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Conto de Natal

Era uma vez um homem que era amigo de toda a gente, estava sempre disposto a ajudar e a defender os colegas de trabalho, mesmo que isso lhe trouxesse consequências graves.

Um dia esse homem foi chamado ao gabinete do director, todos os seus amigos ficaram preocupados, pois quando alguém era chamado ao gabinete do director era porque tinha feito alguma coisa mal.
Mas se os amigos primeiro ficaram preocupados, logo, logo ficaram surpreendidos, o seu velho amigo acabava de transpor a porta, abraçado ao detestado director, e mais estupefactos ficaram quando o ouviram dizer:

- A partir de hoje, o José é o vosso novo encarregado, quero que todos lhe obedeçam como se fosse eu a dar as ordens.

Ficaram sem saber o que dizer ou pensar, então o José que sempre lutara a seu lado pela defesa dos seus direitos, que sempre se opusera à falta de educação do director, estava agora no lado oposto ao deles. Ou seria que estavam enganados e que ele via ali uma maneira diferente de continuar a lutar por eles? Iriam esperar pelo dia seguinte para saberem a resposta.
No outro dia viram confirmar-se o que temiam, José, avisou-os de que dali em diante ocupariam lugares distintos, ele mandaria e eles cumpririam. Não podiam acreditar que José mudasse assim de um momento para o outro, seria que sempre os enganara, seria que sempre fora assim? Sentiram-se desiludidos.
 Os dias foram passando e aproximou-se a quadra de Natal, o ambiente na fábrica continuava na mesma, ou melhor piorara pois José continuava a distanciar-se dos velhos amigos, nem se apercebia que ia ficando sozinho, pois os velhos companheiros de trabalho eram a sua única família e até os poucos amigos que tinha no bairro onde morava se iam afastando também, não era o mesmo homem humilde que sempre tinham conhecido.
Chegou a noite da consoada e José viu-se sozinho em casa, tinha comprado um jantar, e o director oferecera-lhe um bom vinho, mas não lhe apetecia comer sozinho, saiu à procura de alguém que lhe fizesse companhia, encontrou um mendigo e convidou-o mas este negou, até o mendigo o renegava, voltou para casa e sentiu-se infeliz.
Iria beber o vinho todo, embebedar-se e deitar-se, não lhe apetecia assistir à passagem das horas, assim o fez, só que ao deitar-se não conseguiu adormecer, deu consigo a recordar Natais passados com os amigos, não tinham vinho tão bom, era uma verdade, mas eram Natais muito mais alegres.
Quando estava prestes a adormecer ouviu umas pancadas na porta, revirou-se na cama, acendeu a luz, olhou para o relógio e resmungou, quem é que o vinha incomodar logo agora que estava a adormecer, hesitou entre levantar-se e abrir a porta ou deixar-se ficar deitado, voltaram a ouvir-se as pancadas na porta e viu que não o iriam deixar dormir, levantou-se, eram quase dez horas da noite.
Abriu a porta e deu de caras com alguns dos velhos companheiros e amigos, vinham convidá-lo a passar o Natal com eles, ficou sem fala, depois de tudo o que lhes fizera, eles ali estavam a convidá-lo, sentiu tremer as pernas, encostou-se à ombreira da porta e deixou rolar uma lágrima rosto abaixo, um dos amigos subiu os dois degraus, estendeu-lhe os braços e apertou-o contra si.
José saiu do gabinete do director com a sensação de ter retirado um peso dos ombros, acabara de demitir-se do cargo de encarregado, voltava a ser um trabalhador como o fora tantos e tantos anos. Era ali que ele pertencia, aquele é que era o seu mundo.
Ainda não dera dois passos, rumo à velha vida, quando ouviu o director chamá-lo, voltou-se e encarou-o, estava disposto a tudo, mesmo a ser despedido, mas não estava era à espera de ouvir o que ouviu:
-José, tu acabaste de me dar uma grande lição, se soubesses há quantos anos eu não sei o que significa a palavra Natal, quero fazer-te uma proposta, a ti e a todos os outros, se prometerem que passam a convidar-me para a noite de natal, eu dou-vos sociedade na fábrica.
O natal seguinte contou com um novo convidado, o director que virou cozinheiro.


Não esqueçam,

                               “A ganância pode desfazer grandes amizades”

FrancisFerreira
FrancisFerreira
Enviado por FrancisFerreira em 12/11/2007
Reeditado em 20/01/2008
Código do texto: T734818

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Sobre o autor
FrancisFerreira
Portugal, 59 anos
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FrancisFerreira