“Miguelito y su bicicletita”

Essa história é sequência de "Bravo, Alejandro Bravo"

09.04.2018

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Chegaram a "Chillan". A viagem pelo Chile seguia cada vez mais para o sul. A carona os deixara em beira de estrada que virava avenida e cortava a cidade de ponta a ponta. Desceram em sinal de trânsito, o amigo sentou-se encostado em um muro e ele ficou pedindo carona aos carros que paravam em el semaforo.

Ficaram ali por algum tempo e nisso vem, pela calçada, um menino de cerca de 5 a 6 anos pedalando uma bicicleta com rodinhas, "zigzagueando" por não saber ainda dominá-la. Passa por eles e para mais à frente, volta o olhar para vê-los, sorri e lhes acena.

Ele lhe acena em resposta. O garoto pedala virando na próxima rua.

E nada de carona!

De novo vem o moleque aprendendo a pedalar, para ao seu lado, observa-o e diz sorrindo:

- Hola

- Hola - ele responde sorrindo também.

- Es mendigo? - pergunta curioso.

Ele e o amigo sorriem com a pergunta coerente do garoto, pois estavam como tal: sujos, barbudos, com a mesma roupa de dias de viagem, cansados da última carona na caçamba da camionete dos dois uruguaios que os haviam largado ali. A bagagem que levavam era a mínima possível e a sua se resumia a 3 camisetas, 3 cuecas, 3 pares de meia, um macacão de brim "Lee" que usava direto, um coturno, um tênis e um casaco para o frio, pois mesmo sendo verão, em fevereiro esfriava à noite. Tudo carregado em uma bolsa daquelas que se ganha das agências de turismo em excursões: pequena e compacta.

-No, no somos mendigos no!- responde ao garoto. -Estamos de viaje a dedo - completou.

-A dedo ! Donde vienes?

-Brasil !

-Madre de dios, es muy lejo! - exclama ele e sai desenfreado com a bicicletinha virando na esquina novamente.

O dia seguia e nada de carona!

Já passava do meio da tarde e começavam a se preocupar, pois havia toque de queda ou toque de recolher. Instaurado pelo governo militar no país, começava às 20:00h e ninguém podia estar nas ruas depois desse horário. Tinham intenção de chegar até Valdívia naquele dia ainda, se não conseguissem, teriam que arrumar local para passar a noite.

Aparece novamente o garoto pedalando, mas agora com uma menina moça, ou moça, em seus 13 a 14 anos, bonita.

-Hola brasileños. Mi hermano habló sobre ustedes. Están muy lejos de su tierra! - diz ela, mostrando-se curiosa com os brasileiros maltrapilhos, mais parecendo indigentes, atravessando o seu país de carona em plena ditadura militar. Surpreendente para ela e talvez para todos os chilenos, pois tinham medo das represálias que o regime militar poderia aplicar, caso fossem eles os viajantes.

Continuaram conversando e o garoto ouvindo atento, sorria sentado em sua bicicletinha.

Seu nome era Miguel, Miguelito melhor dizendo, já que seu pai também se chamava Miguel. Sua irmã, Cristina.

- Vamos a mi casa a cenar con nosotros, ya está casi a la hora. Mi padre le encantará saber de sus aventuras, pueden dormir allí y mañana seguir viaje - ela os convidou.

Entreolharam-se e aceitaram.

"Miguelito" ficou esfuziante, pedalava à frente e repetia sem parar: los brasileños en mi casa !

A casa era térrea com a garagem na frente, junto da entrada, e a sala ao lado, o pai lia o jornal.Era noite. O pai veio em direção a eles e os cumprimentou curiosíssimo para saber das aventuras pelo seu país e pelo ineditismo da empreitada. "Miguelito" e a irmã devem ter falado a ele sobre os brasileños.

Entraram na sala, sentaram no sofá e entre eles Miguelito, exultante pela conquista - trouxera para casa um troféu que ninguém poderia imaginar que conseguiria - dois brasileños, que mais pareciam mendigos. Era um herói para si mesmo.

A família era bonita, simpática e alegre. Estavam todos ali na sala: o pai, Miguelito, Cristina e a mãe que viera da cozinha para recebe-los.

Tinham as feições típicas dos indígenas originários do Chile, os mapuches, rostos de lua arredondados, olhos negros e puxados, cabelos negros luzidios e lisos, pele morena, sorriso largo de dentes brancos. Muito bonitos.

Conversaram sobre as peripécias pelas quais los brasileños haviam passado até ali, mostraram-se atônitos com as histórias e os fatos relatados.

O pai os levou até a garagem onde dormiriam naquela noite; era também o depósito da casa, cheio de tralhas e trecos. Arrumaram um local para poderem se deitar, o pai trouxe dois colchonetes e pronto, tinham eles cama. Perfeito!

Tomaram banho e colocaram roupas limpas, ou melhor, as menos sujas ou usadas que tinham e foram para o jantar. Uma beleza a mesa servida com seu cheiro de comida caseira quente que há muito não sentiam. Comeram avidamente e eles lhes serviam mais e mais até ficarem totalmente satisfeitos. Também beberam o delicioso vino chileno. Delícia aquele jantar. Inesquecível.

O pai pegou seu violão e começou a cantar músicas típicas chilenas, melodiosas e harmônicas. Tinha ótima voz, forte, clara, afinada e tocava muito bem o instrumento. Miguelito que ficou olhando maravilhado para seu troféu brasileiro durante todo o jantar, sentado entre eles, disse ao pai que estavam indo para Valdivia, mais ao sul, e pediu que cantasse a música do rio Calle-Calle. Antes de cantar disse aos brasileños que a cidade fora arrasada por um tsunami em 1960, que também afetou o trajeto do rio. As ruínas da antiga cidade estavam hoje longe da atual. Um passeio que lhes indicava e teriam que ir de barco.

O pai começa a cantar a música do rio e todos ficam quietos, atentos e sensibilizados pela melodia doce e limpa da voz. Ao final, uma salva de palmas puxada pelos hóspedes que ele agradecia com mesuras e sorrisos. Foram dormir maravilhados com a hospitalidade dos mapuches. Miguelito foi com eles e queria dormir junto. Seu pai não deixou, dizendo que falaria a noite toda não os deixando descansar. Estavam los brasileños exaustos e como deitaram, acordaram.

No dia seguinte, após o café da manhã, o pai, Miguelito e Cristina os levaram para um giro pela cidade, de carro. Era limpa, organizada e arborizada. Bonita. Depois os deixaram no fim da avenida e início da estrada para que seguissem viagem.

A despedida foi melancólica. Miguelito com os olhos mareados, pedia que ficassem mais tempo, assim como a sua irmã Cristina , mas sem choro. O pai sorria.

Tiveram vontade de ficar, mas não poderiam perder o jogo da final do campeonato sul americano de basquete entre Brasil e Argentina em Valdívia. Ficaram emocionados com esse pedido tão espontâneo e puro dos irmãos, mas seguiram rumo mais ao sul.

Miguelito foi acenando para eles do carro pela janela de trás e Cristina também.

Mantiveram contato por carta por um tempo, mas suas vidas seguiram seus caminhos até não mais se corresponderem.

Um breve encontro do acaso causado por uma volta de bicicleta, marcou suas vidas para sempre.

Inesquecíveis foram Miguelito, Cristina, assim como o Pai e a mãe!

E a sua bicletita também.

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Fernando Ceravolo
Enviado por Fernando Ceravolo em 04/11/2020
Código do texto: T7103864
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