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      A BORBOLETA  ZUKA E PEGASO, O CAVALO ALADO


 
     A borboleta Zuka* nasceu em um pequeno país da América Central, a Costa Rica. Ainda pequena, voou para o Brasil com os pais e com toda a família, em viagem longa e cheia de perigos. Foram morar em cidadezinha no sul de Minas Gerais, cidadezinha chamada Lambari, nome de um peixe minúsculo também.
    Zuka, já ao chegar, apaixonou-se pelas montanhas, pela serra de Minas, e costuma dizer a cada uma das borboletas amigas, às apenas colegas, também às desconhecidas, assim como aos seres das outras espécies, que a serra de Minas é a mais linda do mundo, o que deve ser exagero, mas ela nem suspeita que esta possa não ser toda a verdade, porque é a verdade do seu coração.  
    Passa os dias a voar, a voar, a voar, sobre o lago Guanabara, sobre a cachoeira João Gonçalves e sobre as Sete Quedas, a sentir o frescor e a doçura das águas nas asas, todo o tempo o fragor dos tempos das águas nas asas. Voa pelos campos, a olhar as vacas e os cavalos. Pousa nos cabelos das pessoas a passear de charrete. Pousa nas paredes douradas do Cassino do Lago, que parece um castelo. Conhece de perto, de pertinho os matizes, em todas as estações, das folhas das árvores residentes no Parque das Águas.
    Orgulha-se das suas amizades nos reinos mineral, vegetal e animal. As fontes das águas medicinais lhe sussurram seus segredos, assim como as flores, assim como os animais do parque. Ela ouve tudo, tenta compreender tudo, procura e muitas vezes encontra para cada confidência a palavra certa, talvez porque – e isto ninguém mais sabe, à exceção de seus amigos, a borboleta Psique e Pégaso, o cavalo voador – milhares de anos antes de ter nascido na Costa Rica e de ter vindo habitar a serra de Minas, foi uma princesa na China imperial. Não me perguntem como isto lhe chegou ao conhecimento, o fato é que o sabe. Sabe também que, tendo sido aquela princesa-mulher, ela o era apenas ao longo das horas dos dias, visto que, ao nascer de cada crepúsculo, transformava-se no que nunca deixou de ser: uma borboleta.
    Eram os tempos do sábio Lao Tse, que conta em um de seus livros a história de Chuang Chou, chinês que também, em todas as noites, virava borboleta, exatamente como a nossa protagonista.  
    Foi naquele tempo, tempo de dupla natureza, que Zuka aprendeu em seu próprio ser os desejos e a linguagem do ser humano, sua ânsia de voar, sua angústia por ter os pés sempre presos ao chão.  Ela, senhora nos dois mundos, aprendeu a sofrer pelas amigas e pelos amigos, as mulheres e os homens do reino, nenhum, como ela, com o poder de voar, assim que a noite despertava. Ao mesmo tempo, sentia-se muito só, que a ninguém podia confiar seu segredo; só poderia tê-lo confiado a Chuang Chou, em razão da partilha do destino comum, a Chuang Chou que jamais chegou a conhecer. A ela também não foi dado saber o porquê de ter perdido, sabe-se lá há quanto tempo, talvez há séculos, a condição de ser humano e por essa razão não ter podido, nunca mais, ter pés para pisar na terra, para correr, nem mãos para tocar, nem braços para abraçar nada nem ninguém. Não poucas vezes, sente o conhecimento dessa perda como uma fundíssima dor, mas, a condição de borboleta não lhe permite deter-se por demasiado tempo nela, em tal dor, que o que lhe foi dado como função, na presente vida, é voar, voar e voar, bem como pousar, de vez em quando, nesta e naquela folha, por puro deleite, e nas flores, para sugar-lhes o néctar ou, a tarefa de escutar e de responder às falas e aos sussurros dos outros seres da natureza, amigos seus. Sua amiga, a sábia Psique, costuma dizer que, mais importante do que tudo, é cada um compreender para o quê veio a este mundo e viver de acordo com tal conhecimento, logo, Zuka deve se sentir e se saber privilegiada por ter asas e jamais sofrer por não possuir pernas, nem braços, nem mãos.
    Zuka sente-se, realmente, privilegiada, quando as águas de Lambari lhe dizem da alegria delas, águas, por curar as pessoas que, tantas vezes, vêm de muito longe para buscar nelas, águas, a cura; quando a égua Tieta, agora aposentada, lhe conta de como era bom transportar, na charrete, os turistas às cachoeiras, ao Parque Nova Baden, aos rincões mais distantes da cidade; quando este e aquele poeta, da própria Lambari ou vindo de megalópole, lhe declama os poemas nascidos ali, junto à serra de tão puro contorno, junto às pessoas simples, junto aos pássaros do lugar. Em tais ocasiões e a sorver a diafaneidade das manhãs e das tardes, Zuka se sente perfeitamente feliz. Como todo prazer vem acompanhado, infalivelmente, por alguma dor, lhe é muito difícil  não  encontrar   a   palavra  certa,   de  conforto,  se  alguém lhe confidencia males de dimensões para além de sua compreensão, ou se as palavras, que deveriam sempre estar a serviço da comunhão entre os seres funcionam, em determinadas situações, como fonte de equívocos e de mal entendidos, situações que também, volta-e-meia lhe cabe presenciar, pelas palavras proferidas por outros, ou sofrer pela incompreensão gerada por suas próprias palavras, dela, Zuka.  Quando tais coisas acontecem, corre para a amiga Psique, que lhe diz: “Amiga, nenhum ser deve pretender-se maior do que lhe permita a sua própria estatura”, fala que leva Zuka a profundas reflexões.  

    Quando o viu pela primeira vez, era quase hora do crepúsculo, era quase a hora em que a princesa que ela fora na China imperial transformava-se em borboleta. Os raios do Sol ainda refletiam sua luz sobre os campos e a serra, mas, já se via a tênue silhueta da Lua, nos preparativos para a abertura da noite com todas as estrelas que povoam os céus e que só se dão plenamente à nossa vista nas amplidões não ofuscadas pelas luzes de néon.   
    Os cavalos corriam pelo campo, leves, livres, sem rédeas, sem peias, sem cercas. Zuka adorava ver a força e a elegância de suas patas na corrida.  Acompanhava-os sempre a uma distância prudente, jamais tendo ousado pousar-lhes sobre o dorso, ou sobre a cabeça.  Eram muitos, nas várias tonalidades de marrom; eram preto-reluzentes; eram, um e outro, brancos; foi entre esses que o viu, e se deslumbrou, porque ele não se parecia com nenhum ser que ela já tivesse visto, na realidade nem em sonho.  
    O cavalo branco a correr como os outros, a correr com os outros: um igual.  Não era um igual, que se lhe podia ver as asas, asas de alvura incomparável que, abertas em voo, devem representar o espetáculo da mais pura  absoluta beleza  no céu: foi assim, em voo, que Zuka imediatamente o visualizou. Nessa noite, nossa borboleta foi presa de sonhos estranhos, vagando entre as estrelas, voando entre as estrelas, sentindo-se, por fim, como uma delas, como alguém que volta para casa.
    Durante muitos dias Zuka voou apenas pelos espaços que ainda não conhecia em Lambari, porque não queria ser reconhecida por ninguém. Absorta, não era capaz de ver, com
olhos do corpo, os detalhes das novas paisagens que, diante dos olhos da alma, permanecia a imagem única do cavalo com asas imaculadas.
    Os sonhos prosseguiam e em todos Zuka se via como a mulher chinesa que sabia ter sido. Diante da janela do palácio vendo passar os soldados a caminho da guerra... a colher flores no jardim... a escrever poemas em seu diário... Em um desses sonhos viu aproximar-se um homem com vestes de monge, que lhe disse: ”Eu sou Chuang Chou.” Sempre ao acordar tinha a sensação de ter estado em território proibido. E, todos os dias se lembrava e se identificava com a frase de Lao Tse a descrever seu personagem: “ Sonhava tanto e tanto e tanto que já não sabia se era um chinês a sonhar que era uma borboleta ou uma borboleta a sonhar que era um chinês.” Embora o quisesse muito, jamais sonhava com o cavalo alado que só vira uma vez, e em terra. Ausente do universo onírico, a lembrança dele lhe invadia o pensamento a cada momento das manhãs e das tardes, até a hora de dormir.    
    Certo dia, exausta de tais clausuras, Zuka procurou sua amiga Psique, a borboleta sábia, e lhe disse da visão do cavalo de asas a correr no campo, misturado aos irmãos sem asas e lhe disse dos sonhos recorrentes e lhe disse dos pensamentos sem trégua em cada momento de vigília. Psique ouviu tudo com extraordinária atenção, em seguida imobilizou-se e fechou os olhos. Por um tempo que a Zuka pareceu interminável, manteve-se assim, imóvel e absorta, como em transe. Zuka começou a dizer alguma coisa, mas, a amiga fez sinal para que se calasse.
    “Vou dizer de seres e de fatos ocorridos nos tempos da minha primeira vida, da minha vida original. Eu, Psique, tornei-me esposa de Eros, o Amor. Por haver transgredido uma imposição de natureza superior, fui separada do meu Amado e condenada pela mãe dele, Afrodite, a passar por provas terríveis, de impossível cumprimento: se as vencesse, poderia reconstituir meu casamento com Eros. Condenada, antecipadamente, ao fracasso, fui dele, fracasso, salva pela ajuda de outras divindades, através da ação de seres da natureza, como as formigas e uma águia. A derradeira prova consistia em descer aos Infernos, em obter de Perséfone, esposa de Hades, um frasco cheio com água da Juventude, trazê-lo comigo à Superfície sem abri-lo, em hipótese alguma, no percurso de volta ao mundo dos vivos. Apenas se conseguisse resistir à curiosidade, seria considerada vitoriosa. Ocorre que não resisti, abri o frasco e caí em sono profundo, que se perpetuaria não fora Eros, guiado por seu próprio amor, ter-me encontrado, e por seu poder de Deus ter me libertado do sortilégio. A partir de então, pudemos ser totalmente felizes.”
    “Era um tempo e uma Terra povoada de deuses, semideuses, heróis, donzelas, monstros. Entre as donzelas havia uma por nome Medusa,  muito bela e com cabelos mais belos ainda. Incorrendo no terrível pecado da hybris, do orgulho desmedido, começou a afirmar-se mais formosa do que Atena, a deusa da sabedoria. Esta, então, puniu Medusa, transformando-a em um terrível monstro com cabeça cheia de serpentes, monstro com o poder de petrificar todo e qualquer ser que o fitasse, tornando-se um perigo mortal, até mesmo para os deuses.”
    “O herói Perseu, durante um banquete, vangloriou-se dizendo que traria ao rei do local a cabeça da Medusa. Precisando cumprir a promessa, acabou por conseguir a ajuda de Hermes e de Atena, que lhe deram os instrumentos para vencer o monstro. Munido de tais instrumentos, Perseu realmente logrou vencê-la, a Medusa, e cortou-lhe a cabeça, guardando-a desde então consigo, como uma espécie de escudo. Do sangue jorrado do corpo da Medusa, nasceram dois seres, o gigante Crisaor e Pégaso, o cavalo alado, o mesmo cavalo alado que Zuka viu a correr pelos campos, na companhia dos outros cavalos.”
    Psique calou-se e permaneceu ainda um tempo de olhos fechados, olhos que foi abrindo devagar, para devagar ir saindo daquela espécie de sono hipnótico. Zuka não conseguiu pronunciar palavra alguma.

    A borboleta Zuka recomeçou a esvoaçar, incessante, pelos campos de Lambari, ansiando por ver, entre os outros cavalos, o cavalo de asas, que agora sabia chamar-se Pégaso, mas Pégaso não se deu mais a nenhum seu olhar. Começou a achar que aquela imagem em que o vira não fora mais do que fugaz produto de uma alucinação. De todo modo, restava a pergunta: “Por que um cavalo de asas?  Se eu tinha o poder de fabricar qualquer outra imagem, por que fabriquei a de um cavalo de asas? E por que não o criei a voar, mas a correr, como qualquer cavalo comum?   E se punha a olhar o céu.
    Aos poucos, foi desistindo da procura e os dias e as noites foram recuperando o seu rosto habitual. Nos sonhos já não lhe aparecia mais a princesa da China nem a presença inesperada do monge chamado Chuang Chou. Apenas sobrevivia muito forte um sentimento de estranheza diante de sua amiga Psique, principalmente pelo que ela havia dito a respeito de si mesma: Psique, esposa de Eros, deus do Amor... como podia ser isso?  Quanto ao que Psique dissera sobre a origem de Pégaso, paradoxalmente, a lembrança daquelas informações não a perturbava nem um pouco.

    Era uma linda manhã de Outono e Zuka voava em direção à cachoeira João Gonçalves quando, numa curva do caminho, junto da encosta e da paineira, a sua árvore mais querida, a árvore que floresce no Outono, lá estava ele, o cavalo de asas. No exato instante em que a viu – foi esta a sensação que ela teve – ele bateu fortemente com um dos cascos na encosta e de tal impacto brotou da terra uma magnífica fonte. Para sua enorme surpresa, Zuka se perturbou menos com o fato de vê-lo assim, surgido do nada, menos ainda com o surgimento miraculoso daquela fonte pela ação de seu casco; o que a perturbou, deveras, foi o teor do primeiro pensamento que lhe ocorreu: “Para quê mais uma fonte em Lambari, terra das fontes? Já que ele tem poderes mágicos, poderia ter feito surgir outra coisa qualquer.” Certamente por ter-lhe adivinhado o pensamento, o cavalo alado respondeu: “Esta não é uma fonte como as que você e todos conhecem aqui. As fontes de Lambari têm o poder de curar  as doenças do corpo. A saúde do corpo é fundamental para a saúde da alma, a da alma para a  do corpo. Quem beber desta água que acabo de fazer brotar, quem banhar suas mãos nela, receberá das  musas  alimento  para  a própria alma,  e o  maior  alimento  para a alma         
é o dom da poesia, se ainda o ser não for poeta;  a inspiração para  voos mais altos, se for poeta  a sentir que as palavras  o partiram e partiram para sempre. Não é a primeira vez que crio uma fonte como esta.”
        Zuka sentiu que ele havia feito tal gesto em homenagem a ela, ainda que não pudesse compreender-lhe os porquês.  Foi assim que se deu o primeiro encontro entre a borboleta Zuka e Pégaso, o cavalo alado.

        E os encontros se sucediam, como nascem as manhãs. Pégaso lhe dizia dos mistérios do seu nascimento; dizia-lhe das paisagens da Grécia, sua pátria, do incrível azul de seus mares, da profundidade de suas grutas; dizia-lhe do Olimpo e dos deuses, de Apolo e de Dionísio, de Afrodite e de Atena, de Poseidon, deus dos oceanos e pai dele, Pégaso; de Hades, deus dos Infernos e de Zeus, o deus supremo; dizia-lhe dos centauros, seres híbridos metade homem, metade cavalo, entre os quais Quíron, o centauro sábio, o curador ferido. Dizia de sua mãe, Medusa, o monstro, que um dia fora uma donzela linda. Dizia do herói Belerofonte, que fora seu dono e que, montado no dorso mágico dele, Pégaso, lograra exterminar a Quimera, ser com cabeça de leão, corpo de cabra, cauda de dragão e que expelia chamas mortíferas, fatais.
        Zuka se dava conta de que todas as vezes em que falava de Belerofonte, (Pégaso falava muito dele) seu amigo alado se entristecia. Indagado sobre as razões para tal tristeza, sempre se esquivava a dar qualquer resposta até que, certo dia, diante da insistência da amiga, acabou por dizer as seguintes palavras:
       “Belerofonte, meu dono, meu amo, era um herói extraordinário. Eu o amava e ele a mim. Éramos uma dupla perfeita e juntos vencemos as mais terríveis batalhas. Depois de derrotarmos a Quimera, meu dono e amo, tal como minha mãe se viu presa da hybris, do orgulho desmedido e começou a julgar-se invencível. Deste sentimento nasceu-lhe o desejo insensato de invadir a morada dos deuses, o Olimpo. Tentei dissuadi-lo de tal empreitada, muitas e muitas vezes, sempre em vão. Ele não me ouvia nem me dava razão; ao contrário, cada uma de minhas falas aumentava-lhe o desejo.”
        “Lembro-me bem: era uma manhã clara como esta, uma manhã de luz, e Belerofonte me convidou para um passeio pelos límpidos céus da Grécia. Voávamos pelos campos a ver as cabras e os pastores em sua lida, a ver as abençoadas oliveiras, e as florezinhas anônimas, e os camponeses a colher os feixes de trigo, e o oráculo de Delfos com os peregrinos  à espera das profecias de Pítia, a sibila de Apolo ... quando meu amo, em uma guinada brusca, dirigiu-nos a subida em direção ao monte Olimpo. A mim não restou senão o dever de derrubá-lo, e a seu louco intento.”
        Pégaso baixou a cabeça e assim permaneceu por longos, longuíssimos momentos. Zuka viu as grandes lágrimas que lhe caíam dos olhos a umedecerem a relva e sentiu, na sua própria alma, os ecos fundos da dor do amigo. Não havia palavra a dizer, a única coisa a ser feita era ficar diante da manhã, a vê-la escoar suas últimas horas no mais absoluto dos silêncios, em comovido silêncio, como o silêncio deles dois.
 

        Presa de emoção profunda, de teor desconhecido, Zuka recolheu-se, durante bom tempo, em seu casulo interior. Não queria ver Pégaso, nem Psique, nem ninguém. Os sonhos voltaram, em outra espécie de recorrência. Neles, ela se via novamente mulher, e não mais princesa, dessas a quem todos servem e que nasceram para ser servidas. Não. Esta em que agora se via, era uma mulher simples a viver em um pequeno sítio nos arredores do lago Guanabara, sítio com uma horta, o cercado de galinhas, o jardim de rosas silvestres e margaridas, sítio sobre o qual a borboleta Zuka costuma voar, quase todos os dias.  
        A mulher do sonho embala uma criança, cantando, como todas as mães, uma doce cantiga de ninar. A criança dorme, ela a coloca no berço.  Vai para a cozinha, dispõe os pratos e os talheres sobre a mesa, e aguarda. O marido chega, beija-a carinhosamente, vai até o quarto, detém-se por um instante a olhar o filho adormecido, volta à cozinha, senta-se, a esposa o serve, depois a si mesma; fazem uma pequena oração de graças pelo alimento recebido e põem-se a comer, em silêncio.
        O mesmo sonho se repete, a cada noite, sempre o mesmo, com mínimas alterações.
        Zuka se dá conta: está apaixonada e sonha com um lar, com o mais tradicional dos lares. Zuka é uma borboleta e seu amor, um cavalo alado. De comum entre eles, apenas o ato de voar, as asas. As dele, poderosas, para voar a grandes alturas. As dela, pequenas e frágeis asas de borboleta, asas que conseguem, no máximo, chegar ao topo das árvores médias, não mais do que isso.
        Zuka é uma borboleta, seu amor é um cavalo alado. Não é possível sonhar sequer com um simples beijo.  
        Zuka é uma borboleta e seu amor, um cavalo alado. Que sonho Pégaso, o cavalo alado do seu amor, está a sonhar neste momento?
        Definitivamente, a borboleta Zuka não sabe mais quem é, nem tem a menor ideia de para o quê veio a este mundo.

        Quando decidiu sair de seu ensimesmamento, Zuka voltou a encontrar Pégaso, em uma das veredas da cidade de Lambari. Ela percebeu que também nele algo novo se estava passando, algo diferente do habitual, algo a que ela não ousava dar o nome que seu coração desejaria dar. Talvez para compensá-la e para compensar-se a si mesmo das impossibilidades de todo absoluto, o cavalo alado convidou-a para voar com ele. Com a frágil borboleta pousada sobre o dorso, Pégaso alçou um voo poderoso e ao mesmo tempo gentil, até as nuvens mais próximas, para não causar vertigem à companheira.  
        Se tivesse mãos, Zuka poderia tocar as nuvens branquinhas como algodão doce de criança. Não tem mãos, é certo, mas tem olhos, e olha as nuvens assim tão de perto, com o enlevo agônico de sentir – tomara esteja enganada - que esta primeira vez será também a última, a derradeira vez que voa com seu amado. Assim olha a terra, o campo, as cachoeiras, o lago, o cassino que parece um castelo, os cavalos sem asas, as vacas, tudo tão à distância como se fossem coisas em miniatura. Nunca antes o vira voar, e estava voando com ele, voando mais alto do que no mais ambicioso sonho que jamais ousara sonhar.  
        Pégaso voa em majestoso silêncio, como a conferir ao mistério que está sendo vivido por ambos todo o seu valor e todo o seu peso.  

        A Zuka parece que voam invisíveis e, assim invisíveis não pertencem mais a espécies diferentes, a corpos tão irremediavelmente incompatíveis. Assim invisíveis, são como um único corpo, um único ser, como o são os amantes verdadeiros, aqueles que se amam em um tempo que não existe e para além de todos os mundos com seus limites. Para que caiba em seu minúsculo corpo sentimento de tal magnitude, Zuka se imagina do tamanho do universo e sente, em mistério absoluto, que com Pégaso se passa exatamente o mesmo. Se alguma criança, ou algum poeta, ou algum louco, ou algum bêbado estiver olhando para o céu de Lambari nesse momento, haverá de se extasiar com o voo do mais belo cavalo de asas jamais visto e talvez, talvez creia nos seus próprios olhos. Pena que não possa ver também a borboleta pousada sobre o dorso desse cavalo alado, a voarem ambos sobre a serra de Minas que, segundo Zuka, e isso ela continua a dizer a todos, é a serra mais linda do mundo.

        Zuka não sabe, mas, certamente, ela algum dia ainda o virá a saber:  seu amado Pégaso, por ter impedido que o dono e amo Belerofonte profanasse o monte Olimpo, morada dos deuses, foi transformado por Zeus, o deus supremo, em uma constelação para sempre no céu de todos os tempos, para sempre no céu de todos os mundos.
 
        A borboleta Zuka ainda não sabe que cada ser carrega dentro de si o potencial para vir a se tornar, mesmo que só daqui a muitas eras cósmicas, também uma constelação.
 


*Zuka, diminutivo de Zuleika, parte do nome científico de uma espécie de borboleta originária da Costa Rica (Heliconius Hecale Zuleika).
Texto escrito entre os dias 19 e 24 de abril de 2011, no decorrer da Semana Santa.










 
Zuleika dos Reis
Enviado por Zuleika dos Reis em 13/01/2021
Reeditado em 22/01/2021
Código do texto: T7159033
Classificação de conteúdo: seguro


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