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A noiva relutante

[Continuação de "O preço"]

Na manhã seguinte ao encontro entre Monireh e Belatsunat, Ia, a mãe da noiva, quis saber como havia sido a conversa em particular entre a primeira esposa de Irshusin e sua filha. Monireh saiu-se com evasivas, enquanto ajudava Ia a preparar o desjejum na cozinha.

- Sem quebrar a confiança em mim depositada, posso lhe dizer, minha mãe, que Belatsunat acredita muito em mim.

- Já ficaram tão íntimas assim? - Admirou-se Ia.

- Como a primeira esposa me disse, em breve estaremos dividindo o mesmo teto, e é melhor que nos entendamos - declarou cripticamente Monireh, colocando a panela de barro com guisado de lentilhas e carne de ovelha no forno.

- Imagino que estavam discutindo as tarefas domésticas - comentou Ia, colocando pão de centeio, tâmaras secas e queijo de cabra numa travessa de madeira.

Monireh sentiu-se aliviada pela mudança de rumo da conversa.

- Verdade. Irei ajudar Belatsunat a administrar as atividades da casa de nosso marido em Babilônia, mas também serei escriba pessoal de Irshusin. Creio que hoje ele possui escribas contratados que cuidam da sua escrituração legal, mas a ideia é que eu supervisione o trabalho deles. Belatsunat recomendou que Irshusin me arrematasse no leilão também por conta disso, já que sei ler e escrever. "É um desperdício que você use esse talento apenas para ler poesia", ela me disse.

- Não que ler poesia para o seu marido não seja uma boa ideia - ponderou Ia. - Eu não sei ler, mas muito me alegra que você tenha aprendido e com isso tenha conseguido um bom casamento.

- Uma boa filha não poderia desejar coisa melhor, não é, mãe? - Indagou Monireh, provando o guisado com uma colher de pau.

- Uma boa filha não decepciona seus pais - atalhou Ia, colocando uma jarra de cerâmica com cerveja sobre a mesa. - E você certamente é o nosso orgulho, Monireh.

Satisfeita, a jovem inclinou-se e beijou a mãe no rosto.

- Prove - disse em seguida, estendendo a colher do guisado.

- Coloque um pouco mais de cominho - sugeriu Ia.

* * *

Irigibel, Ia, e suas quatro filhas - incluindo Monireh - estavam sentados ao redor da mesa, saboreando o desjejum. O clima era quase festivo, o que possibilitou à noiva esquecer durante algum tempo o problema que Belatsunat lhe criara - ou melhor, corrigiu-se, problema para o qual Belatsunat lhe advertira. Infelizmente, a harmonia familiar não durou até o fim da refeição.

- Você já pode casar, Filha Número Três - gracejou Irigibel após dar a primeira colherada no guisado.

- Aposto que posso, pai - suspirou Monireh - mas a mamãe corrigiu o tempero.

- Ah, isso porque ela sabe que eu gosto com mais cominho - comentou o mercador. - Mas você terá que descobrir como o seu marido gosta...

E dando uma cutucada no braço da esposa:

- Aliás, não vai ter que descobrir, porque ela e Belatsunat agora são melhores amigas, não é, Ia?

Ia sorriu, dirigindo-se as outras três filhas:

- Monireh falou que ela e a primeira esposa estão se entendendo muito bem. Não é maravilhoso, meninas?

As irmãs de Monireh pareciam estar com uma ligeira ponta de inveja da Filha Número Três, particularmente a primogênita, Tauthe, que jamais esperaria que Monireh se casasse antes dela, muito menos com um importante mercador de Babilônia.

- Monireh merece; - declarou diplomaticamente Tauthe - afinal, foi a que mais estudou de todas nós. Mas creio que eu prefiro um casamento mais... convencional... sem precisar de um leilão para arranjar um interessado.

Monireh fez-se de desentendida, cabeça baixa, comendo seu guisado. O pai veio em seu socorro.

- Filha Número Um, na verdade não foi Monireh quem se ofereceu para ser leiloada... foi Yanzu, o leiloeiro, quem a escolheu, por seus dotes pessoais. E ele estava certo: Monireh foi disputada por um oficial do rei e arrematada por um homem influente, um colega de profissão e que, ainda por cima, reside em Babilônia.

Tauthe mordeu os lábios, mas não se deu por vencida.

- Prefiro ser a primeira esposa de um homem jovem e morar em Harã para o resto da vida, do que ir para Babilônia e ser criada da esposa de um... velho!

Irigibel franziu a testa e apontou um dedo para a filha rebelde.

- Tauthe, vá para o seu quarto. Agora! E nada de cerveja pelo resto do dia!

Assustadas, Aralu e Rubati, as outras duas filhas, preferiram guardar suas opiniões para si mesmas. Ainda assim, Rubati, a caçula, sussurrou ao ouvido de Monireh:

- Você nos salvou. Eu te devo isso, irmã.

Monireh, cujo rosto estava soturno, sentiu a sombra de um sorriso aflorar-lhe aos lábios.

[Continua]

- [06-12-2018]
Alex Raymundo
Enviado por Alex Raymundo em 06/12/2018
Reeditado em 06/12/2018
Código do texto: T6520901
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Sobre o autor
Alex Raymundo
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 56 anos
1289 textos (65121 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 18/12/18 10:45)
Alex Raymundo