CONTO DE NATAL: O PRESÉPIO

Talvez a ideia fosse de Andreia. Colocar um menino Jesus com a perna quebrada no presépio que há tanto esperavam.

Há três dias que Lúcia e a irmã destinavam seus afazeres a organizar o presépio que decorava o bazar da família. As meninas vasculharam o depósito e trouxeram os enfeites dos

anos anteriores.

Seu Zeca, o pai, há muito não se encantava com aquelas bobagens.

- Nunca me trouxeram lucro. As vendas sempre piores.

A mãe sorria, abraçando a ideia das meninas, gostava de vê-las sorrir.

- Pai, o menino Jesus tem a perna quebrada? Era Julhinho, de sete anos. O menor da família.

Seu Zeca resumia sua resposta a gestos de impaciência e negativas de cabeça.

Julhinho se sentava próximo ao presépio. Desprezava a árvore, as bolas coloridas e as guirlandas. Mas concentrava-se

na cena do nascimento.

Enquanto descia as escadas, com caixas de xícaras e copos, Seu Zeca percebeu o filho em estado contemplativo.

Lembrou-se do avô, o velho Chico Guedes.

No natal dos seus oito anos, ainda existia em Zeca o fascínio pelos bonecos natalinos. Gostava de perder-se na contemplação, como agora via o filho. Quando foram para a ceia na casa do avô, Chico Guedes abraçou o neto e lhe presenteou com aquele presépio. Agora estava ali, anos passados. O tempo mostrava as suas marcas.

O desbotado das cores. O boneco que lhe faltava a perna.

Mas o presépio estava ali, montado pelas filhas. Já nem lhe pediam dinheiro para comprar enfeites novos.

Enquanto apreciava o presépio, o avô lhe afagou o coração.

Olhou para as meninas, atendendo clientes no velho bazar da família. As filhas adolescentes decoravam tudo com esmero. Então, lembrou-se do velho Chico Guedes, ao ver o neto no estado contemplativo. Um dia, o avô afagou-lhe o coração.

Aproximou-se também do presépio. O filho lhe refletia os oitos anos. Tudo organizado pelas filhas.

- Foi bem da Andreia, a ideia de colocar o menino Jesus de perna quebrada no presépio.

A Tia Matilde entrara no bazar, reclamando com ares de imponência roxa.

Quebrou-se a suntuosidade do momento. Não do filho, mas do pai.

As meninas silenciaram. Tia Matilde sorriu, risos gaseificados.

O pai limpou uma lágrima, antes mesmo dela nascer.

As filhas já não lhe pediam dinheiro para comprar enfeites novos. Olhou mais uma vez para o filho. Lembrou-se, então, do velho Chico Guedes.

Seu Zeca sentiu vontade de ser como o avô.

"Livro As Cores do Meu Dia"

Nonato Costa

Nonato Costa
Enviado por Nonato Costa em 25/12/2016
Código do texto: T5863172
Classificação de conteúdo: seguro