O gorro vermelho

 

     Charles achou uma touca vermelha na charrete do seu Chico da Padaria e ficou muito curioso. Que troço esquisito era aquele? Nunca vira o Senhor Chico usando chapéu, quanto mais uma touca.

      Seu Chico é amigo do chaveiro da cidade Chapéu de Couro, o pai do Charles. Todos os dias vai entregar pão e leite na casa deles e às vezes também leva umas roscas carameladas e salpicadas de açúcar e canela que todos adoram.

Charles gosta de ir pra escola de carona na charrete do Senhor Chico. E segue ouvindo os causos contados pelo amigo idoso quase todos os dias.

    

     Seu Chico tem idade pra ser o bisavó de Charles, mas é um senhorzinho ativo e diz que esse negócio de aposentadoria não é coisa para ele não. Quer partir "dessa pra melhor" trabalhando. Se tem saúde pra quê repouso, é o que sempre diz.

É um Senhor idoso com alma de menino. Gosta muito de crianças e Charles é um garotinho aventureiro. Sabe ouvir e até participa das suas histórias. É um menino educado e cheio de imaginação. Além disso é amigo dos seus netinhos e quando desce da carroça junta-se a eles para irem até a escola.

     

     O Zé Chaveiro, pai do Charles, é um homem trabalhador, caseiro da propriedade onde mora e nas horas vagas reproduz chaves para o povo esquecido que vive perdendo as suas. Mas mesmo sendo um bom empregado, não ganha muito dinheiro e o bico de fazer chaves também não é lá muito rentável. Por isso o Charles tem que ir para a escola à pé todos os dias. Não é tão longe, mas a carona na sua carroça ajuda a descansar o menino e também a distrair a mente do Velho Chico.

     

Naquele dia a curiosidade infantil girou em torno daquele objeto aparentemente esquecido no banco da charrete - um gorro vermelho. Charles não sabia, mas o Senhor Chico era o Papai Noel do Parque infantil organizado pela Paróquia da cidade há vários anos. Todos os meses de dezembro fazia esse trabalho que dizia ser filantrópico em homenagem ao Natal - Vestia-se de Papai Noel.

     Mas como era um nato contador de estórias resolveu contar mais uma das suas e piscando o olho para o Charles falou!

__ Ah! Menino Charles! O Velho Noel anda muito esquecido.

Você acredita que ontem à noite ele saiu com minha velha carroça pelas redondezas pra coletar os pedidos das crianças e hoje cedo precisou sair às pressas e esqueceu esse gorro em cima do banco?

 

         Os olhos do Charles cresceram, cresceram e brilharam...

_ O Papai Noel seu Chico? De verdade?

_ Sim! Respondeu o velho matreiro.

_ Mas ele está doente?

_ Não! Imagina menino! Papai Noel não adoece. Por que achou isso?

_ Ora seu Chico! O Papai Noel não pode esquecer nada! Se ele começar a perder a memória como vai entregar todos os presentes na noite de Natal? Além do mais, ele não pode sair por aí sem o gorro. Senão vai apanhar um resfriado!

 

    Seu Chico achou graça na lógica do garoto e saiu com essa para tapear:

_ Ah! Mas é por isso que ele sempre usa a minha carroça menino Charles!

Ele sabe que sempre vai encontrar o que deixar nela no mesmo lugar.

Charles pensou, pensou e disse:

_ Posso deixar a minha cartinha de Natal dentro dele?

 

       Seu Chico padeiro sorriu da inocência daquele menino tão sagaz e respondeu:

_ Claro meu filho! Faça isso! Aproveita que não é todo mundo que tem a chance de andar na carroça do Papai Noel e ainda por cima achar o seu gorro mágico.

E dizendo isso deu uma gargalhada:

__ Hô! Hô! Hô!

         Mas Charles estava entretido pegando o envelope na tiracolo que levava pendurada ao pescoço cheia de material escolar e nem ouviu aquele som inconfundível.

 

     Chegaram ao destino, o menino desceu da carroça, agradeceu a carona sorrindo e seguiu para escola todo feliz porque a cartinha para o Papai Noel estava guardada no gorro vermelho. E aquele ano teria sorte, tinha certeza!

Quando o garoto já não podia mais vê-lo, o Velho Chico pegou o gorro onde o amigo tinha colocado o seu pedido, coçou a longa barba branca e disse:

__Ufa! Essa foi por pouco!

 

     Naquele Natal o garotinho Charles ganhou a bicicleta que todos os anos pedia ao Papai Noel desde que aprendera a escrever...

 

Adriribeiro/@adri.poesias

 

 

Adriribeiro
Enviado por Adriribeiro em 26/10/2021
Reeditado em 06/12/2021
Código do texto: T7372281
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