Mia Gioconda

NA:

Duas coisas contribuíram para que eu escrevesse este texto. Uma delas aconteceu anos atrás, quando nas tardes de verão eu descia a Ubaldino do Amaral em direção ao Museu do Expedicionário para, por algumas horas, ouvir as histórias do Senhor Aristides Saldanha Verges, um dos muitos brasileiros que tomaram parte em um dos eventos mais dolorosos da história da humanidade, a II Guerra Mundial.

Estas histórias fariam parte de um livro reportagem que eu iria apresentar como trabalho de conclusão do curso de jornalismo.

Por razões adversas, que a vida repentinamente nos traz, tive que mudar meu projeto de modo que este texto tem, não a pretensão, mas, a humilde intenção de ser uma singela homenagem ao Seu Verges que dispôs de seu tempo e suas memórias a um simples estudante que ainda hoje engatinha na arte de escrever.

A outra, foi uma música antiga, chamada Mia Gioconda, cantada por Vicente Celestino no fim da década de 40. Fala do amor de um soldado brasileiro por uma italiana em um cenário de dor e desolação. Dela emprestei o nome para as linhas que seguem...

Mia Gioconda

Ivan Sonhava. Em seu sonho via as campinas verdejantes de sua terra. As imensas araucárias salpicando a paisagem. Os campos de tabaco que se estendiam muito além da linha do horizonte. O vento criando ondas no mar de folhas das plantações. Ivan sonhava com o sol morno das manhãzinhas de fim de inverno aquecendo o pasto e levantando os vapores do orvalho enquanto em uma árvore perto dali o canto do sabiá anunciava que a primavera estava próxima.

Agora via o pai, com seus olhos azuis, cansados, quieto, pensativo, tomando chimarrão ao pé do fogão a lenha como fazia nas frias tardes de inverno. A mãe, sorrindo e cantando uma triste canção em uma língua estranha, preparava o jantar enquanto ele, com os irmãos menores na mesa ao fundo da cozinha fazia o dever de casa. Ivan sonhava com os sons aconchegantes do lar.

Seus sonhos, porém, foram invadidos por sons semelhantes a marretadas. Ele encolheu-se, remexeu-se e por fim acordou. Não estava mais nas paisagens verdejantes de Rio Azul, sua cidade natal.

Estava em uma trincheira em algum lugar da Itália entre Montese e Riva di Biscia.

Era o inverno de 1944 e a paisagem estava coberta de neve.

Ouviu novamente as marteladas, na verdade, o som de um morteiro alemão ao longe, cortando a manhã gelada.

“Parece que os alemães detectaram nossa patrulha de cobras”, disse um colega enquanto procurava, sob a cobertura improvisada na trincheira, um lugar seco para se sentar.

Fora da choupana havia um mar de lama, provocada pela neve constantemente pisoteada. Em sua gíria pessoal, “cobras” eram quaisquer soldados da Força Expedicionária Brasileira cujo símbolo era uma cobra fumando cachimbo.

“Odeio a neve!” brincou o outro que já estava encolhido em um naco de terra seca, “É romântico nos livros, mas, a realidade é que para nós tem sido um transtorno”. “O pior de tudo é que eu acabo por ser o ponto preto no alvo” murmurou sorrindo.

Era baiano, muito alto e de pele escura. Gostava de troçar de si mesmo e da cor de sua pele dizendo que ele era a primeira coisa que os “chucrutes” avistavam em contraste com o branco da paisagem quando das trincheiras levantavam suas cabeças azedas para nos espiar.

Seu nome era Raimundo e não importava a situação, tinha sempre um sorriso nos lábios para dividir com os rapazes. Era um gigante bonachão. Uma vez brincamos dizendo que metade dos nordestinos da tropa chamavam-se Raimundo e queríamos saber a razão dessa obsessão pelo nome.

Ele riu e disse que nós do Sul e do Sudeste, não éramos capazes de compreender a natureza profunda da religiosidade nordestina que impele os pais a ter pelo menos um filho com nome de santo.

“E o que dizer de Ivan, o seu nome?” retrucou ele uma vez “que espécie de nome é esse para um brasileiro?”

“É um nome eslavo seu imbecil”, “significa João” eu disse.

“Ora, então por que não é simplesmente João?”

Naquele inverno seguimos assim, brincando com palavras, enfurnados em nossas trincheiras lamacentas, tremendo de frio, abraçados a nossos fuzis, e encolhendo-nos ao máximo na tentativa de nos aquecer.

As saídas para as patrulhas eram os únicos momentos que nos ofereciam um pouco de ação, e as vezes, até perigo. Se detectados poderíamos ser pegos por um morteiro, ou cair na mira de um franco atirador. Ou mesmo dar de cara com uma patrulha inimiga.

Foi o que aconteceu dias atrás com o grupo do sargento Wolf. Foram surpreendidos em uma emboscada quando saíram para verificar o perímetro. Cinco homens. Tombaram sob as rajadas das metralhadoras alemãs.

Em fevereiro as coisas começaram a mudar. A primavera se aproximava e a neve derretia nos campos. Os alemães recuavam cada vez mais ao norte, pois, apesar da lama, já era possível alguma movimentação de tropas em direção ao inimigo.

Para mim também as coisas mudaram. Numa manhã fui chamado ao comando.

“Capitão, mandou me chamar?”

“Shevtchenko?”

“Sim, senhor?!”

“O que é isso? Russo?” perguntou o capitão me olhando da cabeça aos pés.

“Não senhor, é ucraniano”, “o sobrenome de um grande poeta da Ucrânia, Táras Shevtchenko”. “O senhor já ouviu falar?”

Ignorando minha pergunta o capitão disse:

“Shevtchenko, o cabo Henriquez, saiu antes de ontem para pegar as correspondências no comando e não retornou até agora”. “quero que escolha três homens, pegue o Jeep, vá até o comando e descubra o que houve. Ele deveria trazer informações importantes que precisamos para determinar nosso avanço.

“você dirige, não é?”

“Bem, senhor, costumava dirigir um trator na lavoura”

“O princípio deve ser o mesmo Shevtchenko, acelerar, frear e acelerar novamente.”

Havíamos percorrido cerca de sete quilômetros quando notamos as marcas de derrapagem de uma motocicleta em um carreiro que conduzia para o interior de um pequeno bosque afastado da estrada. Descobrimos o veículo escondido atrás de uma coluna de arbustos e alguns metros adiante encontramos os sinais de uma explosão na mata. Galhos cortados, os troncos das árvores dilacerados e sangue.

Um pouco mais adiante, já no limite do raio da explosão, encontramos Henriquez.

“Pobre Henriquez, deu o azar de pisar bem em uma mina.” Disse Raimundo com tristeza no olhar.

As pernas haviam sido amputadas pela explosão. Ainda segurava o pescoço de uma garrafa quebrada de grappa italiana na mão direita.

Ainda consternados recolhemos o que sobrou de Henriquez e colocamos no Jeep.

No bornal da moto, uma DKW 350 tomada dos alemães em Montese, achamos, intacta, a correspondência, um tipo de pão rústico comum nas mesas italianas e uma garrafa de vinho ainda empoeirada cujo rótulo havia sido carcomido pelo tempo e só a palavra Verdichio era legível.

“Aí está o que o capitão estava precisando para... como é mesmo? Determinar nosso avanço contra o inimigo”. “uma garrafa do bom vinho italiano”. Disse Raimundo com um certo amargor na voz.

“Como sabe que é bom?” eu disse.

“Não sei, só estou ironizando, e depois, qualquer coisa é melhor do que aquela porcaria de grappa italiana que tomamos vez por outra no acampamento” replicou ele.

De volta à trincheira entregamos o conteúdo da bolsa ao capitão.

“E então? O que houve com o Henriquez?” perguntou o capitão

“Pelo que pudemos apreender ele saiu da estrada para tomar uns tragos e pisou em uma mina alemã”. “Foi feito em pedaços”. “o que sobrou dele está no Jeep para ser enterrado”.

“Que maneira estupida de morrer o sujeito vai tirar um descanso e afogar as mágoas na bebida e acaba explodindo em uma mina” disse o capitão.

Já ia saindo quando o capitão me chamou novamente. “Shevtchenko, você acaba de ser promovido, vai assumir o lugar do Henriquez!”

Nas primeiras horas da manhã seguinte me apresentei para o despacho da correspondência. A rotina consistia em sair quase todas as manhãs em direção ao Quartel General que ficava baseado em um pequeno vilarejo cerca de quinze ou vinte quilômetros atrás das nossas linhas de ataque, entregar informações a respeito do movimento das tropas e das posições alemãs, e principalmente, trazer as encomendas dos oficiais, basicamente pão rústico, cigarros e quando possível uma garrafa de vinho.

Três semanas depois eu já estava acostumado à rotina do ir e vir. Aproveitava enquanto estava no vilarejo para tomar banho e tirar a lama acumulada na estrada. Limpava também a motocicleta do barro entranhado nas rodas e para-lamas.

Uma tarde quando voltava para as trincheiras a moto pifou e não havia meio de fazê-la funcionar. A noite não tardaria a chegar e não valia a pena desmontá-la ali, no meio do nada. Decidi empurrá-la por cerca de um quilômetro até uma construção em ruínas pela qual eu sempre passava. Poderia achar lá um abrigo para a noite e pela manhã desmontaria a moto para tentar resolver o problema.

Era uma daquelas casas rústicas, feita de pedra, comum nos campos italianos. Chegava-se até ela por uma longa alameda toda cercada por altíssimos ciprestes do mediterrâneo.

Naquele fim de tarde, o silencio era cortado apenas pelos meus passos e pelo vento que embalava as copas das árvores.

Em outros tempos, aquele teria sido um lugar romântico onde casais enamorados fariam longas caminhadas e profeririam juras de amor tendo os velhos ciprestes por testemunha. Hoje, apenas um corredor ladeado por altas árvores que conduzia ao que outrora fora a casa de campo de alguma família rica.

A casa tinha um andar térreo e um pavimento superior. Parte da fachada tinha sido destruída pela ação das bombas, mas a parte de traz estava intacta.

A escada que conduzia ao andar superior havia sido destruída e por esta razão me instalei na que outrora fora uma cozinha bastante ampla. Apesar da primavera a umidade do inverno ainda não havia se dissipado totalmente, então, para me aquecer tratei de acender um fogo em um velho fogão a lenha construído em um dos cantos da cozinha. Depois disto me aventurei por um corredor central atrás de alguma madeira para alimentar o fogo.

Dois ou três cômodos ainda permaneciam em pé. Entrei em um deles, havia papeis pelo chão, uma cama destroçada e em cima de um balcão um porta retratos empoeirado. Na foto, uma bela mulher, um homem e uma criança de colo. Estavam sorrindo para a câmera.

Ouvi um barulho vindo do corredor e instantaneamente levei a mão à pistola. Na penumbra não vi nada. Os alemães haviam sido varridos desta parte do país, seria algum partigiano facista perdido nestas paragens? Notei que a porta de um dos quartos no qual eu ainda não havia explorado estava levemente aberta. Nesse momento ouvi o choro de uma criança, abri a porta de súbito e dei de cara com uma mulher abraçada a uma menina, encolhendo-se no canto do quarto.

Seguro de que não havia mais ninguém baixei a arma e disse:

“Calma, calma, não vou lhe fazer mal”

“Non devi avere paura, sono un soldato brasiliano” Não tenha medo sou um soldado brasileiro, eu disse, num italiano horrível.

Ofereci de pronto uma barra de chocolate que tinha no bolso. Quebrei-a em duas partes e dei uma à criança e a outra para a mãe.

“Io mi chiamo Ivan, come tu ti chiami?” Eu me chamo Ivan, como você se chama perguntei tentando acalmá-la.

“Alessandra” Ela disse desconfiadamente.

Apesar da penumbra era ainda possível ver em um espaço do quarto um monte de batatas ainda sujas de terra e com os brotos aparecendo. Provavelmente a única fonte de alimento na casa.

“Tenho pão na cozinha e fogo para se aquecer” falei em italiano.

Ela me seguiu devagar, ainda com desconfiança, sentou-se no chão, ao pé do fogão e o fogo alto lhe iluminou o belo rosto emoldurado por longos cabelos negros como a noite. Os olhos castanho-escuro, curiosos, mediam cada movimento meu.

A criança tinha parado de chorar e agora sob o calor do fogão dormia no regaço da mãe. Tinha por volta de uns três anos. Era uma menina de olhos claros e cabelos castanho escuro. As mãozinhas sujas de chocolate agarravam fortemente a gola do casaco de sua mãe.

“Come si chiama la bambina?” perguntei procurando palavras em italiano enquanto partia o pão ao meio e oferecia a ela.

“Giani” replicou, e calou-se novamente comendo de forma ávida como se nunca tivesse provado pão na vida.

A noite caiu e a única luz que tínhamos vinha do fogo que crepitava furiosamente fazendo com que as sombras bailassem estranhas coreografias nas paredes nuas da cozinha. Permanecemos em silêncio, durante um bom tempo, cada um imerso em seu próprio pensamento, dois estranhos e uma criança unidos apenas pelo calor fogo.

Ela por fim adormeceu ali, sentada, ainda com a criança nos braços. A luz amarelada do fogo lançava uma textura antiga sobre a pele branca de seu rosto. A escuridão onde a luz não alcançava, as sombras na parede branca, castigada pelo tempo, a mulher e a criança lembravam uma imagem congelada, de séculos perdidos, carregada de miséria, dor e tristeza.

O dia amanheceu e pus-me a arrumar a moto escondida atrás da casa. Quando terminei já era o meio do dia. Ergui os olhos e lá estava Alessandra encostada ao batente da porta da cozinha fitando me silenciosamente.

Arrumei as minhas coisas, deixei metade de um pão e outra barra de chocolate que tinha em cima da mesa.

“Devo andare via” preciso partir, expliquei. Meu batalhão está a uns sete quilômetros naquela direção” mostrei, apontando para o norte.

“e tu?” perguntei.

Num italiano muito rápido ela disse que aquela era a casa de sua família. Tudo o que ela tinha a guerra havia tirado. As únicas coisas que lhe haviam restado eram suas lembranças, sua filha e aquela casa em escombros, portanto, não iria a lugar algum.

Num canto da cozinha alheia ao sofrimento da mãe Giani brincava com um pedaço de lenha. Ria jogando-o de um lado para o outro.

Com o coração apertado eu disse “é hora de ir” e saí empurrando a moto até a alameda. Ela me seguiu e embora não confiasse totalmente em mim pude ver a apreensão em seus olhos, talvez porque fosse ficar sozinha com uma criança em uma casa destroçada, sem segurança, sem saber o que o futuro iria trazer para a filha e para si.

Dei a partida na moto e saí. Parei subitamente no meio da estrada para olhar para traz e ela estava lá, com olhos inseguros observando a minha partida.

“Ritorno a domani” gritei. Com um sorriso inseguro ela assentiu com a cabeça e gesticulou um tímido até logo.

Assim eu parti em direção ao norte. Me seguia a imagem da mulher com seu sorriso tímido na alameda de ciprestes. Poderia nunca mais vê-la. E essa sensação me acompanhou e me incomodou durante todo o trajeto. Mas não foi assim.

No outro dia a pedido do capitão parti cedo para o Quartel General. Naturalmente fiz um desvio e entrei pela alameda. Meu coração sentiu-se aliviado ao ver Alessandra com a Giani nos braços à minha espera.

Dei uma bronca dizendo em italiano que ela não deveria se expor e deveria ser mais cuidadosa pois, em vez de mim, poderia ser um grupo de fascisti.

Talvez movida pela minha preocupação, ela sorriu e falou de forma meiga que tinha ouvido o barulho da minha moto e tinha certeza que era eu.

“Trouxe um pouco de comida do acampamento, não é grande coisa, mas, pelo menos não vai passar só a batatas”. “consegui também um pouco de café”. “Tenho que correr para o quartel, mas, desta vez não vou ficar perambulando por lá”.

Despedi-me novamente prometendo que voltaria naquela tarde. No quartel as notícias dos avanços americanos com a retomada da França trouxeram grandes esperanças. Os alemães estavam recuando cada vez mais suas linhas de defesa e não tardaria para que os aliados se precipitassem sobre Berlim na frente ocidental e os russos na frente oriental.

As pessoas andavam mais animadas com a perspectiva de uma possível rendição alemã e com isso o fim da guerra. Eu, só pensava em Alessandra e Giani.

Quando retornei naquela tarde ajudei-a arrumar o que restou da casa. Limpamos os quartos, a cozinha e apesar da frente destruída a parte de traz tornou-se novamente habitável. Tanto quanto a guerra, cuidar delas tornou-se para mim uma missão da qual eu não poderia me apartar.

Era fim de abril e o exército planejava um ataque maciço ao que havia restado da 148ª divisão alemã e todos os homens eram necessários. Apreensivo com o que poderia acontecer na batalha eu pensei em fazer algo especial com Alessandra e Giani antes de partir.

Dias atrás andando pela propriedade descobri um regato com um gramado e uma paisagem paradisíaca que não havia sofrido com bombardeios ou movimento de tropas. Arranjei um bom vinho, pão, algumas frutas uma toalha de mesa e nos sentamos a beira do riacho para comer.

Conversamos como nunca havíamos feito antes. Ela contou que a casa em escombros era dos avós. Quando pequena, ela morava com os pais em Bolonha e passava os verões ali em Riva di Biscia. Era casada com um engenheiro que adorava Mussolini e havia largado tudo para combater ao lado dos camicie nere.

O marido fora morto em combate ao lado dos facistas que decidiram permanecer junto ao Eixo durante a invasão americana a Lucca. Seus pais morreram durante um bombardeio a Bolonha. Todos haviam morrido. Ela estava só com Giani.

“a qualquer momento eu devo seguir ao norte junto com a tropa.” Eu disse. “estamos preparando um ataque massivo aos alemães.”

Ela me olhou apreensiva.

“Mas quando tudo isto acabar eu voltarei para vocês”

O sol ia aos poucos baixando na linha do horizonte. Nos levantamos para fazer o caminho de volta enquanto ainda havia luz. Andamos o curto trajeto até a casa sob o peso de nosso silêncio. Apenas Giani, alheia ao futuro, falava consigo mesma coisas infantis que não conseguíamos entender.

O Som rouco da partida do motor da motocicleta abafou o soluço da mulher, mas, nem a escuridão da noite conseguiu disfarçar a lágrima que rolou pelo seu rosto. Em despedida, meus lábios tocaram a pele úmida de sua face. Abracei Giani e soltei a aos pés da mãe.

Parti com a promessa de que voltaria assim que a guerra acabasse. Parei novamente no meio da alameda como fazia todas as vezes em que partia para a trincheira.

Queria uma vez mais guardar na memória a imagem da mulher com a criança, seu costumeiro aceno seguido de um sorriso. Desta vez, porém, ela estava imóvel como se fora uma Vênus olhando à distância a minha partida. Apenas o vento da primavera agitava seus cabelos como se fossem flores no campo.

Quando chegamos nas proximidades de Collechio, o céu que por dias vinha prometendo tempo ruim desabou sobre nossas cabeças. A água descia como se nunca tivesse chovido na terra. Totalmente encharcados, nossos pés atolavam na lama. O avanço até para os carros com tração dupla era difícil. Por fim veio a ordem de adiar o ataque até que tivéssemos condições de nos locomover apropriadamente.

Os primeiros tiros vieram dos morteiros alemães quando nossas tropas se aproximaram da entrada da cidade. Um Jeep voou pelos ares com seus ocupantes. O cheiro de pólvora invadiu nossas narinas. Aos berros os comandantes proferiam ordens organizando a ação. Nosso revide foi maciço.

O barulho ensurdecedor dos canhões atacando as posições alemãs tornavam a comunicação impossível. Enquanto os tanques avançam entravámos em qualquer buraco que pudéssemos avistar para uma operação limpeza.

Entrei com outros dois homens em um prédio que ainda permanecia em pé verificando sala por sala, e quando ia subindo para o andar superior percebi atrás de uma parede parte de um capacete, em seguida veio a rajada de metralhadora fazendo uma trilha de buracos na alvenaria da parede. Tive tempo apenas de mergulhar escada abaixo.

Meus amigos ouviram os tiros e correram em minha direção pegando o inimigo já no topo da escada. Uma saraivada de balas e o alemão veio rolando pelos degraus caindo em cima de mim. Meu uniforme ficou lavado de sangue.

Mais rajadas de bala vieram do andar superior. Raimundo olhou para mim sinalizando que tinha percebido pelo menos mais dois homens lá em cima. Pegou uma granada puxou o pino esperou um momento e lançou o mais forte que pode escada acima. Ouve um grito, uma correria, uma explosão e mais gritos, desta vez de agonia. Em seguida ouvimos uma voz em alemão repetindo nicht schießen bitte! Nicht schießen bitte! Per favore non sparare! Non sparare em italiano e vimos um garoto de uns dezoito anos em uniforme cinza da Wermacht, o exército alemão, descendo com as mãos para cima. Fizemos o nosso primeiro prisioneiro dos 400 que viriam mais tarde.

Quando saímos do prédio percebi que minhas mãos estavam frias e tremendo. Alguns soldados que passavam perguntaram se eu havia sido ferido devido o sangue em meu uniforme.

Eu disse que não, que estava bem. A única coisa que eu conseguia pensar era que deveria tomar mais cuidado ou jamais veria novamente Alessandra e Giani.

Após a limpeza em Collechio nosso próximo alvo era Fornovodi Taro a distância de quatorze quilômetros e onde se concentrava o grosso da 148ª divisão alemã.

A medida que avançávamos à Fornovo íamos encontrando pelo caminho diversos focos de resistência e deixávamos para trás um rastro de destruição e corpos dilacerados, nossos e deles. Os feridos eram transportados rapidamente para as unidades de enfermagem situadas a nossa retaguarda.

Pelo meio da tarde paramos em uma clareira à beira da estrada. O trajeto de cerca de três horas de caminhada levou quase o dobro devido a lama provocada pela tempestade da noite anterior. Fomos chamados ao comando e o capitão ordenou uma patrulha de reconhecimento nos quilômetros que restavam para Fornovo.

Tínhamos andado cerca de um quilômetro e meio passando por algumas propriedades esparsas, abeira da estrada, quase à entrada da cidade quando ouvi o som inconfundível da Lurdinha a famosa metralhadora alemã pipocando em nossa direção.

Nesse mesmo instante Raimundo caiu ao chão segurando o lado esquerdo do corpo, pouco abaixo da costela e proferindo uma série de palavrões. A essa altura estávamos todos ao chão respondendo ao fogo inimigo. Aos berros o sargento dava ordens para procurarmos quaisquer abrigos que pudéssemos avistar.

Uma rápida olhada em Raimundo e percebi que não era nada grave. “teve sorte, amigão, tem apenas um pouco de carne dilacerada, vai viver” gritei em meio ao fogo intenso. “consegue se mover?” “Sim, sem problemas” gritou ele. Me arrastei com Raimundo a uma igrejinha a alguns metros de onde estávamos.

Nos jogamos portão da igreja adentro. Olhando em volta demos de cara com um padre olhando-nos pela janela. Fiz sinal para que nos ajudasse “siamo brasiliani” eu gritava em meio aos sons das metralhadoras “aiuto per favore” prontamente o padre nos abriu a porta lateral da pequena igreja. Colocamos Raimundo deitado em um dos bancos e voltamos a caça.

Enquanto parte dos homens respondiam ao fogo, cuidadosamente conseguimos nos esgueirar pela mata e nos posicionar na retaguarda dos atiradores. Às nossas costas o rio Taro corria caudaloso. Encontramos três soldados. Não perceberam nossa aproximação por traz devido ao tiroteio intenso. O terceiro soldado se contorcia no chão. Fora alvejado por uma de nossas armas e era possível ver parte das vísceras escapando por entre seus dedos.

Segurava o ventre ensanguentado e gritava algo em alemão que julguei ser uma oração pois sempre que resmungava, terminava com Mein Got no final. Por fim suas mãos relaxaram e o conteúdo abdominal escorregou para fora do corpo caindo no chão úmido da mata. Era um Unterfeldwebel, um segundo sargento da Wermacht.

Os outros dois que não haviam percebido nossa presença, quando nos viram largaram prontamente as armas, ajoelhando-se e pedindo em alemão e em italiano que não atirássemos. Relaxamos por um momento e repentinamente um deles fez surgir uma pistola. O tiro pegou na parte interna da minha coxa esquerda, cerca de um palmo acima do joelho, a dor percorreu toda a extensão da perna e senti na boca o sabor acre do solo italiano. Eu havia caído de cara na lama. O som seguinte foi da nossa submetralhadora M3 carimbando o alemão na cabeça. O outro se jogou ao chão implorando pela vida.

De volta à pequena igrejinha me juntei aos feridos, Raimundo e outros dois colegas, um com um ferimento no braço e outro com a mão estraçalhada. Raimundo segurava a bandagem que cobria o ferimento e conversava animadamente com o padre no pior italiano que eu já ouvira, carregado de sotaque baiano. Sorrindo explicou nos que o padre subia toda tarde para degustar uma taça de vinho com o general Picco e prover o rebanho alemão com algum “cuidado espiritual”.

“Berlim já era, os americanos estão às portas da cidade assim como os russos no lado oriental. A 148ª divisão alemã está cercada e o padre disse que em suas conversas o general Pico deixou escapar a possibilidade de negociar uma rendição e está só esperando o momento oportuno. Quer poupar a vida de seus homens”. Disse Raimundo quase sem parar para respirar “Poderíamos relatar ao comando a situação e escoltar os negociadores”.

Ainda desconfiado da situação o sargento despachou três homens ao comando em Collechio com a informação de que possivelmente os alemães estariam dispostos a negociar uma rendição. O comando enviou sem demora dois oficiais para acompanhar os alemães e mais alguns homens para ajudar com os feridos. Minha perna doía, mas tive sorte pois a bala não atingiu nenhuma região vital.

O crepúsculo já se desenhava no horizonte quando o vigário retornou à igrejinha com três oficiais alemães, um major e pela aparência das insígnias dois tenentes. Eram de pouca conversa, pareciam muito frios, inexpressivos. Trocaram uma meia dúzia de palavras com o capitão responsável pela escolta, embarcaram nos jipes e partiram para Collechio.

As negociações não impediram que a Força Expedicionário Brasileira levasse a cabo o plano de atacar Fornovo di Taro e dois dias depois, de nosso hospital improvisado na clareira, a beira da estrada, ouvíamos o martelar dos canhões à distância.

No dia seguinte, porém, os sons da guerra cessaram e quando saí para tomar o sol da manhã, vi a figura sisuda de um alto oficial alemão conversando com um italiano e um brasileiro na beira da estrada. “Otto Fretter-Pico e Mario Carloni” disse um tenente que passava e notou minha curiosidade. “Estão aqui para assinar a rendição”.

A alegria invadiu me por inteiro e eu já planejava como obter licença e rumar para o sul para Riva di Biscia, para Alessandra e Giani a quem eu não via mais de um mês. Cento e quarenta quilômetros nos separavam e cerca de duas horas que durava o trajeto. Para mim, porém, pareciam continentes de distância e uma eternidade o tempo que levaria para andar novamente pela tristonha alameda de cedros.

Ainda levou um tempo até que eu pudesse me ver sentado no banco traseiro de um jipe com a minha inseparável bengala devido o ferimento na perna. Partia para o sul.

No caminho, as marcas da guerra. Ruas destroçadas. O pó alçado em altas nuvens ora pela a ação do vento que soprava em ondas, ora com o atrito dos pneus de nosso Jeep. A desolação da terra outrora lavrada pelos camponeses. Casas em escombros. As marcas das esteiras dos tanques fossilizadas na terra.

Uma ou outra cruz solitária, quase engolida pelo relvado, toscamente improvisada, fincada no solo do que fora no passado um campo à beira da estrada, marcando o local de descanso final de um anônimo qualquer, talvez um soldado, talvez um camponês, jamais saberíamos.

O olhar silencioso e por vezes inquisitivo daqueles por quem passávamos, interessados quem sabe em descobrir o que seria do futuro como se nós tivéssemos as respostas.

O Jeep parou na entrada da alameda de ciprestes. Desci com dificuldade sob o sol ameno da tarde que espalhava sua luz na paisagem como se iluminasse um quadro de Monet. O vento embalava suave as copas das árvores. Pequenas e delicadas prímulas multicoloridas salpicavam o relvado nas laterais da estrada, adornando os pés dos velhos ciprestes. A medida que eu avançava claudicando pelo longo corredor, pensava como aquele lugar era nostálgico no inverno e poético no verão. Tudo parecia calmo, nada parecia ter mudado. A casa. Os escombros. O lugar parecia desabitado. Contornei a lateral em direção aos fundos, a parte habitável da casa, ouvi o som de louça, meu coração acelerou. Quando subi o único degrau para a porta da cozinha eu a vi de costas.

Ela não percebeu minha presença, tinha o olhar fixo através da janela, no fundo do quintal Giani brincava com um cachorro esquelético.

“vejo que a família aumentou de tamanho” eu disse, sorrindo. Surpresa ela levou a mão ao peito como se tivesse levado um susto, apoiou-se na beirada de uma pia improvisada. Após recuperar-se correu para os meus braços despejando uma torrente de palavras em italiano.

“calma, calma, devagar, do contrário não vou entender uma só palavra” murmurei suavemente ao seu ouvido. Senti a pele do meu rosto umedecer. Ela estava chorando.

Senti os seus lábios nos meus e o sabor salgado de suas lágrimas. Sussurros e soluços entremeados de “io pensavo che tu eri morto”, “Pensavo che non ti vedrei piu” eu pensei que estava morto, pensei que não o veria mais.

A noite cobriu a bucólica paisagem primaveril com seu manto negro salpicado de estrelas. Com ela veio o silencio, e sob aquele silêncio entregarmos nossos corpos e espírito ao amor. E nos amamos. E após nos amarmos permanecemos durante algum tempo em silencio, abraçados, deitados sobre o lençol no chão da cozinha. Imersos em nossos pensamentos.

Sobre a mesa uma vela bruxuleante vez por outra entretia-nos fazendo dançar nas paredes as sombras da parca mobília. Giani dormia profundamente na outra estremidade do cômodo acompanhada de perto por Fiorella, na verdade, a pequena cachorra que aparecera atrás de comida e acabara ficando por ali mesmo.

Os sons da noite eram apenas o respirar profundo da criança adormecida. O crepitar da lenha no velho fogão. O murmúrio do vento lá fora, lambendo as copas das árvores. A respiração cansada dos amantes.

Não mais o barulho das armas, nem o silvo dos tiros esparsos ou o martelar dos canhões. Apenas a paz após o ato magnânimo do amor...