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Presente de Natal.

Havia uma fazenda, numa cidadezinha no interior de São Paulo onde ali vivia uma família de cinco membros. Todos viviam em perfeita harmonia.
A filha mais nova Clarisse de oito anos, adorava o espírito natalino. Todos os anos sua família montava uma enorme árvore de natal na sala principal do casarão da fazenda.
Certa noite, Clarisse ao ter dificuldades para pegar no sono, desceu até a cozinha para tomar um copo d'água. O casarão era tão grande que Clarisse demorou quase cinco minutos para chegar à cozinha, sentindo um pouco de medo pela escuridão que se apossava dos cômodos e pela moleza em que sentia no corpo.
Clarisse nasceu e viveu ali desde então. Conhecia aquela casa de olhos fechados.
Quando chegou à cozinha, ascendeu as luzes de uma linda luminária da qual a cegou por uns breves segundos. Pegou o copo e o encheu. Tomou tudo em apenas dois goles, tamanha era a sua cede.
Clarisse depositou o copo dentro da pia e apagou as luzes. Ouviu um certo barulho estranho do lado de fora do casarão, mais especificamente na direção da cozinha.
Com certo receio ela se aproximou da janela e olhou em meio ao breu arrepiante la de fora. Demorou um pouco para que ela visse e entendesse o que se passava ali.
No meio daquela escuridão, pode ver três vultos que achou ser de animais que viviam ali na redondeza. Mas foi traída pelos próprios olhos.
Quando Clarisse caiu em si, ela quase se espatifou no chão, pois suas pernas perderam as forças e seu coração disparou em susto. Estavam ali presentes três seres do qual ela só conseguia pensar numa coisa; Elfos!
Eram pequenos, cerca de um metro de altura cada um, com uma aparência feiosa, mas com um certo sorriso acolhedor nos lábios grandes e grossos. Aqueles olhos que pareciam duas laranjas pintadas de branco com uma rodelinha preta no centro à olharam com simpatia.
Clarisse ficou ali, estupefata, catatônica e arrepiada. Não conseguiu nem ir para frente, nem para trás.
Com um movimento de estalar os dedos, os três elfos desapareceram do quintal escuro, deixando Clarisse olhando para o além.
Não conseguindo acreditar no que tinha visto, ela retornou para o seu quarto em alta velocidade. Se ela tinha levado cinco minutos para chegar até a cozinha, não levou nem um minuto para retornar ao seu quarto.
Ao chegar no cômodo, ela se deitou na cama e jogou o lençol por cima do corpo. Permaneceu ali deitada olhando para o teto e foi tomada por um sono profundo.
O relógio marcava nove da manhã e Clarisse despertou num salto assustada. A luz forte do sol entrando pela janela batia em seu rosto. Isso fez com que ela fechasse os olhos e pensasse no que tinha ocorrida naquela madrugada.
Já no banheiro do seu quarto, ela se despiu e entrou naquela água morna e forte que caia do seu chuveiro. Ficou ali debaixo d'água por uns trinta minutos, até conseguir despertar de verdade.
Desceu e encontrou toda a família reunida tomando o café da manhã. A mesa estava farta como toda mesa de fazenda.
Clarisse deu o bom dia para todos e se sentou ao lado da mãe. Rosa, sua mãe, era um mulher bonita, olhos verdes, alta, cabelos louros e uma pele invejável. Olhou para a filha e a viu pensativa.
Clarisse sem jeito, deu uma risadinha para a mãe que retribuiu com um olhar inquisidor. - Filha o que houve, parece perturbada?
Clarisse aproveitou que o pai e os irmãos estavam em um diálogo caloroso sobre futebol e contou para Rosa o que tinha ocorrido naquela madrugada.
Rosa ouviu tudo o que Clarisse disse sem a interromper em nenhum momento. Ao terminar seu relato, Clarisse soltou um suspiro forte e pensou. -Pronto, agora ela acha que estou louca!
A mãe olhou bem fundo nos olhos da filha e disse com todo amor e carinho, que acreditava em Clarisse. Pediu a ela que a encontra-se em seu quarto, logo após o café da manhã.
Clarisse achou aquilo um pouco estranho, já que os pais nunca chamaram seus filhos para entrarem em seu quarto, a não ser quando eram pequenos.
Clarisse adentrou-se ao grande cômodo, com móveis estilo século XVIII, todos com um brilho de ferir os olhos.
-Sente-se meu amor, disse Rosa.
Clarisse se sentou na cama e viu que a mãe estava com um sorriso no rosto e, em seus braços um grande livro marrom que deu a impressão de ser um álbum antigo de família.
Rosa viu que Clarisse estava olhando para o livro e disse; -Filha, este livro pertence a minha família há séculos, só é passado adiante para as mulheres. Permita-me ser mais direta.
-Mulheres com magia, assim como você e eu.
Clarisse estava agora mais confusa do que antes. Chegou a pensar que a mãe estivesse pregando uma peça nela, já que estavam em dezembro, faltando apenas quinze dias para o Natal.
-Mãe, eu posso ter oito anos, mas não penso como uma criança. Não precisa mais contar histórias infantis como se eu tivesse dois anos.
Rosa soltou uma risada alta e carinhosa.
-Não minha filha, escute! Este livro não é uma piada, muito menos o que acabei de dizer a você. Você e eu temos sangue mágico. Algumas pessoas dizem... bruxas, para ser mais clara.
Isso deixou Clarisse com um certo incomodo nos olhos e na mente. Ela ficou fitando a mãe e disse; - Só pode ser brincadeira!
Clarisse, entenda uma coisa. Nós somos parte de uma família de bruxas. Nossas ancestrais, todas elas, foram bruxas na Espanha. Minha bisavó veio ao Brasil a décadas e aqui firmou morada. Toda a tradição da bruxaria espanhola ela trouxa para o Brasil.
-Toda mulher da nossa família aos oito anos de idade, manifesta ou não, os seus dons. No seu caso, você é uma bruxa com o poder de se comunicar diretamente com o plano espiritual mágico. Ou seja, você pode ver seres mágicos do quais nenhum outro pode ver.
-Este é um dom maravilhoso filha, com ele você pode ver como anda o mundo mágico, sem mesmo ter que ir para lá em viajem astral.
-Veja, eu sou uma bruxa também. O meu dom é o de ser mestra nas artes mágicas de lidar com as plantas. Sou uma bruxa das poções.
Você nunca se perguntou o por que nós nunca visitamos um médico até hoje? Quando vocês ficavam doentes eu sempre dava remédios caseiros para vocês. Tudo isso são plantas e magia minha filha.
-Agora vem a parte mais importante de tudo isso. Ninguém pode saber, nem mesmo o seu pai e os seus irmãos.
-Apesar de vivermos no século XXI, nós bruxas, não somos bem vistas pelas pessoas ditas como normais. Sempre ouve e haverá perseguições e preconceitos para conosco.
-A missão das bruxas nesta terra não é a de ser má, nem de praticar artes das trevas em nenhum ocasião. Cada uma de nós tem um dom e, é usado para o bem de todos, usado com sabedoria.
Existem bruxas más sim, mas estas são nossas inimigas, não inimigas dos outros humanos.
-No mundo mágico Clarisse, há uma forte disputa pelo poder. Muitas bruxas e magos se rebelaram e se aliaram ao mal na tentativa de acabar com o resto de nós.
-Mas isso você não deve se preocupar no momento. O que você tem que ter em mente é que você é uma bruxa com poderes, não pode se revelar à ninguém, sem exceções. Não pode usar seus poderes levianamente e, tem que aprender o mais rápido possível como lidar com eles.
Clarisse ouvia tudo o que sua mãe Rosa lhe falava. Com o passar dos dias, as duas sempre se reuniam no quarto de ambas, sempre que os homens da casa não estavam por perto.
Rosa ensinou o máximo que podia sobre magia à Clarisse. Claro que magia leva anos de estudos e pratica, mas Rosa ensinava pelo menos o que é ser uma bruxa, qual o sentido filosófico e prático de tudo isso.
Esclarecia as dúvidas mais importantes de Clarisse e quebrava alguns dogmas.
Chegou enfim o dia 24 de dezembro, véspera de Natal. O casarão da fazendo aos poucos ia ficando mais cheio, com a chegada de parentes e amigos que todos os anos se reuniam para a ceia de natal e para as entregas dos presentes.
Clarisse estava em seu quarto se preparando para a noite da ceia. Tinha pendurado em seu quarto um lindo vestido de cetim vermelho com um laço amarelo em volta da cintura. Seus sapatos eram também amarelos e reluziam como se tivessem sido lustrados.
Quando saiu do banho, Clarisse voltou ao quarto e começou a se produzir. Maquiagem, secador, vários tipos de perfume ao seu dispor.
Rosa, bateu na porta e entrou. Clarisse ficou de queijo caído ao ver a mãe toda arrumada parecendo uma atriz de Hollywood que ia receber o Oscar de melhor atriz.
Rosa ficou ali conversando com Clarisse quase uma hora inteira, até que ela estivesse pronta para descer a sala principal do casarão.
Chegando na sala, encontraram muitas pessoas comendo aperitivos, fumando, e conversando ao som de música instrumental.
Clarisse cumprimentou aqueles que até então, não tinha visto. Beijos aqui, abraços ali e sorrisos falsos por toda a parte.
Cansada de recepcionar os convidados, Clarisse se retirou do recinto e foi para o lado de fora, na grande área principal do casarão.
Sentando-se numa cadeira de balanço, olhou para o céu e viu que o mesmo encontrava-se limpo, sem nuvens, e muitas estrelas brilhando.
Ouviu um cochichar de vozes, umas rizadinhas sapecas vindas de longe.
Ela ficou olhando fixamente para além das árvores e viu os três elfos. Os mesmo daquela noite da qual não conseguiu mais dormir.
Eles à chamaram pelo nome; Clarisse!Vvenha cá menina, não tenha medo.
Obedecendo ao chamado de um deles, ela se levantou e foi em sua direção. Levou um susto ao perceber que desta vez, não eram apenas os três elfos que estavam ali e sim vários seres mágicos.
Várias bruxas de todas as idades, elfos vestidos com roupas de todas as cores, unicórnios, lindos magos jovens e um ancião.
Uma bruxa velha, mas com a vivacidade e beleza de uma jovem de vinte anos, se aproximou dela e a tocou no rosto.
-Oh, Clarisse minha linda menina. Sou eu, sua avó Glória. Sei que talvez você não me conheça, morri logo depois que você nasceu.
-Clarisse entendia tudo perfeitamente agora. Ela era realmente uma bruxa, sabia que não tinha vindo a este mundo sem um propósito.
Ficou olhando sua avó Glória e vendo ali a sua própria mãe. Ambas eram quase gêmeas, se não fosse a diferença de idade entre Rosa e Glória.
-Vó! Disse Clarisse, num tom de surpresa e misto de alegria. Estava tomada por uma forte energia, que fazia o seu corpo tremer de felicidade.
-Clarisse, que bom que você é uma de nós. Nem todas as mulheres da nossa família são bruxas, mas você, eu sabia que era uma desde que nasceu. Estou orgulhosa demais!
-Sei que sua mãe já explicou algumas coisas, que agora você está mais por dentro do assunto.
-Quero dizer a você minha linda neta, que o mundo mágico existe e está presente nos quatro cantos da terra. Sempre estivemos aqui e sempre estaremos aqui.
-Desejo que você cumpra a sua missão como pessoa e como bruxa. Que você evolua, sempre caminhe na luz e, que você tenha muito sucesso.
-Você como já sabe, tem o dom de se conectar diretamente com o mundo da magia. Então sempre que precisar de nós, sempre que tiver que pedir conselhos, basta nos chamar.
-Temos nossos servos, você já os conheceu. São os elfos!
Apontando para os três elfos logo a frente.
Glória disse a Clarisse que aqueles eram os elfos servos dela, que eles auxiliariam Clarisse por toda a jornada dela aqui na terra.
Com lágrimas nos olhos, Clarisse agradeceu a todos os seres mágicos que ali estavam. Deu um beijo e um abraço super forte em sua avó Glória.
Percebeu que aos poucos todos estavam desaparecendo com sorrisos nos rostos e acenando um até breve para ela.
Rosa chegou logo em seguida e viu Clarisse em lágrimas. Clarisse detalhou para a mãe o que tinha acontecido. Ambas se abraçaram e choraram juntas.
Voltando para dentro do casarão, todos já estavam sentados a mesa para a ceia à meia noite, esperando Rosa e Clarisse se juntarem a eles.
Clarisse olhou para a árvore de natal gigantes na sala principal e viu atrás, dela os três elfos acenando e dizendo; -Feliz Natal!

Sendo assim, Clarisse levou sua vida da melhor maneira possível. Estudou magia com sua mãe Rosa, tornando-se uma bruxa poderosa aos vinte anos de idade.
Aos 23 anos, Clarisse se formara em Direito, sendo uma advogada de grande sucesso.
Seu pai e seus irmãos nunca desconfiaram que Rosa e Clarisse eram bruxas, mesmo vivendo no mesmo teto que elas.
Clarisse e Rosa foram inseparáveis desde aquele ano em que ela se descobriu uma bruxinha de oito anos. Digo que jamais se separaram porquê até depois de morta no plano carnal, Rosa sempre se comunicava com Clarisse no plano mágico espiritual.
Clarisse sempre celebrou o natal, gostava de lembrar que foi nesta data que ela ganhou o melhor presente da sua vida; ser uma bruxa, ter poderes mágicos.
Clarisse aos trinta e um anos de idade, ainda solteira e sem filhos, tornou-se Juíza Federal, indo morar na capital de Minas Gerais.
Ali fez uma carreira brilhante, se tornou uma das juízas mais famosas do Brasil, com direito a uma premiação na Argentina, por ser uma das mulheres mais famosas da lei na América Latina.
Em toda a sua vida, Clarisse praticou a magia com disciplina e responsabilidade. Ajudou inúmeras pessoas tanto com o seu dom mágico, quanto com o seu poder de autoridade da lei.
Colocou vários políticos corruptos na cadeia, e ajudou o mundo mágico a se tornar um lugar melhor.
Sempre soube que o Natal, não era apenas uma data qualquer. Não era uma data Cristão, nem Pagã. Mas uma data que fazia todas as pessoas, independente de sua crença, sonhar com o impossível.
Clarisse se juntou a sua avó Glória e a sua mãe Rosa, aos oitenta e nove anos de idade.
Faleceu em um hospital em Belo Horizonte-MG, vitima de um infarto.
Sem marido, sem filhos e sem muitos amigos, seu velório foi para os mais próximos, seus colegas aposentados do tribunal e alguns primos do qual mantinha contato.
Encerrou-se assim uma vida de sucesso, magia e de possibilidades.

Um feliz Natal a todos.

Bruxinha Clarisse.
Leandro Augusto Nogueira
Enviado por Leandro Augusto Nogueira em 07/12/2014
Reeditado em 23/05/2018
Código do texto: T5061740
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Leandro Augusto Nogueira
Jacareí - São Paulo - Brasil, 32 anos
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Leandro Augusto Nogueira