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Por um momento os amantes são poetas
 Por toda vida os poetas são amantes
 
 
 
A hora era de lançar azeite sobre suas feridas. E cada um deles tinha a sua. Robert   temia que algum assunto por ele levantado, pudesse trazer à tona sua história ou a história de vida dela. E assim, consentiram que seus olhos se encontrassem olhando na mesma direção. Sem perceber, ele deixou escapar a voz contemplativa de sua alma: ‘A tarde que finda é uma benção que chega e jamais outra igual será vista...’
—Fazendo poesia para nuvens roxeadas?
— Não! Estou pensando por que elas estão assim, apressadas.
—Ora! É porque o sol vai se pôr,  daqui a pouco.
 O sol pendia envolto por um manto de nuvens coloridas. E em pouco tempo, desapareceu.
‘A tarde que finda é uma benção que chega’... uma bela tarde, pensou Bob.
Precisamos ir — disse Morgana, fixando os olhos em Gabriela.
— Mais um cerveja,  senhor?
— Não. Por favor, traga a conta!
O garçom afastou-se, e sem demora trouxe a conta numa pequena bandeja de aço inoxidável.
— Vamos dividir a despesa.
— Ora, Morgana! Sou do tempo em que o homem pagava sozinho a conta...
Robert   arquitetava planos para outro encontro, es não via como fazer a proposta  de forma indireta. Então disse sem rebuscar palavras:
— Podemos nos ver amanhã?
— Amanhã... amanhã não sei. Talvez não consigamos vaga nas palhoças. É preciso chegar cedo. Hoje o irmão de Gabriela, assegurou-nos esta vaga, mas por causa do acidente com o filho, provavelmente, não virá amanhã.
— Darei um jeito, disse Robert  .
Nunca um dia de domingo demorou tanto a render o posto de serviço do sábado... Robert   chegou antes das nove e acomodou-se. Ocupou uma mesa à sombra de uma palhoça ao lado de uma grande amendoeira. Morgana não tardou. Teve vontade de enfiar os pés na areia. Esconder o pezinho quente e delicado para ser encontrado pelo dele. Sentiu-se uma tola.
— Lembra-se de Sivory, disse ela, finalmente.
— Sim!
— Pois é. Estava no avião que caiu na Costa do Senegal.
Robert   reviveu a cena do beijo ingênuo que Morgana dera no rosto de  Sivory, quando o menino fizera o gol decisivo do campeonato Marista nos anos noventa. Quanto tempo! Ela agora tão linda quanto antes, carregava os mesmos traços exuberante beleza de outrora, acrescidos pela pródiga mãe  natureza de melhores contornos na cintura e seios medianos. Pontiagudos. Entumecidos. Róseos...palpitantes... Teve dúvidas se estava diante de uma sereia, uma mulher ou uma deusa.  Ele teria a paciência que fosse necessária e a coragem que precisasse para conquistá-la. Não era sonho. Era Morgana o sonho capaz de apagar seus pesadelos. Robert   não queria pensar no casamento desfeito, nem na saudade do pai que mal conhecera. A vida lhe dera um poema de sete faces. Não só a ele, também a muitas pessoas que por sorte ou azar, morrem sem conhecer a primeira face do poema.  As faces mais cruéis que conheceu foi o rosto da mãe, desfigurado pelo câncer, o casamento dele que não aconteceu, e o pai que nunca esteve no álbum de família. Eram tantas faces: rostos de luz,  e rostos  de sombras, faces brancas, pretas, amarelas e até um anjo azul soprando cinzas sobre suas lembranças: o Marista, a Quinta da Boa Vista e a menina linda que Morgana sempre foi.  Já naquele tempo, Morgana revelava que, em crescida, seria uma das mais belas criações da mão divina. Isto posto, se fosse descoberta pelos caçadores de talento, alcançaria um cachê mil vezes maior do que o salário percebia como paisagista da Prefeitura de São Luís do Maranhão.
As horas passavam voando, correndo ligeiro nas nuvens que se deslocavam em direção à  costa. O vento brincava com cabelos dela. E Robert   desejava que seus dedos fossem o vento.. O vento que tocava os loiros cabelos anelados de Morgana. Robert   não via o mar. Via Morgana muitas vezes desviar os olhos, que se cruzavam com os dele. Ele fazia o mesmo e depois se arrependia. ‘Por que fugir do olho no olho, da verdade que se abre na janela de um olhar?’ Tudo que ele queria dizer não ficou dito,  e não diria, a menos que Morgana decifrasse a linguagem das estrelas.
A noite cai como um manto protetor dos amantes. Morgana quis saber da mãe de Robert, e quando lhe dissera que a mãe  morreu há dois anos, Morgana ficou besta. ‘Dona Leide?!...’
O momento não cabia lágrimas. O filho de dona Leide acompanhou de perto o sofrimento da mãe, que contraíra um câncer, depois de aderir ao Plano de Demissão Voluntária, oferecido pela empresa em que trabalhava. Insistiu muito para a mãe não aderir ao PDV, mas dona Leide!...Dona Leide quando tomava uma decisão, não voltava atrás!
Era sombrio  e triste falar da morte. Triste mais ainda quando a morte é na própria família. Robert desviou os olhos e os sentidos, a tempo de...
— Cuidado!
  Robert   tenta apanhar uma minúscula abelha preta que zunia mexendo as patinhas e sacudindo as asas, entre um e outro morrico da meia taça de Morgana.
 — Não se mexa!
— É apenas uma abelha chien, Bob!
— O mel está nos lábios, e esta abelha o procura em teus seios?
— Para, Robert !
 Banhistas recolheram seus pertences e se retiraram da praia.
— Deixa-me partir, porque a aurora se levanta.
Morgana jamais fora assim, tão formal. Decerto, queria provocar o engenho poético de Bob, outrora, vencedor de vários concursos de poesia promovidos pelo Marista.
— Aceito a penitência de te deixar partir, desde que eu possa ir contigo.
— Perfeitamente, Romeu, disse ela.
Riram.
— Posso te levar em casa, Morgana?
— Hoje não!
A resposta ‘hoje não’ fez nascer um fio de esperança nas boas intenções de Robert   de reacender uma antiga paixão pela colega do Marista.
***

Adalberto Lima, trecho de "Estrela que o vento soprou."
Adalberto Lima
Enviado por Adalberto Lima em 13/03/2018
Código do texto: T6279113
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Adalberto Lima
Montes Claros - Minas Gerais - Brasil, 66 anos
3415 textos (401945 leituras)
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Adalberto Lima