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O SONHO DE JULINHA

 (um de meus contos do meu livro PEQUENA COLETÂNEA DE CONTOS INFANTIS)
                               O SONHO DE JULINHA
           (Registro EDA 299.511 - Livro 544 - folha 171  de 24/9/2003)
    Julinha, garotinha muito mimada e querida por seus pais vivia em uma pequena cidade do interior e por ser tão mimada era cheia de vontades.
 Fazia sempre muita pirraça e era malcriada quando não tinha seus pedidos, muitas vezes absurdos e impossíveis, atendidos por seus pais. Rejeitava constantemente comer se a comida não lhe agradasse. Era filha única de pais pobres, tinha seis anos era bonita e moreninha e por isso ganhara o apelido de neguinha, o que ela detestava, para ela ser escuro não era bom e tinha até vergonha do pai, pois  era negro.

A mãe de Julinha, que não andava bem de saúde e sofria repentinos desmaios precisou vir ao Rio de Janeiro para tratar-se, já que em sua pequena cidade não tinha hospitais e hospedou-se em casa da  mãe.
Dona Rosa era uma senhora bondosa. Amava muito a filha e a neta ficou muito contente em recebê-las e preparou aquele almoço, que só as avós sabem preparar para comemorar a visita de alguém muito querido.

Julinha gostava de macarrão, mas não gostava de cebola na comida, por isso sua mãe nunca colocava cebola em seus pratos, porém D. Rosa não sabia desse detalhe e preparou aquele molho de tomate e cebola picada. Logo que a avó serviu seu prato feito com tanto carinho e ela reparou os pequenos pedaços de cebola fechou a  cara e zangada disse:
- Eu não vou comer essa porcaria, não gosto de cebola!
D. Rosa ficou decepcionada e triste, mas sabia que criança era assim mesmo, foi para a cozinha e preparou outro prato de macarrão agora sem cebola.
A mãe de Julinha ficou envergonhada pensou em dar-lhe umas palmadas pela desfeita a avó, mas apenas lhe chamou duramente a atenção.

No dia seguinte, como só conseguira marcar consulta com o médico para a próxima semana resolveu levar Julinha ao Zoológico. A menina nunca tinha visto os animais de perto, somente na televisão, pois sua cidade também não possuía Zoo.
Ficou maravilhada com o tamanho do elefante, com o pescoço da girafa, com a juba e o rugido assustador do leão e com os muitos macacos que brincavam em uma pequena ilha, porém um grande chimpanzé preso em uma jaula, onde do lado de fora muitas crianças o chamavam pelo nome e gritavam fazendo alvoroço: Chicão, Chicão -  chamou sua atenção. Ele andava de um lado para o outro carregando sacos de pano e atirando restos de frutas, legumes e areia nas crianças através das grades. Julinha disse para a mãe:
- Que bicho feio, preto, peludo, fedorento e mal educado. Vamos sair daqui mãe, que bicho horroroso!

O dia foi passando e mãe e filha passeando pelo Zoo. Em dado momento a menina se afastou da mãe para ver de perto vários pássaros coloridos e entrou entre dezenas de gaiolas perdendo-se dela.
A mãe, que havia ficado para trás e nervosa por não encontrar a filha, acabou tendo um desmaio. Foi socorrida e levada para um hospital sem conseguir dizer que havia se perdido da filha.
Julinha não se deu conta do que acontecera esqueceu-se dela admirada com a quantidade de diferentes animais que jamais vira.

A tarde chegou, a noite começou a cair, o Zoo fechou suas portas e Julinha viu se sozinha e perdida no silencio. Começou então a chorar e a chamar pela mãe, mas ninguém a ouvia:
- Mãe, mãe onde está você - gritava a menina, e como não houvesse resposta, e nem poderia haver, pois a mãe já ali não estava muito assustada começou a chorar. Um vento frio começou a soprar e ela vestida apenas com uma roupinha leve tremia dos pés a cabeça e também de medo de estar ali sozinha. Então, cansada, com fome e tremendo muito, sentou-se encolhida no chão e encostada na grade de uma grande jaula e adormeceu.

De repente sentiu  mão peluda e forte sobre seu ombro, a menina perdeu a voz e ficou congelada pelo medo.
Então uma voz grossa, porém suave e carinhosa lhe disse;
- Ô menininha, por que você estava chorando e tão triste?
Julinha quis responder, mas não conseguia falar, tamanho era o medo, virou-se e viu o macaco Chicão, aquele chimpanzé, peludo, preto e enorme, que por dentro de sua jaula olhava cheio de pena, amor e vontade de ajudá-la.
Chicão continuou:
- Por que você está chorando? Não tenha medo eu sou amigo e quero te ajudar, sei que você está com frio e fome, por que você não vem aqui para a minha jaula? Eu preparo uma sopinha com os legumes que tenho no fogo que deixam acesso para que eu me aqueça e você pode até passar essa noite aqui e bem agasalhada pois tenho bastante panos para  cobri-la.
Julinha chorando insistia:
- Eu quero a minha mãe, quero voltar para casa, não gosto de você, você é feio e preto. Todos me chamam de neguinha, pois sou um pouco escurinha, mas eu não gosto disso.
- Está bem - disse Chicão – mas hoje acho que você não conseguirá sair daqui, eu vi quando sua mãe desmaiou e a levaram sem saber que você estava com ela. Já é noite e certamente virão procurar por você logo pela manhã, por que você não aceita o meu convite?.
Julinha com medo, mas vendo que o macaco era mesmo bonzinho, entrou em sua jaula que ele abriu com uma facilidade que os tratadores dos animais jamais imaginariam que ele pudesse fazê-lo. Chicão que durante o dia lhe parecera tão mal educado, na verdade era um macaco bom, e até falava, coisa que ela nunca poderia imaginar, Ele preparou uma sopa quentinha e saborosa que ela tomou, pediu mais e  perguntou-lhe.
- O que você colocou  nessa sopa que ficou  tão gostosa, Chicão?
- Coloquei alguns legumes que tinha e também algumas cebolas que atiraram em mim hoje.
- Cebola Chicão!? Não acredito! – disse Julinha, percebendo que afinal cebola não era tão ruim.
Ao que Chicão respondeu:
- Sim cebolas e eu a fiz com amor. Tudo que se faz, com amor e carinho, é sempre gostoso quando se aceita com o coração.

Julinha, então  lembrou-se do macarrão de sua avó, que fora feito com tanto carinho e ela, malcriada, rejeitara. Ficou triste e com pena da avó.
Chicão forrou o chão com os panos, pediu que ela deitasse perto dele, pois com seu pelo  aqueceria. Julinha abraçou-se a ele e nem mais se importava com cheiro forte do macaco, antes que ela adormecesse Chicão pediu-lhe:
- Escuta, meu nome na verdade não é Chicão, as crianças me chamam assim, mas  meu nome é Símio, Símio Selva e não conte para ninguém que eu te ajudei e  que também até sei falar, pois sem saber disso as crianças já fazem todo aquele alvoroço em frente a minha jaula, imagina se souberem que também falo. Não vou ter mais sossego vou ter até que dar entrevista para a televisão. Sei que sou um animal, mas Deus me permite ajudar alguém quando precisa. Outra coisa:
 Aprenda que nem tudo que é preto, peludo, feio e não tem bom cheiro,  é, necessariamente, mau e que a beleza está no coração, por isso quando te chamarem de neguinha, como você me contou, não se zangue é uma maneira carinhosa de demonstrar que te amam, tenha orgulho de si e seja sempre boa menina.

O dia amanhecia. Chicão pegou Julinha no colo, que ainda dormia e a colocou fora da jaula suavemente.

Logo apareceram os guardas do Zoo trazendo sua mãe que já se recuperara e encontraram a menina calmamente sentada e ainda dormindo do lado de fora da jaula. A mãe de Julinha  abraçou-a com força, agradecendo a Deus havê-la encontrado e não entendia porque estava tão calma, sem fome e sem frio, perguntou se ela não sentira medo.
- Não, eu não senti medo – disse Julinha- porque  dormi e tive  até um sonho muito bom. Ela estava certa que sonhara.

Então quando ia saindo do Zoo no colo da mãe, olhou para trás para a jaula de Chicão e viu quando ele lhe mandou um beijo e  acenando com a pata lhe deu adeus.

Ela entendeu então que não tinha sido um sonho tudo acontecera de verdade. Aprendeu as coisas que o macaco lhe ensinou tornou-se uma boa menina e todos passaram a gostar muito dela que guardou para sempre, como ele lhe pedira, o segredo de Chicão, seu amigo, o macaco falante.

                                           




Jogon Santos
Enviado por Jogon Santos em 23/10/2019
Reeditado em 24/10/2019
Código do texto: T6776970
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Sobre o autor
Jogon Santos
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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Jogon Santos