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REDENÇÃO



Então com dezesseis anos, fugindo de um pai tirano, encontrei abrigo no convés do pequeno pesqueiro Onga Brid, de propriedade do Capitão Joseph Stiver. Não que ele tivesse me convidado para ser a sua tripulação, mas porque simplesmente não se importou ao me encontrar dormindo entre os trapos naquela manhã cinzenta em que cheguei ao porto de Saint Andres. E como a vida já começava a cobrar o preço das noites de orgia e embriaguez do velho capitão, que jamais abandonava o seu cantil de rum, eu servi muito bem para fazer o serviço que seu corpo já não se dispunha com o vigor de outrora.
Depois vim a saber mais sobre aquele homem, e ouvi diversas histórias envolvendo sua bravura em inúmeras batalhas navais durante a grande guerra. Essas lendas já faziam parte do imaginário popular que circulava as docas, entre marinheiros, comerciantes e prostitutas, de maneira que muitas delas poderiam ter sido severamente distorcidas ao passar de boca para boca. Mas para um garoto que tinha como espelho um homem que só prestava para espancar mulher e filhos, aquele senhor taciturno, de barba cerrada e olhos longínquos, com seu quepe de couro surrado e sua indissolúvel jaqueta militar, rapidamente se tornou um ídolo. E, por Deus, onde quer que o capitão fosse, eu estaria ao seu lado. E se alguém o desmerecesse, seja por palavra ou por atitude, encontraria em mim um feroz inimigo.
E ao longo daqueles anos eu efetivamente fui sua companhia inseparável, tanto nas noitadas regadas a rum, cerveja e mulheres da vida, quanto nas transações comerciais ao longo da bacia do Clerg, desde o porto de Saint Andres até o rio Dith, penetrando na selva através de seus diversos afluentes navegáveis. Carregávamos o Onga Brid com tonéis de aguardente e vinho, garrafas de bebidas alcoólicas mais exóticas, haxixe e outros alucinógenos, espelhos, tecidos, prataria, enfim, todo a sorte de bugigangas que os mercadores do Cairo traziam ao porto, e descíamos o Clerg negociando com as diversas tribos ribeirinhas. Mas o destino principal era a aldeia do chefe Maruk, onde o capitão Stiver conseguia trocar aqueles utensílios ordinários pelas pedras preciosas mais magníficas que circulariam depois pelo mercado negro de jóias do mundo ocidental. Se fosse um homem inclinado à avareza, as pedras daquela aldeia poderiam ter feito a sua fortuna, porque era um negócio inescrupuloso e extremamente lucrativo, no qual o capitão explorava ao máximo a simploriedade de seus fornecedores – apesar de que, nos últimos tempos, o chefe Maruk estivesse cada vez mais ganancioso, pois a renda obtida das trocas com o capitão lhe gerava recursos para a compra de escravos, e logo percebeu que, quanto mais mercadorias ele cobrasse pelas pedras, mais escravos poderia comprar, e naquela época o poder de um chefe se resumia ao número de escravos que ele dispunha. Mas Joseph Stiver não tinha outra ambição senão viver um a um os dias que ainda lhe restavam sobre a face da Terra, e assim o dinheiro que fazia, negociando as pedras com os traficantes do Ocidente, ele esbanjava nas intermináveis farras nas tabernas do porto, cercado pela lealdade dos falsos amigos e pelo amor forjado das prostitutas mais caras.
Foi numa destas expedições que encontramos a aldeia em uma condição bastante incomum. Em dois anos acompanhando o capitão em suas incursões, eu ainda entendia muito pouco o dialeto praticado naquela tribo, mas os sinais me fizeram entender o que se passava por ali. Alguém muito próximo ao chefe Maruk havia morrido afogado naquele dia, não soube exatamente em quais circunstâncias. Mas o fato é que, como forma de homenagear o falecido, o chefe havia ordenado que vários de seus escravos fossem amarrados pelas mãos e pés e presos a uma canoa. Estava então programado que, ao cair da noite, a canoa seria rebocada para o meio do rio, e buracos seriam feitos em seu casco, de modo a afundar junto com sua carga humana.
Percebi imediatamente uma alteração profunda no semblante do capitão, ao tomar conhecimento daquela tragédia iminente. Eu não fui capaz de discernir seus pensamentos, mas dentro dele empoderou-se um sentimento a favor daqueles seres desafortunados que, mesmo sem culpa alguma, haviam sido cruelmente marcados para a morte. Ao longo da tarde ele tratou de fazer todos os negócios possíveis, numa ansiedade que não lhe era peculiar. Ordenou que eu transportasse tudo para o Onga Brid sem demora. E quando o sol começou a se pôr atrás da mata, chamou-me para embarcar. Descemos até a próxima curva, desaparecendo da vista dos habitantes da aldeia, mas ao invés de continuar, o capitão deu meia volta e atracou na outra margem. Eu fiquei sem entender, mas também não me atrevi a perguntar o que estávamos fazendo ali parados no leito do rio. Tão logo a luminosidade se apagou no céu, ele virou o cantil de rum num grande gole, deu novamente partida no motor do Onga Brid, e rumou de volta à aldeia. O farol iluminou o caminho, e rapidamente avistamos a canoa à deriva.
_Rápido, Yuri – ele gritou. Ajude-me a trazer esses infelizes a bordo.
Descemos à canoa, que já estava inundada até a metade, e sua faca liberou os membros amarrados dos escravos. Da margem ouvíamos os gritos inflamados de protesto dos homens do chefe Maruk, mas isso não o dissuadiu de sua atitude determinada em salvar aquelas pobres almas, mesmo sabendo que, com aquele ato, jamais poderia voltar àquela aldeia. Sua fonte de riqueza se esgotava ali, inexoravelmente. E quando os vimos todos espalhados pelo convés, com os olhos arregalados num misto de medo e perplexidade, ouvi o capitão dizer, quase num murmúrio:
_Já vi mais mortos nas águas do que qualquer ser humano poderia suportar. Basta para mim.
E então acelerou o motor, e saímos rio acima com aquela carga um tanto quanto inusitada.
Jamais havia visto o capitão Joseph Stiver sorrir. Tampouco o vi nesta ocasião. Mas mesmo na penumbra da cabine de comando do Onga Brid, eu percebi claramente um sentimento de redenção que, brotando do fundo da alma, emanava de seus olhos, naquele instante tão fulgurosos.


Lheizban
Enviado por Lheizban em 10/08/2018
Reeditado em 12/08/2018
Código do texto: T6415415
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Lheizban
Cambé - Paraná - Brasil
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