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O Homem que só sabia Sorrir

O homem que só sabia sorrir

Era uma vez um homem que passava os dias a sorrir, levantava-se mal o dia começava a clarear, cuidava do belo jardim que tinha nas traseiras da casa, um jardim sem qualquer tipo de vedação, e fazia-o sempre a cantarolar e a sorrir.
Todas as manhãs, cerca das oito e meia, saía de casa, o ritual era sempre o mesmo, vestia um casaco e umas calças já coçados de tanto os vestir e os lavar, sim que embora vestisse de uma forma modesta. O homem, fazia questão de andar sempre com muito  bom aspecto, os sapatos, igualmente gastos, estavam sempre impecavelmente limpos e o conjunto de antiguidades era completado com a velha pasta que todas as manhãs transportava na mão, e lá ia ele a sorrir.
Era todo este conjunto, roupas gastas pelo uso, sapatos marcados pelo calcorrear das ruas, pasta coçada e, principalmente, o seu sorriso que faziam crescer a curiosidade dos restantes moradores da aldeia, o homem há alguns anos que para ali fora viver e sempre mantivera aquela postura. Ninguém sabia o que fazia, e no entanto era uma pessoa muito sociável, não eram poucas as vezes que à tarde, ao regressar das suas misteriosas viagens, ele se deixava ficar a conversar com os homens que se encontravam à porta da única taberna da aldeia, ele não bebia, mas adorava conversar e os homens adoravam ouvi-lo.
Por vezes era já noite quando chegava a casa, pousava a pasta, trocava de roupa e ia até ao seu jardim, fazia tudo com um sorriso nos lábios, nos lábios e nos olhos, é verdade, os seus olhos brilhavam de alegria enquanto ia cantarolando, passava pelas suas flores uma a uma, como se cumprimentasse alguma das suas vizinhas, ou algum dos garotos a quem costumava contar lindas histórias.
Foi numa dessas tardes, quase noite, que uma das crianças lhe disse:
- Oh vizinho, posso perguntar-lhe uma coisa?
- Claro que podes, força.
- Porque é que o vizinho não põe uma vedação aqui no seu jardim, as velhas andam sempre a roubar-lhe flores, e olhe que levam sempre as mais bonitas?
- Ouve minha menina, este jardim só tem valor se puder ajudar a fazer a alegria das pessoas, para que quero eu lindas flores se os outros não as puderem admirar? Deixa que apanhem as flores mais bonitas, por cada uma que elas levam nascem outras ainda muito mais bonitas.
A menina sentiu-se sem capacidade de resposta, mas ainda arriscou:
- O vizinho é muito esquisito, não tem luxos nenhuns em casa, anda quase sempre com as mesmas roupas, farta-se de andar a pé e, mesmo assim, anda sempre a cantar e a sorrir. O vizinho não trabalha?
- Claro que trabalho,achas que alguém consegue viver sem trabalhar?
- Então e o que é que faz?
- Um dia te contarei, prometo-te.
A criança sentiu que não valia a pena insistir, já tantas vezes lhe tinham perguntado e ele nunca quisera falar do assunto, resolveu mudar de tema:
- Mas toda a gente diz que o senhor é muito pobre, que nem tem dinheiro para ter uma casa bonita e roupas novas.
- Para que quero eu uma casa bonita se esta me faz muito feliz e para que preciso de roupas novas se estas já as conheço muito bem?
A menina resolveu terminar a conversa.
Os dias foram passando sem que nada se alterasse, até que...
- Bom dia, podiam dar-me uma informação?
- Se a gente souber.
- Eu procuro o professor Chico, é um homem que anda sempre triste, creio mesmo que ele nem sabe rir, é um homem assim...
Quando o jovem acabou de fazer a descrição do professor Chico, os os presentes na taberna cruzaram olhares e abanaram a cabeça em sinal de negação.
- Não meu jovem, não conhecemos ninguém desse jeito. Mas porque procura esse tal de professor Chico, e porque veio procurá-lo aqui?
- O professor Chico era o professor da minha aldeia...
O jovem calou-se ao ouvir alguém aproximar-se a trautear uma alegre melodia.
- Olhem lá vem o nosso vizinho alegre.
- Olá a todos, boa tarde.
- Boa tarde vizinho, então como foi o dia de hoje?
- Ora foi um dia feliz, como todos os dias que temos a oportunidade de viver.
O homem que só sabia sorrir nem reparara no jovem,ali todos se conheciam, quando deu pela sua presença, cumprimentou-o:
- Desculpe meu senhor, não reparei que a nossa aldeia tinha visitas.
- Não faz mal, sinceramente não tem importância. O senhor é muito alegre, é sempre assim?
- Oh, se é, leva a vida a cantar e a sorrir, aliás ele só sabe sorrir.
- Desculpe, posso fazer-lhe uma pergunta?
- Claro que sim, meu senhor, embora já calcule a pergunta que aí vem.
- E qual pensa que é?
- Ora, porque vivo assim tão feliz, aqui neste lugar isolado do mundo, sem familia, sem grandes luxos.
- Está quase certo.
Os olhares dos homens da aldeia cravaram-se no jovem, afinal quem seria ele?
- Porque diz que estou quase certo? Não era isso que pretendia perguntar-me?
- Não, senhor professor Chico, não era isso que pretendia perguntar-lhe?
Os homens nem queriam acreditar no que ouviam, então aquele homem que eles sempre tinham tomado por ser um pobre Zé Ninguém era um professor, estavam confusos.
O homem que só sabia sorrir olhou o jovem, nos olhos, e disse-lhe:
- O senhor conhece-me? Quem é o senhor?
- Conheço sim, senhor professor, eu fui seu aluno, tudo o que sou hoje, ao senhor o devo, foi o senhor que me ensinou os valores que fizeram de mim o homem que hoje sou.
- Sim? Como é o seu nome mesmo?
- José Marques, Dr. José Marques, professor universitário.
- José Marques? Muito sinceramente, o senhor perdoe-me, mas não me recordo de o conhecer de parte alguma.
- Professor, quero pedir-lhe um grande favor, trate-me por tu, por Marques, como preferir, mas deixe o senhor, o grande senhor aqui é o professor…porque veio para aqui? Porque vive assim? E onde aprendeu a sorrir?
O homem que só sabia sorrir encarou aquele que devia ser seu antigo aluno e disse-lhe:
- Queira desculpar-me, mas o senhor está completamente equivocado.
- Não senhor Professor Chico, não estou minimamente enganado. Lembra-se de um antigo aluno seu chamado Teófilo?
- Claro que lembro, nunca o esquecerei…espera…José Marques Teófilo! Tu não morreste?
- Não professor, levaram-me para o hospital e aqui estou eu, para lhe dar o merecido abraço.
- Muito bem Teófilo, senta-te, está na altura de estes bons amigos ouvirem uma grande história, mas primeiro preciso de sair um pouco, esperem aqui por mim.
Os dois homens abraçaram-se e sentiram que alguns dos presentes não tinham conseguido suster uma lágrima que teimava em cair pelos seus rostos O professor saiu e foi de casa em casa, regressou passado algum tempo, vinha rodeado pelas crianças da aldeia e seguido pelas mulheres e pelos restantes, poucos, homens, entraram e ele convidou-os a acomodarem-se:
- Meus bons amigos, a história que vos vou contar é a história que tantas vezes prometi contar às vossas crianças, por isso fiz questão que elas aqui estejam, espero que me ouçam e que depois me perdoem, se puderem, por nunca vos ter dito nada.
Podia dizer-se que aquela aldeia estava, uma vez mais, suspensa das palavras do homem que só sabia sorrir. Tantas vezes, principalmente nas datas festivas, assim acontecera, quando ele os presenteava com lindas histórias, alguns começaram a imaginar que afinal, provavemente, algumas delas eram a sua própria história.
- Meus bons amigos, há alguns anos atrás, eu, era um prestigiado e considerado professor numa cidade, vivia para a minha profissão, levava-a tão a sério que pensava ser o dono do mundo, não me dava com ninguém e nunca sorria, pensva que sorrir era perder o respeito dos outros, até que um dia um aluno meu, um bom aluno,se recusou a ir à escola, perguntaram-lhe porquê, ele respondeu que a escola era muito triste, o professor era um mal-encarado. Não liguei, obrigaram o menino a voltar à escola e ele suicidou-se...pelo menos assim o pensei até hoje.
O homem que só sabia sorrir não conseguiu continuar a sua história, engasgou-se e sentiu fugirem-lhe as palavras, os olhares dos habitantes da aldeia dividiam-se entre compreensivos e incriminadores.
-...senti-me um canalha, o culpado da morte daquele jovem. Resolvi deixar tudo, desaparecer dali, pedi ao ministério que me arranjasse colocação num ponto bem distante, foi assim que vim parar à aldeia onde ainda hoje estou, no dia em que me apresentei prometi a mim mesmo que nunca mais seria o mesmo homem, o homem que não sabia sorrir, decidi procurar um lugar para viver longe da aldeia, não queria que ninguém fosse meu amigo só por ser professor, e vim aqui parar, por acaso.
- Pois é meus senhores, esta é uma parte da história da vida do professor, mas eu quero que saibam o resto, o professor, depois de vir para cá, criou um fundo, com o seu próprio ordenado, para pagar os estudos dos meninos da sua cidade que queiram estudar e não tenham dinheiro, penso que o fez para tentar aliviar a sua culpa pela morte deste menino, é verdade, esse menino sou eu mesmo.
- Pois é, meus amigos, agora podeis julgar-me, podeis continuar a ser meus amigos ou pura e simplesmente passarem a ignorar-me.
As crianças tomaram a iniciativa e foram abraçar o professor, logo as mulheres o foram também abraçar e por fim todos os homens fizeram questão de o abraçar um a um.
- Teófilo, como me conseguiste localizar?
- Foi através do fundo, eu soube que tinha sido criado um fundo muito parecido aqui nesta região, fui à procura do seu fundador e lá estava o seu nome.
Os habitantes compreendiam agora porque é que aquele homem não tinha dinheiro para nada, era ele quem tinha vindo a suportar os estudos das suas crianças, bem como das crianças das aldeias vizinhas.
- Meus amigos, mais do que uma vez, as vossas crianças me perguntaram, e vocês só não o fizeram por vergonha, porque é que eu era tão feliz com tão pouco, prometi-lhes contar um dia, esse dia chegou, venham daí comigo, vem também Teófilo.
O homem que só sabia sorrir dirigiu-se a sua casa, abriu a porta e convidou a aldeia a entrar em sua casa, era uma casa modesta, muito limpa, muito arrumada, muito alegre e que em cada divisão tinha a inscrição que servia de orientação de vida ao homem que só sabia sorrir:


                          “Em cada Criança, um sorriso é toda a felicidade que preciso”

Francis Raposo Ferreira
FrancisFerreira
Enviado por FrancisFerreira em 24/12/2012
Código do texto: T4051674
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