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Ilusões de romance

[Continuação de "Você não tem o direito"]

- Durante muito tempo, fiquei me perguntando o que havia feito de errado - recriminou-se Vanessa ao telefone com sua amiga Marina. - Ele voltou a frequentar a igreja, disse que "agiu mal" comigo, que deveríamos ter esperado...

- Como se isso fosse mudar alguma coisa - atalhou Marina. - Vocês têm um filho!

- E claro que ele vivia atrás de mim, quando estávamos no colégio, porque sabia que eu não era mais virgem... e eu não tinha interesse em me relacionar com ele justamente porque éramos tão diferentes. Mas aí, ele me convenceu de que iria mudar, por mim, rever suas prioridades, e que eu era especial na vida dele, mesmo sendo uma garota "errada"...

- E você acreditou - suspirou Marina.

- Eu acreditei porque ele parecia querer investir num relacionamento de longo prazo, não somente ficar. Nunca tive nada contra ficar, apenas, mas ele queria mais...

E, subitamente dando-se conta:

- Exclusividade, creio que é isso.

- Mas não é isso o que todos os homens querem? - Inquiriu Marina.

- Pela doutrina da igreja dele, a mulher deve casar virgem... supostamente, o homem também. Mas ele queria a mim, que nem mesmo era virgem!

- Provavelmente porque ele sabia que, com você, poderia transar antes do casamento, sem culpa. Ou, com culpa, sei lá como funciona a cabeça desses caras. Isso parece uma coisa meio esquizofrênica pra mim.

- Eu até comecei a frequentar a igreja dele, - recordou-se Vanessa - mas as pessoas lá sempre me olharam atravessado, mesmo eu tentando me parecer com eles, me vestir como as garotas que fazem parte dela...

- Não adianta querer se passar pelo que não se é - ponderou Marina. - Pior: eles te conheciam, sabiam quem você era. O Ted também não devia estar se sentindo bem com essa situação.

- Você está defendendo ele? - Indagou Vanessa irritada.

- Não! De maneira alguma! - Justificou-se Marina. - Só estou dizendo que ambos fizeram um esforço pra se adaptar a uma situação que não era boa para nenhum das partes. Tanto, que você acabou desistindo de ir aos cultos com ele...

- Eu não estava aguentando mais aquele ambiente de hipocrisia - lamentou-se Vanessa. - E então, eu descobri que estava grávida. E ele ficou furioso...

- Achou que você fez de propósito...

- Eu sei lá! Eu me descuidei, mas ele também... um filho precisa de dois pra ser feito, e com certeza eu não o fiz sozinho.

- Eu sei disso... mas daí a tentar te convencer a abortar...

- Eu nunca iria aceitar isso... e não pela questão religiosa; foi para ver até onde ia o senso de responsabilidade dele.

- Lembro que a mãe do Ted tentou fazer com que você desse o bebê pra adoção...

- E eu não aceitei pelo mesmo motivo. Canalha! Ele tinha que assumir o que fez!

- E ele assumiu, não é? Desistiu da universidade, registrou o Nicholas, arranjou um emprego no supermercado...

- Sim...ele fez isso - reconheceu Vanessa. - E, passada a raiva, eu achei que teríamos uma chance de recomeçar... ele vinha me ver... quero dizer, vinha ver o Nicholas... levávamos o bebê ao médico... tudo estava indo muito bem. E então, aconteceu alguma coisa.

- Você me disse que ele começou a se afastar de você.

- Foi perdendo o interesse por mim novamente... e então, nesta semana, eu descobri o porquê.

- Outra mulher?

- Sim, no trabalho dele. E, pelo que me disseram, virgem e da igreja.

- É o que eu chamo de concorrência desleal - avaliou Marina. - E ela sabe que você existe?

- Não sei...

- Pois é bom que saiba. Descubra em que horário ela trabalha e vá até lá... de preferência, com o bebê. Que isso pese na consciência dela!

- Eu não sei se teria essa coragem... - hesitou Vanessa.

- Você não vai fazer nenhum barraco - tranquilizou-a Marina. - Apenas vai se apresentar, ao seu filho, e sair. Pense no seguinte: ela pode ser muito mais fácil de enganar do que você. Nunca teve um relacionamento, Ted é um cara insistente...

E, num tom incisivo:

- Imagine se ela também... engravida?

Vanessa engoliu em seco.

- Eu preciso conhecer essa garota - decidiu-se.

[Continua]

- [13-06-2018]
Alex Raymundo
Enviado por Alex Raymundo em 13/06/2018
Código do texto: T6363678
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Alex Raymundo
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 55 anos
1110 textos (54465 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 22/06/18 10:21)
Alex Raymundo