando pela areia e sentiu a água marinha beijar-lhe os pés e, então...
          – Vamos, Marcela! – este era o nome de sua esposa. – Assim vamos nos atrasar para a festa. Gritou Johane da sala para o quarto.

          – Calma, meu amor! Estou arrumando as crianças. Eu já estou pronta. Respondeu-lhe a ainda jovem esposa.
          Eram casados havia 10 anos, tinham duas filhas lindas – Luísa, de quatro anos e Assíria de seis. Naquela noite tinham de ir ao casamento de um amigo muito querido. Enquanto esperava as mulheres de sua vida, Johane encostou-se à janela do apartamento em que moravam à época e pôde ver que uma fina chuva castigava a cidade, deixando o clima ainda mais frio. Sentou-se no sofá, fez um drink e esperou mais uns quinze minutos até que suas rainhas apareceram belas e sorridentes. Apesar do atraso, não houve como não retribuir-lhes o sorriso e abraçá-las carinhosamente.
         Desceram pelo elevador, dirigiram-se até a garagem do edifício, todos de mãos dadas, entraram no carro, colocaram os cintos de segurança e rumaram para o salão onde aconteceria o casamento...
         Johane caminhava pela praia e a água já lhe cobria os tornozelos. Em determinado momento, olhou para o céu e ao lado da lua viu três estrelas a brilharem insistentemente como que a quererem falar-lhe algo. Baixou os olhos e viu a lua fazer um caminho prateado no mar. Parecia vir em sua direção. Voltou à areia sentindo as ondas baterem em suas pernas.
          Havia três anos que esposa e filhas tinham feito a passagem para o plano espiritual e ele ainda não se conformara, não aceitara o fato. Tão jovens e já arrancadas de forma violenta da vida, sem que houvesse chance de luta...
          A chuva deixava o já caótico trânsito de uma megalópole ainda pior. A garoa que ele vira do apartamento transformara-se em chuva torrencial. A visão do que vinha à frente era quase nula. O clima dentro do carro, antes de euforia, agora cedera lugar à apreensão. O silêncio reinava amedrontador no interior do veículo.
          De repente, um violento impacto na parte de trás, lança o automóvel de Johane contra o da frente, prensando-o entre outros dois de maior porte. Não houve tempo para qualquer reação que fosse.
         Johane acordou dias depois numa cama de hospital. O corpo estava todo dolorido e ao abrir os olhos viu-se com alguns curativos e as pernas engessadas. Seus pais foram as primeiras pessoas que ele viu e, após recobrar o mínimo de consciência, perguntou por Marcela e pelas filhas.
          Os pais contaram-lhe o ocorrido. Fora um engavetamento envolvendo cerca de sete veículos. A força dos sucessivos impactos não permitiu que Marcela, Luísa e Assíria sobrevivessem ao acidente. A morte do corpo físico fora instantânea. Ele, de acordo com os médicos, sobrevivera por absoluto milagre. Johane agitou-se e foi preciso sedá-lo...
          A imagem da esposa e das filhas, todas lhe sorrindo, entrando na sala de estar veio novamente à sua cabeça. Ele se ajoelhou frente ao mar e chorou copiosamente. Não entendia por qual motivo o Destino (seria talvez a Vida ou Deus?) pregou-lhe aquela peça...
          Johane ainda ficou algumas semanas no hospital e recebeu alta. Não quis retornar ao apartamento onde morava com a família. Os pais, então, o receberam de portas, braços e coração abertos.Ficou com seus genitores por cerca de um ano e meio; tempo suficiente para que se recuperasse, quase sem sequelas, do acidente que vitimara suas amadas filhas e esposa.
          Aos poucos retornou ao trabalho numa das empresas da família. Todavia, tornou-se recluso e com pensamentos depressivo-suicidas. Por essa época resolveu ir morar na casa de praia. Família e amigos relutaram a princípio, mas diante da irredutibilidade de Johane, não viram saída se não deixá-lo ir. Frequentemente recebia visitas, porém, a vida parecia esvair-se por entre os dedos de um passado que insistia em fazer-se presente...
          Ajoelhado na areia, não percebeu – talvez tenha desejado não perceber – que a água já lhe batia no peito. O sal de suas lágrimas misturava-se com a marinha água salgada. Queria ir ao encontro de Marcela, Luísa e Assíria.
          De repente, sentiu uma força arrancar-lhe de onde estava, erguendo-o e levando-o para uma pedra que ficava a uma distância segura das ondas. Assustado, olhou para todos os lados e não viu quem o salvara do suicídio. Respirou fundo, pôs o rosto entre as mãos e chorou intensamente por longos minutos. Enquanto isso, a noite arrastava seu manto negro sobre o mundo dos homens. Já era madrugada.
          Quando conseguiu parar de chorar, ergueu os olhos ao céu e não achou mais as três estrelas que momentos atrás pareciam falar com ele. No entanto,  a lua continuava imponente no firmamento, rodeada de estrelas e ainda fazendo seu caminho prateado no mar.
         Aos poucos foi baixando os olhos e, já sem os soluços do choro, pôde ver três vultos de mãos dadas caminhando em sua direção através do tapete cor de prata sobre as água. Quando os vultos se aproximaram, Johane ficou estupefato. Não podia crer no que via. Eram suas filhas e sua esposa que vinham falar-lhe.
          – Será que morri e elas vieram buscar-me? Será que finalmente irei juntar-me a elas? Johane pensava alto, quando ouviu claramente:
          – Não, meu amor! Você não morreu e tampouco viemos buscar-lhe para juntar-se a nós. Era a voz suave de Marcela que lhe dizia tais palavras.
          – Papai! – agora era a pequena Luísa – não sofra mais. Quando o senhor sofre, nós sofremos também e não conseguimos deixá-lo.
Johane não conseguia falar. O choro voltou de forma convulsiva.
          – Por favor, papai, não chore. O senhor não teve culpa. Aconteceu o que tinha de acontecer. Um dia nós nos encontraremos e poderemos entender o porquê das coisas. Foi a vez de Assíria falar. As três se aproximaram dele, envolveram-no num abraço coletivo de muita luz e amor. Marcela disse-lhe:
         – Querido, nós sofremos na passagem, é óbvio. Mas quando despertamos cá do outro lado, fomos recebidas por espíritos amigos, os mesmos que lhe tiraram da água. Passamos por um tratamento que levou certo tempo, porém agora estamos bem.
         – Mas por que Deus me tirou vocês? Por que Ele não me levou junto? Questionou Johane, ao que Assíria antecipou-se:
         – Papai, não nos cabe entender os desígnios de Deus. Apenas devemos cumpri-los.
         – Nós te amamos, papai, e não queremos que o senhor sofra. Se o senhor sofre, nós também sofremos. Emendou a pequenina Luísa.
          Quanta sabedoria em duas pequenas crianças! Tinham de fato se tornado dois lindos anjinhos. Assim pensava Johane quando Marcela novamente falou:
         – Querido, por nós e principalmente por você, retome a sua vida. Volte a ser aquele homem alegre e contagiante. Você não precisa apagar-nos de sua memória, mas também não deve utilizar a nossa ausência para despedir-se da vida. A vida, aliás, continua para você e para nós; só que em planos diferentes. Nós o amamos na matéria e agora o amamos também deste lado. Todavia, é preciso que você faça a sua parte querendo viver. Do contrário, caso você se entregue ao suicídio, nosso reencontro será ainda mais retardado. Vamos nos encontrar novamente, mas por enquanto você ainda tem muito com o que contribuir na Terra. Anime-se, meu amor! Anime-se e lembre-se apenas dos bons momentos que vivemos juntos. Seja feliz e reconstrua sua vida!
           Quando terminou de falar, Marcela e as crianças envolveram-no ainda mais e, de mãos dadas, foram se afastando até sumirem pelo mesmo caminho prateado deixado pela lua. Assim que conseguiu olhar para o céu, Johane viu novamente as três estrelas a brilhar de forma simultânea. Nesse momento, seus olhos acenderam-se esperançosos e um sorriso abriu-lhe discretamente o canto dos lábios.
          Após esse encontro, Johane viveu mais cerca de 45 anos. Durante o intervalo, casou-se novamente, mas não teve filhos.  A mulher com quem contraíra matrimônio, Raquel, trouxe de outro relacionamento, do qual era viúva, um casal de filhos: Joaquim,  de oito anos, e Sarah, de treze. Juntos construíram uma nova e grandiosa vida, apesar das dificuldades de todo tipo. Dedicaram-se por muito tempo às obras de caridade e assistencialismo aos mais necessitados. Foram assim, através do trabalho altruísta, angariando simpatias nos planos material e espiritual da vida. Johane nunca mais viu as três estrelas a brilhar como se lhe falassem.
          Ainda presenciou o desencarne dos pais e de Raquel, mas antes fora presenteado com a dádiva de ser avô, mesmo que postiço. Sarah, que se casara aos vinte e um anos, aos vinte e cinco dera à luz duas lindas garotinhas gêmeas, a quem chamou de Maria Luísa e Maria Joaquina.  O primeiro nome apenas viera à cabeça de Sarah, sem que soubesse o motivo e Johane não se opôs. Quanto ao segundo nome, resolvera homenagear o irmão que desencarnara ainda na flor da adolescência em virtude de uma doença misteriosa. Afora essas passagens, a Vida (ou seria Deus?) fora muito generosa com Johane.
Um dia, na varanda da casa de praia, sentado em sua cadeira de balanço, olhou para o céu e viu apenas uma estrela – daquelas três – brilhando como que a chamá-lo. Compreendeu o que acontecera, sorriu, fechou os olhos e adormeceu.
          Ao acordar, viu-se cercado por Marcela, Raquel, seus pais e mais alguns amigos que fizera enquanto na matéria. Não viu, no entanto, Luísa e Assíria. Quis saber delas e foi informado que haviam reencarnado como Maria Luísa e Maria Joaquina. Esta foi a forma que a espiritualidade encontrara para recompensar-lhe pelos anos de dedicação ao próximo de forma sincera, humilde e caridosa.
         Iniciava-se agora para Johane uma nova etapa de aprendizado e evolução na seara espiritual. Após muitos anos aprendendo e trabalhando em prol da Luz e com as meninas já adultas e bem encaminhadas, recebeu a missão de retornar à matéria como filho de Maria Luísa. Marcela e Raquel já haviam retornado como filhas gêmeas de Maria Joaquina.
          Que missão teriam? Só eles, em seu íntimo mais profundo é que sabiam junto com a espiritualidade. Vão conseguir realizá-la? Claro que vão. Não importa quantas existências tenham, mas vão realizar o que lhes foi destinado porque a Lei Divina sempre é cumprida, não importa o que os homens façam para obstruí-la.
                                                  Cícero Carlos Lopes
                            (Escrito entre 18 e 21/05/2017)
Cícero Carlos Lopes
Enviado por Cícero Carlos Lopes em 24/05/2017
Reeditado em 15/07/2017
Código do texto: T6008060
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Cícero Carlos Lopes
Ferraz de Vasconcelos - São Paulo - Brasil, 43 anos
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