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Efemeridades


       O amplo e luxuoso quarto apresentava uma desordem terrível, nada parecia estar em seu lugar. Garrafas vazias de bom uísque largadas pelo chão, assim como algumas peças de roupa. Havia, também, algumas bandejas com restos de alguma comida e frutas. Vidro estilhaçado. Até mesmo alguns quadros teimavam em permanecer tortos na parede. Uma guitarra surrada e com  evidentes marcas de longos anos de uso jogada a um canto, com algumas cordas quebradas. Depois de shows grandiosos como aquele, era comum momentos descontraídos com amigos e groupies. Muita bebida, diversão e excessos. A casa de shows, como já era esperado, lotou, pois a banda se apresentava como uma das mais promissoras dos últimos tempos. Músicos, empresários, público, ninguém poderia se queixar de nada até então.
       O manager da banda havia partido tão logo  acabara o show, pois já sabia dos costumeiros excessos que poderiam envolver aqueles músicos. Agora não era mais com ele. Era o momento dos astros, momento em que desfrutavam da fama e dinheiro que haviam conseguido por conta de muito esforço, isso ninguém poderia negar. Muitos são os que almejam o estrelato, porém poucos têm a competência para atingir o topo da maneira que agora acontecia com esses talentosos jovens.
       Sobre a grande cama jazia, já com as forças completamente extenuadas, talvez o maior cantor entre as atuais bandas de rock. Uma grande promessa no cenário da música mundial. O nível etílico em seu sangue era bastante elevado, mas não havia nenhuma novidade nisso... resquícios de cocaína ainda podiam ser vistos sobre o criado mudo. E assim permaneceu, de bruços e somente vestindo calças jeans, sobre a cama, até boa parte da madrugada.
       O quarto era de alto padrão, normalmente utilizado por artistas de renome, ou autoridades políticas. Tanto luxo nem seria necessário para alguém que vomitaria seus excessos sobre os lençóis, alguns diriam. Mas no dia seguinte uma competente equipe daria conta de deixar tudo em ordem novamente, incluindo a tarefa de bem posicionar os quadros na parede. Já estavam acostumados a tal rotina.
       Por perto das cinco da manhã ele desperta. Um horrível gosto na boca e sentindo muito  frio. Correndo os olhos pelo quarto tenta lembrar-se dos momentos pós show. Pouca coisa vem à mente, pois havia bebido muito depois da inquestionável e histórica  performance que ilustraria jornais e revistas no dia seguinte. Havia muito o que se comemorar. Lembrou vagamente de forçar a saída de algumas garotas ávidas por uma aventura com  o rockstar do momento.  Não estava na vibe para tal tipo de coisa, principalmente por ter bebido  demais. Mas teve alguma paz quando, finalmente, conseguiu trancar a porta do quarto e lá sozinho ficou.
       Trôpego e um tanto quanto confuso, atravessa o quarto com medo de não dar tempo de chegar ao banheiro. A vontade de urinar era insuportável e devia ser isso, afinal, que o tinha despertado. Não seria muito agradável urinar nas calças. O ar estava frio e chegou a tropeçar sobre uma almofada, culminando  numa queda patética que, felizmente, ninguém pode testemunhar.
       Mesmo assim, consegue chegar ao banheiro e cai novamente, dessa vez sobre a banheira, batendo com força a região da testa. Parece perder os sentidos momentaneamente e desperta novamente tendo os longos cabelos afagados por uma garota de extrema beleza. Inicialmente, leva um grande susto, pois lembrava-se de ter trancado a porta, mas logo relaxa, pois não seria a primeira vez que tal coisa lhe acontecia. Elas sempre davam um jeito de entrar e, muito provavelmente, era o caso mais clássico, em que pagavam a uma camareira para abrir a porta.
       Lenta e gentilmente é posicionado na banheira e a água quente começa a fluir. Sente que tem as calças e meias retiradas. As botas já tinham sido abandonadas ao lado da cama. Somente de cuecas, afunda na banheira e um agradável torpor toma conta do corpo. Somente o mau hálito ainda incomoda, de certa forma, principalmente por estar na presença de uma mulher tão bela. Mas ela parece não importar-se com isso e cola seus lábios aos dele com grande intensidade. Os olhos, entreabertos, conseguem parcialmente visualizar a bela garota que manuseia os controles da hidromassagem. Está totalmente nua. O relaxamento substitui toda e qualquer tensão que ainda poderia existir e ele percebe ser íntima e compulsoriamente acariciado. A elegante figura feminina continua tomando conta de  toda a situação, desde a água da hidromassagem até as carícias mais íntimas... Afrodite? balbuciava o jovem astro, em delírio, quando teve, abruptamente, a cabeça submersa na cálida água.
       Pânico, desespero... os antes relaxados e cobiçados olhos azuis, agora esbugalhados, tendo à frente a turva e gelada água que deixava transparecer a bizarra forma que o aprisionava  naquela desesperadora condição. Mãos brutais e hostis em volta da garganta, o grito sufocado que não se fazia mais ouvir, a impotência diante da queda.
       Estaria sendo assassinado? Por quem? Como a sedutora forma se tornara algo tão rude e violento? Formas grosseiras, antes nomeada Afrodite, disformes, com num pesadelo... demônio... debatia-se  sob a água de tal forma que boa parte dela era jogada para fora mas, com a cabeça submersa e à mercê de braços tão fortes, foi perdendo rapidamente as forças... grossos e fortes dedos pressionavam a garganta e respirar tornara-se impossível... assim como pedir ajuda... carne ferida... a cálida água, agora cada vez mais gelada e turva, e suja, suja de sangue e fezes.
       Finalmente perde as forças, por completo... inútil resistir... e se vê, instantaneamente, de volta ao quarto.  Em pé, observa estupefato seu próprio corpo estirado na luxuosa cama. Olhos entreabertos e os longos e loiros cabelos desgrenhados. Ao lado, uma garrafa do renomado Jack Daniel’s, completamente vazia. Sobre o lençol de cetim, e ainda ocupando parte da boca,  uma considerável quantia de vômito podia ser vista. Espasmos e ruídos que ninguém ouviria. Os quadros tortos na parede que, no dia seguinte, alguém colocaria no lugar.
       A bela mulher, ao lado da cama, acaricia o seu rosto contraído e afaga os loiros e longos cabelos. Nu e sujo. Assim será encontrado, no dia seguinte, o jovem e promissor vocalista da mais famosa banda da atualidade. Algumas camareiras talvez tirem uma selfie ao lado do frio cadáver. Quem sabe postem tais fotos em alguma rede social, mas ele não poderá mais processá-las por isso.
       A cálida água não mais existe, quem sabe jamais tenha existido. O corpo, agora  inerte,  e os loiros cabelos, são generosamente afagados. Não há nenhuma Afrodite, mas há, de alguma forma, algum conforto e paz.
Sérgio Kuns
Enviado por Sérgio Kuns em 03/07/2020
Reeditado em 03/07/2020
Código do texto: T6995153
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Sérgio Kuns
União da Vitória - Paraná - Brasil, 48 anos
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