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AS FACES DE UM MESMO CRIME. part1

Chegou o dia, eram oito da manhã e as pessoas que povoavam os arredores da fazenda de Dom João, se amontoavam para ver o julgamento de José, o ano era 1570 na recém fundada Vila de São Paulo do Piratininga. O crime era bárbaro, José seduziu Beatriz a filha de Dom João, a estuprou e a esquartejou jogando seus pedaços no rio Tamanduateí. Como o rio era próximo a sede da vila, que ficava no colégio dos Jesuítas o crime chocou a todos.
O caso foi levado até os padres Jesuítas e Dom João chegou a falar pessoalmente com José de Anchieta, e foi categórico.
   - Minha filha está morta, nada devolverás o brilho dos seus olhos claros. - O tom ficou mais severo e ele levantou o dedo em riste para o padre. - Serei muito sincero a vos mi cê padre. Se não deres a mesma pena a esse Judeu, que desses a Quintão, tiro meus homens que patrulham as rotas dos Tamoios e Tupinambas, deixarei que alvejem suas igrejas e os sirvam no almoço como quiserem.
   - Um sacrilégio é o que diz Dom João, a igreja é divina e senão a proteges, que recompensas queres levar para o juízo?
   - Essa é a minha palavra, quero que esse homem seja açoitado, capado e esquartejado, assim como fizeram a Quintão. Darei a ele a pena maior por ter tirado a vida de minha doce Beatriz.
   - Deus é o juiz Dom João. - O padre apontou para o céu. - Eu não julgarei esse caso, levarei a Mem de Sá e ele se encarregará de me dizer o que fazer.
   E assim foi, uma carta para o governador geral em Salvador e mais um dilema surgiu. José o homem que seria julgado, era filho de um grande amigo de infância do governador. Mem de Sá se viu em uma encruzilhada e escreveu pessoalmente para o rei Sebastião de Portugal, o rei não gostava de São Paulo, estava mais preocupado com Salvador, mas em consideração ao governador geral,  e por uma denuncia nova que surgira, mandou para lá o seu maior Juiz. Bernardo de Lisboa.

"A vós governador geral de minha colonia, soube que esse José que tentas proteger é amigo dos infiéis franceses, que tanto saqueiam nossas províncias, ele nega tal afirmação e por isso mandarei Bernardo de Lisboa para resolver esse causo, e já adianto, dá próxima vez, não me mande cartaz para relatar entreveros nessas terras tão secundárias, quero saber quem me roubou na construção de Salvador, ainda não me respondeu e quero muito a resposta."

Bom agora todos já sabem o porque deste julgamento e era hora de começar. Bernardo já estava no centro, com dois escrivães, que iriam relatar tudo, foram trazidas três pessoas, todas testemunhas do crime. O primeiro a falar seria o homem que processava José, ou seja o pai de Beatriz, Dom João.

Dom João:
A uma semana, estava eu desesperado a procura de minha filha, que raramente saia de casa, era uma donzela simples e pura, estava prometida a Dom Miguel o benfeitor da cidade de São Paulo do Piratininga. Fazia algum tempo, ela estava estranha, me perguntava sempre onde guardava minhas moedas, ela nunca fez isso, achei estranho mas deixei de lado. Um certo dia, Dom Alfredo me avisou, que o Judeu convertido, fora flagrado conversando com minha filha, isso eu não iria perdoar, mas o Judeu agiu muito rápido, convenceu minha filha a fugir com ele e no fim, junto com os franceses, roubaram meu ouro e violaram minha filha. Meu coração ficou despedaçado quando a vi, em pedaços no rio. Está claro que esse homem é culpado, quero a mesma pena que deram a Quintão, só isso acalmará meu coração.
 
   O segundo a ser chamado por Bernardo foi o pretendente de Beatriz, o fazendeiro Dom Miguel.

Dom Miguel:
Choro pela minha amada, desde que recebi a notícia dessa barbárie, como sabes sou dono do engenho menor da serra de são vicente, lidero os grupos de Dom João na luta contra os maldosos Tupinambas e os franceses que tentam chegar no coração da vila de qualquer jeito. Esse homem impuro, seduziu Beatriz, a enganou pedindo a ela que roubasse moedas portuguesas para fugirem, depois de muito conversarem ele conseguiu o que queria, pegou as moedas e a matou com crueldade, mas se engana se pensam que o motivo era apenas luxuria e cobiça pessoal. Há um mês, deparei-me com uma cena impensada, o judeu que se diz convertido, estava conversando com um homem que vestia roupas com o brasão dos Valois, o que ele fazia ali? Não sei dizer. Eu o espionava a mando de Dom João que ouviu de Dom Alfredo esse envolvimento dele com os franceses. E quando fizemos buscas em sua casa nefasta depois do crime, encontramos objetos das impuras cabalas e trinta moedas francesas. Está claro que ele recebeu dinheiro para roubar e desmoronar o lar de Dom João e assim deixar os nojentos dos Valois invadirem nossas terras e construírem aqui sua colonia de piratas calvinistas. Esse é meu relato.

   Agora faltava apenas mais uma testemunha e por fim o interrogatório de José. Estava claro que ele era culpado, só faltava ver o quanto era culpado. Os Jesuítas especulavam por qual crime ele teria punição maior. Se pela morte da filha de Dom João, ou por conspirar contra a coroa de Portugal. Essas respostas estavam criando uma grande ansiedade, mas calmamente tudo seria respondido.
Ed de Sousa
Enviado por Ed de Sousa em 26/12/2018
Reeditado em 27/12/2018
Código do texto: T6536309
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Ed de Sousa
São Paulo - São Paulo - Brasil, 34 anos
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Ed de Sousa