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CASTELOS DE AMIZADE





O toque da sirene anunciou o intervalo na escola e os amigos de João Marcos saíram da sala de aula apressados e eufóricos para o pátio. Na primeira aula da manhã tinham sido informados pela professora de que o amigo estaria retornando à cidade naquele dia. A alegria dos alunos com a notícia da chegada de João Marcos foi contagiante. Sempre com um sorriso no rosto, ele é quem cativa a todos, toma a iniciativa nas brincadeiras, faz as pazes quando acontece desavenças entre os alunos. É uma criança admirada por todos na escola. Há mais de um mês João Marcos estava afastado da escola.

Tudo aconteceu durante as férias de julho. No início desse mês, a escola organizou uma excursão para a praia. João Marcos e seus amigos mostravam-se animados com o passeio e ansiosos para que as oito horas de viagem passassem logo. Durante a viagem, observavam tudo pela janela do ônibus e faziam comentários sobre as cidades por onde passavam, as pontes, os rios e as belas paisagens que viam pelo caminho. A lua cheia iluminava a noite e as crianças não dormiam. Seria
apenas um dia na praia e elas queriam aproveitar ao máximo o passeio.

Chegaram ao destino com o dia já claro. Desceram do ônibus, ajudaram a retirar as bagagens do veículo e guardá-las no hotel. De onde estavam, ouviam o barulho do mar e sentiam o vento forte tocar seus corpos. As crianças sentiam uma sensação de alegria indescritível.

No café da manhã, algumas delas até afirmaram que não estavam com fome. Compreensível que não quisessem perder tempo com a primeira refeição, mas precisavam se alimentar. Assim que avistaram a praia, não resistiram e correram em direção ao mar, queriam pular a primeira onda e sentir no corpo a água que os adultos diziam ser muito salgada.

Os pais acompanhavam os filhos de perto e sentiam-se contagiados com a felicidade deles, meio desajeitados, ora saltando sobre as ondas, ora mergulhando por baixo delas. Depois de algumas horas, pediram que todos saíssem da água e fossem às barracas para almoçar e beber um pouca de água. Mesmo com muita insistência, não conseguiram retirar as crianças do mar. Além do carisma natural de sua personalidade, João Marcos apresentava espírito de liderança. Foi ele quem convenceu os colegas a saírem da água para atender ao pedido dos pais.

Após o almoço, todos saíram das barracas e foram jogar bola na areia da praia. Formaram dois times, com a participação de meninos e meninas em ambos. Depois de se divertirem jogando bola juntos, decidiram que precisavam treinar o time que representaria a escola num campeonato, no mês de setembro. João Marcos era um dos destaques do time. Após o treino, ainda fizeram uma pequena corrida pela orla da praia. Areia, mar e vento, aquela sensação de liberdade, alegria e amizade, fazia aquele grupo de amigos ser muito especial. Conforme combinado antes da viagem, foram brincar de montar castelos de areia, igual tinham visto na televisão. Despediram-se do mar com o último salto sobre as ondas. Era chegada a hora de retornarem.

Chegaram no início da madrugada. João Marcos foi um dos primeiros a descer do ônibus. Ao atravessar a rua sem olhar para os lados, uma moto em alta velocidade atingiu suas pernas. João Marcos sofreu uma pequena fratura em uma delas e ficou o restante das férias usando gesso. Em agosto, início do semestre letivo, ainda com o gesso na perna, frequentou as primeiras semanas de aulas. Usava uma muleta
como apoio e caminhava com dificuldade, quase arrastando a perna engessada. No entanto, recebia sempre palavras de apoio de todos na escola. Em nenhum momento, ouviu comentários pejorativos em relação ao seu estado físico e à sua maneira de andar, que o deixasse triste. Todos respeitavam o momento pelo qual ele estava passando. João Marcos viajou para a capital, pois teria de passar por uma cirurgia para correção do osso da perna fraturada. Após a cirurgia, ficou alguns dias no hospital, depois se hospedou na casa de uma tia para se recuperar do processo cirúrgico. Passado o período de recuperação, para sua alegria, voltou para casa, justamente no dia da decisão do campeonato, e com o time da escola na final.
Ainda durante o intervalo na escola, os meninos se reuniram no pátio para planejar como fariam para receber o amigo. João Marcos não tinha condições de participar ativamente da partida, mas seus amigos fizeram questão de que ele estivesse em quadra junto com o time, entre os reservas. À noite, o ginásio esportivo estava lotado, com as torcidas organizadas esperando a entrada dos times em quadra. Primeiro entrou o time adversário e, para surpresa de todos, entrou a equipe castelos de amizade. Os meninos tinham pedido à organização do evento para mudar o nome do time para homenagear o amigo.

Na linha de frente, vinha João Marcos uniformizado, seguido de seus companheiros de time. Uma comoção geral tomou conta do ginásio, com aplausos e gritos de apoio ao menino. Definitivamente, João Marcos era uma criança muito especial. Ele ficou próximo dos reservas do time, apoiando da forma que podia. Os minutos de jogo foram se passando, e seu time perdia por um gol de diferença. No último minuto de jogo, num lance de ataque, foi marcado um pênalti a favor de seu time. De repente, algo inusitado aconteceu: começaram a surgir gritos de João Marcos! João Marcos! Inclusive na torcida adversária, todos de pé, aplaudiam e gritavam seu nome. Era o pedido para que ele fizesse a cobrança do pênalti. Num campeonato de futsal com crianças, tudo era motivo de festa. João Marcos foi caminhando em direção ao gol adversário, colocou a bola na marca de pênalti, olhou firme para o goleiro e chutou. Gol e jogo empatado! Os jogadores dos dois times correram para abraçar e comemorar o gol com João Marcos. Nas arquibancadas, no rosto de muitos torcedores, rolaram lágrimas de emoção, com a atitude das crianças. O juiz apitou o final do jogo. Não haveria um time campeão naquela noite. Foi o jogo da amizade, do respeito e do reconhecimento. As pessoas presentes no ginásio eram as verdadeiras campeãs.

Henrique Rodrigues Inhuma PI
Enviado por Henrique Rodrigues Inhuma PI em 31/03/2021
Código do texto: T7220765
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Sobre o autor
Henrique Rodrigues Inhuma PI
Inhuma - Piauí - Brasil, 53 anos
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Henrique Rodrigues Inhuma PI