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A Moça da Plataforma

Mesmo em meio a uma pandemia de proporções globais, o fascínio que uma mulher pode causar em um homem é algo que não se pode resumir em palavras.
Nonato sempre tomava o trem bem cedo. Antes de o galo cantar ou do prenúncio da alvorada, ele já estava de pé na estação a esperar a locomotiva.
Todas aquelas pessoas mascaradas ao seu redor; e ele também. Mais por obrigação que por vontade. Odiava adornos ao redor do rosto. Foi quando viu, parada a menos de dois metros de distância - sem respeitar o distanciamento social - aquela figura de olhar oblíquo.
Com um quê de Jezebel, com um olhar negro como o fim de uma noite varonil, ela também esperava o trem. Nonato não conseguia tirar-lha os olhos. Estava fascinado.
Tomou o mesmo vagão que aquela mulher. Todos os dias passaram a ser da mesma forma: sempre à procura dela na plataforma, seguia-a até o vagão e, com um soslaio de despedia, ele descia na antepenúltima estação.
Não conseguia tirar-lha da cabeça. Como devia ser seu rosto? Como seria seu nariz, seus lábios? Qual era o mistério por trás daquela máscara? A formosura já estava em sua sobrancelha, em seus olhos arqueados, em seus cabelos negros. O que mais ela poderia oferecer?
Algum tempo se passou depois do advento pandêmico que arrebatou o país.
Muitas pessoas já saíam sem máscara por aí. E novamente, naquele fim de madrugada, estava Nonato sobre a plataforma. Olhava ora para um lado, ora para outro - a fim de encontrar a bela moça. Será mesmo que ela existia? Olhava o relógio. Deixava sempre o trem sem a presença da moça ir embora - também sem si mesmo.
Foi quando ela achegou-se à plataforma. Mascarada. Ele aproximou-se dela. Com uma timidez insuportável, cutucou-a.
- Faz tempo que te vejo aqui na plataforma... - começou ele, a logo pensar que aquilo não era o melhor modo de se iniciar uma conversa. O que pensaria ela? Que ele a estaria a vigiar? Seria algum estuprador despudorado? Mas mesmo assim ele continuou: - Eu te acho tão linda...
O "obrigada" seco da moça quase fê-lo recuar, mas continuou a investida.
- Gostaria de te ver... - hesitou, a engolir saliva - sem máscara.
A moça franziu o cenho. O trem vinha ao longe, a fazer a curva e a estremecer a plataforma.
- Por favor - insistiu ele.
Ela, por fim, tirou a máscara. O rosto de Nonato foi da euforia à incompreensão. Não era o que pensava. Talvez aquela nem era a moça que por tempos ele havia admirado na estação. Não podia crer no que via. Como a mente prega peças!
A perceber o incômodo do homem, a moça da plataforma inquiriu-lhe:
- O que há? Esta sou eu!
Não podia ser! A neurose na qual Nonato havia se imiscuído o fizera divagar bastante.
O trem parou na plataforma, a moça adentrou-o e em seguida saiu. Nonato não fora ao trabalho naquele dia. Desapontado, passou a driblar as pessoas na estação e foi andar a pensar na moça que havia uma vez imaginado.
Guilherme Zelig
Enviado por Guilherme Zelig em 01/07/2020
Código do texto: T6992762
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Sobre o autor
Guilherme Zelig
Guarulhos - São Paulo - Brasil
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Guilherme Zelig