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Diva

O sol entrava pela fresta da janela aquecendo meu rosto, meus olhos ofuscados pela luz relutavam em abrir. Esfreguei-os tentando me acostumar a claridade, fechei as pálpebras por alguns instantes ouvindo o silêncio. Senti-ame estranha era como se aquele corpo não me pertencesse. Coloquei os pés para fora da cama, sem olhar para o chão, calcei os chinelos que também não pareciam meus. Enquanto coçava a cabeça disse ao silêncio – Também desde ontem não me reconheço mais - por fim levantei e arrastando os pés fui escovar meus dentes, o que fiz sem lançar se quer um olhar de esguelha para o espelho... Quando penteava meus cabelos olhei para escova e notei que haviam fios vermelhados e lisos presos a ela, tentei lembrar se alguém havia estado ali e que pudesse ter feito uso dela. Em vão, minha memória nunca fora lá essas coisas e hoje ainda... Se me perguntassem o meu nome, seria preciso pensar pra responder... Não ria é sério.

Corri as mãos pelos cabelos e até sua textura estava diferente, neste momento um terror incontrolável percorreu meu corpo, num arrepio comecei a suar frio, muni-me de coragem e lancei um olhar incerto para o espelho e o que vi era algo que não podia imaginar! Meu cabelo que sempre fora um tanto enrolado e preto estava liso e meio vermelho, não sei que porra de cor era aquela, mais parecia àquela água de salsicha fervida, o pior de tudo era que não lembrava muita coisa da noite passada. Olhando mais atentamente, meu rosto também estava diferente, era o meu e ao mesmo tempo não era. Sentia-me como Dorian Gray, só que sem quadro. Tentei fazer meu penteado habitual; uma escovada básica, mas algo mais forte me impelia a continuar, em dado momento comecei a procurar uma “chapinha” que não tinha. – Devo estar ficando louca! – falei comigo.

Voltei ao quarto a fim de me trocar e ri ao trabalho, ao abrir a porta do guarda-roupa nova surpresa, só havia calça jeans (o que era normal) e botas de muitos tipos com saltos superiores a 15 cm, era só o que faltava! E o pior era que não tinha mais nada para vestir e pra variar estava mais atrasada que o coelho branco. Vesti aquela fantasia toda e saí, torcendo para não encontrar ninguém no corredor ou elevador, mas não foi bem assim... Já disse que nasci no dia mundial da zica?

Mal abri a porta lá estava Maria Felicidade o ser mais curioso e fofoqueiro que conheci e foi logo dizendo:

- Oh, bom dia! O que aconteceu com você? Está bonita nossa essa calça por dentro da bota está divina!!! – com as mãozinhas no ar – andou tendo aulas de etiqueta? Muito bem já não era sem tempo hein...

Se quer me dei ao trabalho de responder e segui meu caminho. No elevador estavam alguns moradores, que apenas me cumprimentaram, mas percebi que murmuravam... ... ... ... ... ... ... Finalmente cheguei ao térreo, passava pela portaria a fim de ir para o ponto de ônibus:
- Seu pai já mandou o carro

- Hã? Carro? Como assim?

- Aquele zerinho...

- Ah tá, vou dar uma olhada... – já me afastava quando ouvi

- Bonita bota...

Fui ao estacionamento ver o tal carro, era um belo Fox zero, só pode ser engano, brincadeira algo assim, como dirigir se nem carta tenho! Só que a curiosidade falou mais alto, abri a porta do carro, entrei, olhei em volta e lá estava minha carteira de motorista.  – O que está acontecendo? – Saí às pressas dali, saí pelo estacionamento mesmo, só querendo sumir...

- O que houve? – era o porteiro novamente. Respondi a primeira coisa que me veio na cabeça

- Não gostei da cor... Gosto de vermelho, não de preto.

Por fim saí e pude respirar ar puro. Caminhando para o ponto sentia que atraía todos os olhares. Cheguei ao ponto, entrei no ônibus cheio, um rapaz cedeu seu lugar, achei estranho, mas não ia recusar. No trabalho, todos me tratavam diferente, fui levada a uma grande mesa, onde fiquei o tempo todo contando notas de dinheiro e engavetando papéis. De tempos em tempos alguém aparecia me oferecendo café, numa dessas vezes estava de pé olhando pela janela, quando ao sair à moça diz:

- Bonita combinação, calça por dentro da bota... – não agüentei

- Pode me dizer o que tem de tão especial nisso? É só uma bota! – a moça saiu e a ouvi dizer à outra:

- A Princesinha acordou com o pé esquerdo hoje!

- Eu também acordaria com a vida dura que leva... Carro zero fornecido pelo pai, “trabalha” na empresa do pai...

O que era aquilo!? Havia um circo armado onde a foca amestrada era eu! Foi então que um celular tocou o peguei, olhei para ele, tinha câmera e um monte de frescuras, ele parecia fazer tudo, menos uma simples ligação, consegui atende-lo, antes, porém vi o nome no visor e atendi com naturalidade:

- Fala...

- Tá de pé hoje à noite?

- Não sei... O quê?

- Nem diz isso! Que dúvida é essa? Ce sabe que vai bombá!

- Você está bem?

- Claro, por quê? Vai, diz que vai...

- Tá...

- Passo aí pra ti pegar – e desligou.

Deixei meu corpo cair numa poltrona muito confortável de couro – Só pode ser loucura, Rita nunca havia falado assim... No final da tarde ela apareceu, toda loira e de longe se notava que havia feito chapinha, coisa que não precisava. Após interminável distância, chegamos, pensei que estávamos no local errado.

- Rita que lugar é esse?

- Quantas vezes tenho que dizer! Meg, nada de Rita! Vem e não esqueça os óculos escuros.

- Me larga! Chega!

 - Chega de que? Nem entramos... O dia foi duro, também não a culpa ter que agüentar aquele povinho... Afff vamos coloque os óculos e vamos entrar, come in baby.

Sentia-me sem forças para reagir, ela era mais forte, entrei. Milhares de luzes piscavam, então entendi o porquê dos óculos, mesmo com eles era difícil enxergar. Por toda parte criaturas se contorciam como se estivessem sendo eletrocutadas ou meio a um ataque epilético, ou ainda, tudo ao mesmo tempo. Sentamos numa mesa, logo outros chegaram e a conversa me apavorou; a última prancha da moda, uma tinta que poderia ficar meses sem retocar.
- Ah é essa que cê tá usando né?,

- Não entendi – aquele barulho que denominavam de música, aos meus ouvidos ruídos, qualquer batuque era mais afinado, ao menos era um ser humano que tocava não aquele sei lá o que, aquele barulho industrializado, como tudo e todos ali, eram como se tivessem saído de uma fábrica de plásticos, todos iguais falando do mesmo modo. Coisa que nem um robô é capaz de fazer.

Então que percebi olhei atentamente para os rostos a minha volta, eram de plástico, alguns eram de um plástico mais maleável como PVC, outros mais duros como garrafas pets, mas de um modo ou de outro plástico. Toquei meu rosto, estava escorregadio, passei as mãos pelos cabelos, ela correu com a mesma facilidade de quando acordei sua textura agora parecia uma espécie de borracha. Olhando todo o conjunto da cena, era mais que surreal Salvador Dali jamais ousou imaginar algo assim. Não pude mais me conter:

- Parem com isso! – gritei e todos aqueles rostos brilhosos olharam pra mim - O que há com vocês não percebem que tudo aqui é plástico, desde o copo até as pessoas! Vamos!

Neste momento fez-se um grande alvoroço a minha volta e um daqueles bonecos humanos gritou:

- Um intruso! – Confusão

Como nossos sensores ultrapotentes não capitaram a presença do inimigo? Tirem esse, esse não consigo nem dizer esse SER PENSANTE daqui! – vociferou com nojo!

Senti que me prendiam os braços às costas, tentava me soltar, mas era inútil, se tivesse um isqueiro os derreteria, mas havia esquecido o maço de cigarros em casa. Do alto a voz prosseguia:

- O que pretende? Ela quer nos contaminar!

Foi então que comecei a cantar:

“Não me peça que eu lhe faça uma canção como se deve correta, branca, suave, muito limpa, muito leve. Sons palavras são navalhas e eu não posso cantar como convêm sem querer ferir ninguém... Mas não se preocupe meu amigo, os horrores que te digo isto é somente uma canção, a vida realmente quer dizer... a vida é muito piooor. E eu sou apenas um rapaz latino americano, sem dinheiro no banco, sem parentes importantes...”  Ao ouvirem a última frase começaram a se contorcer. Aquilo sim os afetou, aliás, só entenderam a última frase, aquilo sim seria o fim – Então repeti lentamente “sem dinheiro no banco, sem parentes importantes”. Foi então que não senti mais o chão sobre meus pés. Senti que me carregavam, em segundos fui arremessada no chão e a porta de plástico se fechou.
Chovia forte, a tinta cor de água de salsicha escorria. Meu rosto se desfazia, era como se a chuva fosse um reagente como o plástico. Tentei correr, mas me desmanchando, escorreguei em mim mesma e caí...


Então acordei, havia caído da cama. Corri para o espelho. Meu cabelo estava lá novamente, meu rosto... Na rádio tocava “eu sou apenas um rapaz latino americano...” Não pude deixar de rir, salva pelo Belchior, que ironia, eu que sempre rira dele!

Lavei o rosto, como que para me certificar que não ia se desfazer como gelatina fora da geladeira... Quando enfim me convenci, fui até a janela sentir o vento da manhã. Que bagunçou meus cabelos, começava a garoar, na calçada alguém corria com uma espécie de sacolinha plástica de supermercado na cabeça (afinal, tudo pela chapinha), de nada adiantou, ao parar sob uma marquise seu cabelo parecia uma piaçaba, não deu pra deixar de rir, a bota de salto grotesco a fazia escorregar e os óculos escuros caíam a todo instante. Sorri sentindo o vento no rosto. Não havia nada que pudesse me impedir de senti-lo, era minha pele, o vento e a garoa que se transformava em chuva.

Uma borboleta pedia abrigo, dei-lhe passagem e ali ficamos: eu, o vento, a borboleta lilás e, sentindo e curtindo a intensa companhia um do outro.
 
 

Giliane Moura
Enviado por Giliane Moura em 24/05/2008
Reeditado em 12/07/2008
Código do texto: T1002732
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Sobre a autora
Giliane Moura
Santo André - São Paulo - Brasil, 38 anos
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Giliane Moura