O que há na janela?

Aqui, sem me mover, olho para você.

Aqui, com a paralisia da angústia, raiva, dúvida, fascínio e curiosidade, olho para você.

O que há na janela?

Você tem uma forma tão singular, feita justamente para poder ser aberta, fechada, às vezes apenas ocultada por uma bela cortina.

Mas ainda que seja fechada ou ocultada, permanece a dúvida:

O que há na janela?

Não importa se eu me esconder, tão pouco adianta correr.

Agora que você está aberta e se apresenta tão hostil para mim, não consigo sentir nada além da sensação de traição e nojo.

O que há na janela?

Se é que há algo em você, não consigo ver. Nesta noite tão escura, a pouca luz do meu quarto não consegue revelar o que se esconde em você.

Se há algo, não me revele, gosto de pensar que pode ser o vazio, mas…

O que há na janela?

Esta moldura de um quadro de profunda imensidão escura… nossa!

As unhas, sim, minhas unham estão raspando a carne de meu braço. Sinto que minha respiração está cada vez mais ofegante, sinto o nervosismo.

O que há na janela?

Se era o silêncio que eu procurava nesta noite, que infelicidade a minha o ter conseguido. Daria tudo por um latido que me libertasse disso.

Meus músculos duros não resistem a querer encarar esse abismo.

O que há na janela?

Se um dia acreditei em algo, acreditei na morte. Posso disso morrer.

Se há ou não algo na janela, não está na janela em si, está lá fora, apenas sua inexistente imagem se fixa, como um quadro, na janela.

O que há na janela?

Se há ou não segurança dentro de casa, não sei. Esta maldita janela está aberta, se há algo no quadro, talvez não fique dentro da moldura.

Pode entrar. Pode entrar. Não! Não entre!

O que há na janela?

Me arrependo do que pensei, se há algo, não deve entrar ou se revelar.

Se há algo, não quero ver, não quero ouvir. Se eu ouvir sem ver ou ver sem ouvir, não faz diferença, não tenho como ser mais rápido.

O que há janela?

Estou no quarto, mas um pouco distante de você, como posso te fechar? Isso que está aí fora pode se aproveitar do breu. Pode estar perto.

Pode estar perto para, ao invés de entrar, me puxar se eu for te fechar.

O que há na janela?

Já sinto meus músculos cansados, meus olhos já secaram.

Este ar viciado e parado…. Como você é diabólica, permitiria que isso que está aí fora entre, mas não permite que entre uma brisa amiga.

O que há na janela?

Se não quer se fechar e me proteger antes que isso venha até mim, assim não o faça, vou encarar, não sei o tamanho, mas vou encarar.

Talvez nem consiga passar por você, talvez seja muito grande…

O que há na janela?

Não vejo essa coisa, mas sei que se aproxima. Meus pelos se arrepiam.

Já consigo sentir suas mãos. Se tiver mãos. Já consigo sentir seu toque, então. Só quero chorar. Vamos, acabe logo com isso!

O que há na janela?

Vamos! Entre! Entre! Entre! Entre! Entre! Entre! Entre! Entre! Entre! Entre! Entre! Entre! Entre! Entre! Entre! Entre! Entre! Entre! Entre! Entre! Entre!

Pode entrar, não te vejo, não te ouço, mas se ela não me ajuda, acabe logo.

O que há na janela?

Não vai entrar? Vai ficar aí me olhando nos olhos? Seus olhos que não vejo?

Pode me encarar daí da escuridão, só você consegue me ver nesta fraca luz, mas e se eu apagá-la? E se eu… apagá-la…

O que há na janela?

Talvez só possa ficar na escuridão, talvez até a mínima luz impeça que saia do breu e venha me abraçar. Não vou apagar.

Se possui tamanha fraqueza não devo temer. Veja janela, como é inútil.

O que há na janela?

Talvez não haja nada na janela. Talvez seja medo, apenas.

Na verdade… agora sei de fato que não há nada lá fora, não há nada com que eu deva me preocupar lá fora. Não há nada na janela.

O que há em meu quarto?

Antonio Core
Enviado por Antonio Core em 05/06/2024
Código do texto: T8079310
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