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O Cão, o Gato e a Menina

        Era um cão descomunal, uma fera enorme. Quando corria em direção ao portão parecia que ia saltar por cima sem dificuldades nenhuma; ou derrubá-lo com o choque do seu corpanzil. Sempre alerta, se alguém passasse perto demais do portão tomava um enorme susto com aquele monstro latindo e cuspindo a sua baba nojenta para todos os lados.

        Atendia pelo sugestivo nome de Jack.

        Ninguém em sã consciência se atrevia a entrar no quintal de dona Helena, mesmo em sua companhia, era trabalhoso e muito arriscado. Sempre que recebia visitas ou prestadores de serviço, fazia-se necessário o inconveniente de trancar o cão na jaula.

        Quando a criançada se punha a jogar bola na rua, se por ventura a bola caísse no quintal de dona Helena e, sabe-se lá por obra do que, era lá que a bola teimava sempre em cair, Jack decretava o fim da brincadeira. Caía sobre o inocente brinquedo, feito tresloucado destroçando-o com sua enorme boca cheia de dentes e germes. Todos Imaginavam o que não faria, a fera, se por descuido ou por atrevimento uma daquelas crianças adentrasse o quintal atrás da bola...

        O fato é que, por por esses e outros motivos, todos odiavam aquele cão. Nunca um cão fora tão odiado quanto Jack. Acredita-se que nem mesmo dona Helena gostava dele. A garotada, sempre criativa, bolava planos mirabolantes para entregá-lo em dias que a carrocinha de cachorros passava pela rua.

        Em contrapartida estava Tebegonho, um gato que de tão pequeno que era todos achavam que era um filhote. Tebegonho era adorado pela criançada, por ser um gatinho muito fofo e também por pertencer a Rosinha, a menina mais querida da rua.

        Quando Tebegonho, em suas andanças, passava pelo portão de Jack, esse explodia em latidos que eram ouvidos nas ruas adjacentes.

        Frequentemente, o cão era visto deitado em seu quintal, a acompanhar com os olhos tomados de ódio, o vai e vem do pequeno gato, subindo paredes, pulando de um muro para outro, sendo acariciado pelas crianças... Jack ficava ali como que consumido por um misto de ódio e inveja.

        Dona Helena mantinha em sua casa um belo jardim com belas hortênsias, roseiras e outras espécies que ela cultivava com um amor e uma dedicação quase maternal...Tebegonho, então, pegou o hábito de fazer suas necessidades fisiológicas no dito jardim. Pela manhã dona Helena explodia em gritos e palavrões escabrosos capazes de causar inveja ao mais desbocado peão de obra.

        Claro que acabava sobrando para Jack que calado ouvia a sua dona lhe chamar de cão letárgico, parasita dorminhoco, tênia imprestável, besouro rola-bosta, entre outras coisas que não se sabe onde essa digna senhora ia buscar quando o assunto era achincalhar o cão.

        Jack jurou para si que pegaria o gato, naquela noite mesmo se possível. La pelas tantas da madrugada quando Tebegonho estava encobrindo o seu rastro com terra no jardim de dona Helena, ele o surpreendeu. O gato se arrepiou todo, em alerta, pós suas unhas para fora como se fosse o Wolverine. Quando Jack aproximou a sua fuça gigante, Tebegonho arranhou-lhe o focinho com suas unhas afiadas e ligeiras, depois se embrenhou entre as hortênsias. O cão se enfiou pelo jardim adentro destruindo tudo que encontrava pela frente a procura do gato, esse já se encontrava sobre o muro olhando para Jack e mostrando os seus minúsculos dentes. Depois, num salto desceu do muro, atravessou a rua e sumiu na noite preta.

        Na manhã seguinte quando dona Helena foi regar as suas flores, quase teve um ataque. Não podia acreditar no que via. Quem fizera aquilo... não custou muito em deduzir o que acontecera. Então, passada de ódio, pegou uma vara ali mesmo no jardim, dirigiu-se até onde jack estava acuado; dir-se-ia que encolhera; sem dó espancou o cão até acabar as forças de ambos, quando não aguentava mais levantar o braço para bater, começou a chutar o cão. A velha babava de raiva, chamava o cão pelos nomes feios de costume.

        Jack, cheio de dor e cortes na pele das costas, levantou a cabeça e viu Tebegonho lambendo as patas deitado na sacada da casa em frente. Assistia a cena toda. Um ódio tão grande se apoderou do coração canino de Jack, a vontade que tinha era de pular o portão, subir naquela sacada e estraçalhar o gato com seus enormes dentes. Mas... não tinha forças por causa da surra que levara.

        Levou quatro dias para que se recupera-se daquela surra. Exatos sete dias após esse episódio, em uma madrugada, ao fazer uma ronda pelo quintal Jack avistou, agachado no jardim, ninguém menos que Tebegonho. Jack caminhou tão silenciosamente que quando o gato percebeu já era tarde demais. Jack o abocanhou e o espremeu entre seus dentes enormes. Não demorou muito para que as sete vidas do gato terminasse ali na boca da fera. Jack então levou o seu troféu até o portão e o largou ali, para que todos vissem, o corpo partido do gato morto. A cabeça amassada e pendurada por um fiapo de pele. A língua para fora da boca, com um corte que a dividiu ao meio. Não era uma cena bonita de se vê.

        Jack ainda dormia quando ouviu o grito de Rosinha que saia para ir à escola. Correu até o portão onde a mãe tentava segurar a filha. O cão e a menina se encararam por um instante. Jack parecia querer arrancar a cabeça da pequena Rosa Maria, igual fizera com o seu gato. 'Eu vou matar você seu miserável saco de pulgas', disse Rosinha ao cão que a olhava eufórico e altivo.

        Rosinha, entristecida, não foi a escola naquele dia, após recuperar o que restou do corpo do pequeno Tebegonho, o colocou em uma caixa de sapatos e o enterrou num canto do último terreno baldio que ainda existia na rua, depois passou o resto da manhã afiando um cabo de enxada que era quase duas vezes maior que ela.

        Dona Helena costumava sair todas as tardes para um passeio com as amigas. Naquela tarde Rosinha estava a espreita. Quando dona Helena saiu de casa a menina pegou sua lança improvisada e como um guerreiro pronto para a batalha, pulou o muro. Agora estava nos domínios da fera, frente a frente com aquele que matara o seu doce gatinho. A fera não entendeu nada a principio, quando caiu em si, levantou-se e se pôs a ladrar para a pequena guerreira.

        Os garotos na rua faziam uma algazarra tremenda gritando o nome da menina. Os gritos de apoio chegaram, inevitavelmente, aos ouvidos da mãe de Rosinha. Essa ao sair à rua viu, por cima das cabeças das crianças que se amontoavam no portão, sua menina com a lança improvisada em punho apontada para a fera que parecia maior e mais assustadora do que nunca aos olhos da mãe. Correu então em direção ao portão gritando o nome da filha.

        Nesse momento, Jack resolveu tomar uma atitude de cão, deu uma pequena recuada e se apoiando nas patas traseiras se preparou para pular sobre a menina. A criançada apreensiva calou-se.

        Com o coração batendo no fundo da garganta, Rosinha, como que vacilando por um instante, deu um passo para trás. Seu pé, então, entrou em uma valeta que servia para escoar a água da chuva. Ela caiu para trás no mesmo instante em que a fera saltava sobre ela indo cair sobre a lança que ficara travada no buraco no chão. A lança entrou pelo peito de Jack indo sair nas costas, esse deu um grunhido e depois calou-se para sempre. A garotada, la fora dos portões, foi a loucura com o desfecho da cena. Rosinha que tinha meio corpo preso em baixo do cão morto se livrou com dificuldade, depois levantou-se. A mãe desesperada pedia para que a filha pulasse para fora da propriedade de dona Helena.

        Rosinha ainda deu uma boa olhada na cara do cão morto, como que para constatar se esse estava realmente morto, depois pulou de volta o muro indo cair, primeiro nos braços da criançada que a saldou como a um herói que volta vitorioso da guerra, e depois nas mãos da mãe que a levou para dentro embaixo de chineladas e puxões de orelhas. Mas todos sabiam que o coração daquela mãe estava cheio de orgulho pela sua pequena guerreira.

        Claro que quando dona Helena chegou em casa e se deparou com aquela cena, armou um salseiro danado. Mas isso já é história para um outo dia...


***FIM***
Valldo Lima
Enviado por Valldo Lima em 18/07/2018
Reeditado em 21/07/2018
Código do texto: T6393709
Classificação de conteúdo: seguro

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Valldo Lima
São Paulo - São Paulo - Brasil
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