ESTE ARAGUAIA FINAL

  Fiquei ali curtindo as brincadeiras daqueles humanos tão puros nas suas convicções simples sem complicar a vida e até meus pensamentos estavam agora voltados apenas para aquela forma de viver. Quem escreve, sempre tem na cabeça um mundo só dele, às vezes ele o divide com outros pensantes como ele, mas é apenas sonho e este viver destes humanos não é sonho, é real, e se houvesse realmente deuses para cobrar nossos pecados, certamente deles não cobrariam.

     Moacir saiu, vestiu seu short e veio até onde eu estava e a pergunta foi à mesma, por que eu não pulava na água, ri da pergunta e respondi e perguntei por minha vez se eles faziam isto sempre? Ele respondeu que quando tinha muita gente no Camping Joel os proibia, mas agora só tinha eu e eu era de casa. Falou e foi se encontrar com os outros que iam caminhando e subindo a rampa em direção a casa e alguns se vestindo enquanto caminhava. Fiquei pensando que nunca me senti tão lisonjeado como naquele instante que o rapaz me disse simplesmente que “eu era de casa”. Confesso que meus olhos se encheram de lágrimas, quanto realmente valia aquele gesto, quantos poemas e histórias estavam embutidos naquele verso sem rima, mas saído do coração? Não procurei resposta, achei que para tê-la eu teria de aprender a viver de novo.

     Recolhi a linha e subi, fui direto para o quarto e voltei a escrever, mas não por muito tempo de repente achei que não valia a pena escrever, peguei a toalha e fui para o chuveiro, demorei no banho e quando saí, Joel tinha regressado, me vesti e fui ter com ele, ficamos proseando até na hora do jantar, depois ele me convenceu a dar uma volta de barco para tentar ver alguma onça na margem, não tivemos sorte, vimos capivaras, quatis, jacarés, mas onça nada.

     Acho que ele só queria mesmo matar a saudade de ter passado o dia sem pescar e rever seus lugares preferidos. Retornamos cedo e ainda tive tempo de pegar a viola e ensinar o pouco que sabia para o Léo. Acabei tocando e cantando algumas músicas na varanda para aquela plateia maravilhosamente, “de casa”.

     Dormi esta noite com o coração leve, acho que agora estava pronto para voltar a ser o Trovador alegre e brincar com meus amigos do recanto sem achar que a vida perdera o sentido. Acordei cedo e de novo com o cantar dos pássaros, Joel já estava de pé e ele é quem fizera o café, já foi logo me chamando para pescar e claro, concordei, era meu último dia e queria aproveitar tudo.

     Foi um dia de aprendizado, subimos de barco e Joel o encostou-se a uma parte onde o rio fazia um pequeno canal tipo de igarapé. Era perto da floresta e passamos perto dos corpos dos pirarucus apodrecendo ao sol, ele não falava, abaixou-se examinou as carcaças e com um nó na garganta me mostrou os buracos de balas nas cabeças dos bichos, dizendo entre manifestações de raiva que eram caçadores clandestinos que matava tudo o que aparecesse para vender a carne em restaurantes que as serviam para turistas.

     Entramos na mata e ele foi falando os nomes das arvores pela trilha, víamos muitos pássaros e pequenos animais, cutias e pacas, perguntei se ele caçava, ele respondeu que sim, de vez em quando matava um ou outro cateto ou paca para ter carne em casa, mas não para vender. Neste dia aprendi mais sobre natureza do que em toda vida, Também aprendi sobre apreciação de pessoas quando confia na gente, Joel brincava e conversava comigo como se tivesse me conhecido à vida toda.

     Voltamos a casa para almoçar e me surpreendi com as palavras da dona Lena perguntando se ele tinha me falado sobre voltar ali? Ele simplesmente disse: - eu até esqueci: Miro, é o seguinte, você já contou um pouco da sua vida e aposentado como disse não ganha muito, como você é brancão que nem nós, quando quiser vir distrair um pouco, Você telefona direto pra cá, esta porcaria de telefone daqui alguns dias virão consertar, poderá ficar aqui quanto quiser, só vai ajudar um pouco no dinheiro para comprar comida se os patrões perguntarem eu falo que é um parente nosso combinado? Caramba, fiquei sem palavras para falar, só pude dizer obrigado e que com certeza eu voltaria. Que coisa gente, cada uma que acontece para provocar nossas emoções, se o coração estivesse fraco acho que teria um piripaque.

     Voltamos ao barco e fomos pescar descendo o rio, alguns lugares bem selvagens ainda e de beleza indescritível pela quantidade de vida no rio e nas margens, de vez em quando ele encostava o barco e entravamos na mata ora para ver alguns pés de coco cacheados ou olhar ninhais mais de perto. Da próxima vez eu vou me equipar de máquinas para registrar tudo, desta vez foi para sossegar os sentimentos, mas se puder haver outra vai ser para viver aquele mundo de verdade.

     Voltamos à noite para casa, nem pensei em viola nesta noite, matamos o litro da rosa mineira e cama, deitei-me e apaguei, sonhei, mas não me lembro dos sonhos mudavam de um para outro cenário com tanta rapidez que eu não me lembrava de nada ao acordar.

     Não me levantei cedo, mesmo tendo acordado com a algazarra dos pássaros fiquei de preguiça na cama deixando os pensamentos soltos, acabaram-se às mágoas, estava tudo certo com o Trovador. Sabia agora como lidar com meus percalços e aceitar meus desatinos sem ter que necessariamente desistir de lutar pelos meus sonhos.

     A hora da despedida não foi triste, mas uma despedida com a certeza que eu voltarei logo que eu puder. O pequeno Léo me falou choroso: - agora o senhor vai embora, quem vai me ensinar a tocar viola? Abri a capa do violão e tirei um encordoamento novo de viola e um dos dois afinadores que sempre carrego, e disse: - você aprendeu a afinar, trocar as cordas quando precisar peça ao Moacir ou a Joel para ajudar e cuide da viola, é barata, mas é ótima de som e vai dar para aprender, quando eu voltar só vou tocar o violão viola é contigo. Ele não sabia o que dizer, Joel tentou argumentar, mas desistiu ao ver a alegria do menino desistiu, dona Lena despediu-se de Mim recomendando que quando eu voltasse era para levar a família, Neusa me abraçou dizendo; - vai com Deus seu Miro e vê se volta logo. Moacir já tinha se despedido cedo junto a noiva e a menina que ele fora levar para casa.

     Entramos na caminhoneta e acenei para aquelas quatro criaturas de Deus confesso que com vontade de chorar coisa boa estes sentimentos. No inicio da jornada viajamos calados, apenas até passar o córrego da ponte caída, depois o Joel começou a falar e não parou mais, principalmente de reafirmar a toda hora que iria me esperar assim que reabrisse a pesca. Por incrível que pareça Elói estava nos esperando no posto. Quando chegamos ele me encheu de perguntas e perguntou a Joel se eu tinha me comportado, Joel aproveitou para dizer que ele me salvara a vida umas três vezes, mas que no resto tinha sido tudo bom, nos despedimos com um abraço e sem falar, ele entrou na sua caminhoneta e acenou partindo, eu fiquei com a sensação de perda, ou sei lá saudade antecipada..

     A viagem para Goiânia foi ouvindo às peripécias do meu amigo falando até dos lances eróticos com a Sara e dizendo que devia ter ido com ele, ela estava com uma amiga de vinte anos doida para achar uma companhia para um rala e rola, eu ri e perguntei para ele o que eu faria com uma menina de vinte anos, tá doido Elói? Que isto Leão, hoje não tem mais disto não cara, as meninas tão querendo é rola. Eu encerrei o assunto xingando ele de pervertido e sem juízo,. Fez-me contar até da morena no acampamento e insistindo para eu ligar para ela, eu disse que não e o sacana respondeu então me passe o telefone dela? Não, não dei e até na hora de entrar para a sala de embarque ele ainda me cobrou o telefone da Marta, cara sacana meu.

     Quero deixar meus agradecimentos ao meu amigo Elói e sua família, e principalmente à família do Joel, que me ensinou tanto, e para quem eu peço ao grande Pai não deixar suas imagens de tanta pureza sair da minha mente e ao mesmo grande Pai me permita voltar a vê-los. Obrigado senhor Joel e família.

     Então é isto minha gente algumas coisas a mais eu me reservo o direito de ficar calado, afinal estou contando só sobre a pescada. Um abraço galerinha do bem querer.

                                                     FIM

Trovador das Alterosas
Enviado por Trovador das Alterosas em 11/09/2020
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