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Sonhos

Eu sabia quais eram meus principais objetivos de vida, tudo parecia estar muito claro na minha cabeça, eis então que me dei conta: não seria capaz de conquistar todas as coisas que eu queria, sentia que havia falhado na maior da minha vida mesmo ainda sendo jovem. Eu sempre chorava pensando no meu passado e no meu futuro, de alguma forma era impossível me desapegar ou evitar esses pensamentos que tomavam conta de mim a maior parte do dia. Algumas vezes eu procurava me prender dentro da minha própria mente, sentia que se eu sonhasse o suficiente poderia esquecer as coisas ruins que me rondavam, mas não. Na realidade nunca consegui me desapegar de todas as questões sobre mim mesma e minha vida. Eu não ouvia gritos, mas é como se a todo o momento estivessem brigando comigo, e eu percebia que a indignação estava dentro da minha cabeça, vinha do meu próprio eu.
Eu passava grande parte dos meus dias lutando contra o sentimento de fracasso e a imensa vontade de chorar, juntamente com meu forte desejo por desistir. Eu não pretendia deixar para trás somente os meus planos (até porque não conseguiria viver sem realizar aqueles sonhos), eu queria que tudo chegasse ao fim, queria não acordar no dia seguinte tentando recuperar o que já havia sido estregado há tempos. Eu tinha a plena certeza de que havia perdido não só a batalha, mas a guerra toda contra mim mesma.
E por mais que tentasse escapar dos meus planos, sempre era trazida de volta pela realidade, que por um acaso parecia ser muito mais forte, era como nadar contra correnteza num mar bravo. E no fim de todos os dias eu me sentia exausta, mas tinha medo de dormir, eu sabia que se dormisse o dia seguinte chegaria mais rápido, e minha vontade não era viver nem mais um dia sequer.
Pensando nisso me dei conta de que não adiantava continuar, eu queria descansar de uma vez por todas e sabia o que devia ser feito. No entanto... Nem meus planos mais sombrios eram corretamente colocados em prática.
No começo foi estranho acordar num lugar tão claro, acho que eu estava passando a maior parte dos meus dias em locais escuros sem me dar conta. Sabia onde estava e depois de alguns segundos já era possível assimilar tudo aquilo com o que havia acontecido. E sim, eu havia sobrevivido à minha tentativa de suicídio.
Mais um dia chorando e implorando para que se Deus existisse ele tivesse piedade e me deixasse morrer, enquanto pessoas comemoravam o simples fato de eu ter aberto meus olhos. Pensei nas mesmas coisas que havia pensando antes de aplicar em mim mesma aquele medicamento. Infelizmente nada havia mudado, alguns encaravam minha vida como um milagre, e eu só me questionava porque não podia parar de sofrer nunca, não importa o que eu tentasse fazer.
Rezei baixo naquele dia, algumas pessoas acreditavam que eu estava agradecendo ou pedindo uma nova chance de viver, mas tudo que eu pronunciava dentro de mim era uma suplica para me deixar morrer, a vida parecia ainda pior.
Eu recebi muitas perguntas, absolutamente todas as pessoas achavam que o suicídio se tratava de um pauta pontual, mas minha perda de interesse pela vida só podia ser explicada depois de diversas sessões terapêuticas.
Não me sinto mais feliz hoje, talvez eu me sinta mais forte, mas agora tenho medo da morte, ou melhor, da NÃO morte se é que é possível dizer algo assim. Quase morrer e sobreviver não me fez valorizar mais ou menos a minha vida, mas me fez temer tentar de novo, eu tinha medo, não de morrer, nunca me arrependi dessa decisão e gostaria que tivesse dado certo, mas o processo da morte é mais complexo do que pode parecer, eu fiquei viva para ver como as pessoas que eu amava sofreriam caso eu não estivesse. Admito que não era capaz de sentir a menor consideração por mim mesma, mas dentre tantos erros, eu não queria que minha morte carregasse o fardo de mais um.
Viver se tornou mecânico, resistir é necessário e fazer isso como se não houvesse nada acontecendo de ruim, é angustiante e doloroso. Meus antigos sonhos foram quebrados, e os estilhaços agora serviam para me cortar por dentro. Sinto que estou sangrando, não como da primeira vez, de alguma forma, estou menos viva agora.
Vena Funesta
Enviado por Vena Funesta em 30/10/2019
Código do texto: T6782608
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Vena Funesta
Altair - São Paulo - Brasil, 21 anos
11 textos (159 leituras)
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Vena Funesta