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Um sonho escuro

 - Não sei explicar muito bem, era um sonho que parecia real. Tu choravas incessantemente e eu não entendia nada. Este sonho se repetia todos os dias e me desgastava muito. Tudo sempre escuro, vozes ao meu redor, sons de máquinas que não consigo definir… É uma sensação ruim, percebo que meus pais estão por perto, mas não consigo vê-los e eles também choram.  Realmente perdi a noção entre o real e o onírico. Ainda bem que estás aqui comigo! Não saberia viver sem esse teu sorriso que me acalma, sem teus olhos que descortinam para mim toda a verdade do universo, sem teu afago que me consola de todo o caos. Amo-te cada vez mais, todos os dias percebo quão importante és para mim. Sinto saudades, isto é estranho, pois estou do teu lado sempre. Quero te beijar como sempre beijei, mas logo o sonho escuro se me apresenta aos olhos. Começo então a pensar em minha infância, nos momentos que passei com meus pais, lembro do sorriso de minha mãe quando eu andei de bicicleta sem rodinhas pela primeira vez, lembro de meu pai que fazia cócegas em mim quando ele chegava do trabalho, lembro que eu contava as horas para que ele voltasse do escritório. Engraçado é que logo a euforia de minhas lembranças cede lugar a uma sensação desconfortável. Escuto minha respiração uníssona e entediante, não consigo definir o local em que me encontro. Quando acordo desse sonho ruim me dá um grande alívio, meu peito parece que se desprende de um peso enorme, como se meus pulmões respirassem o oxigênio do alto de um bosque intocado pelo progresso. Percebo o sentido da palavra liberdade em seu mais estrito sentido, ser livre! Vejo a natureza manifestando-se diante de meus olhos, convidando-me para ser o que ela é. Sinto-me bem nesta hora, pois não tenho carências de nada. Não há espaço para a inveja, a raiva e quaisquer outros sentimentos ruins porque agora tu estás do meu lado. O sol ilumina teu rosto como se ele fosse quadiuvante na natureza, tamanha é a tua beleza para mim. Nem sei por que falo assim, pareço aqueles poetas apaixonados que necessitam expressar seus sentimentos mais profundos, mas só sei que estou sentindo uma necessidade de ser poeta. Esses meus sonhos escuros despertam em mim uma necessidade de valorizar tudo aquilo que realmente tem valor. Valoramos coisas estúpidas no cotidiano e esquecemos daquilo que de fato nos torna felizes. Quando penso no que me faz feliz vejo poucas coisas, porém essenciais para a vida. Vejo que preciso apenas de um sorriso e um olhar verdadeiro, pobre é quem não os tem.
 Meu amor onde vais? Por que não ficas mais um pouco? Ah sim, vais fugir da chuva? Está escurecendo rápido. Vou para minha casa, amanhã nos vimos. Acho que está na hora de jantar, meus pais devem estar me esperando. Vou seguindo essa estrada de chão É interessante ver o balanço das flores carregadas de chuva, elas parecem que choram em suas oscilações. Vou correr porque está escurecendo muito rápido, acho que tem visita em minha casa. Pelo carro estacionado devem ser os guris da faculdade. Não é que é mesmo! Olha só que legal vê-los aqui. Minha velha bicicleta também está estacionada ali, fazia muito tempo que não a via. Minha mãe fez mais uma vez um rizoto de camarão que eu adoro e ainda chamou meus amigos para jantar. É bom estar do lado de pessoas amigas, meus colegas da universidade, meus amigos da minha rua, meus colegas do jardim... Pena que passou rápido e agora já é hora de dormir de novo.  Não escondo minha ansiedade, pois temo ter mais uma vez meus sonhos ruins que me atormentam com seu silêncio e escuridão. Fico um tanto confuso com esses sonhos incessantes, pois a realidade se transforma ao meu redor oscilando assim minha percepção do que é verdadeiro. Acho que estou chorando agora, não sinto, está escuro, muito escuro. Mexo-me de um lado para o outro tentando acordar, mas não consigo, faço força e nada. Estou cansado, muito cansado. Chego a ficar exausto na esperança de acordar novamente, quero me livrar desse pesadelo que insiste em me acompanhar. Acho que estou sonhando a uns três dias diretos, pois não vejo mais ninguém, somente a escuridão. Percebo a infinitude do breu apesar de estar em um pequeno quarto. Estou sufocado e o meu peito aperta. Procuro me recordar das coisas boas que passei e logo lembro de ti. Tenho lembranças que vão se misturando com a realidade. Não compreendo como posso te oferecer as amoras que roubei de um terreno baldio quando eu era ainda menino. Sinto o mesmo gosto delas que sentia na infância e agora ofereço para o meu amor vinte anos depois.  Espero que tu gostes dessas amoras, pois me ralei todo para pega-las. Um cachorro que cuidava do terreno veio correndo me atacar, mas eu consegui ser mais rápido. Vamos! Suba na minha bicicleta, precisamos sair daqui. Depois se a professora do jardim enxergar que roubei amoras ela pode contar tudo para meu pai. Onde estão nossas roupas? Está todo mundo olhando para nós! Toma aqui teu vestido e alcança minha bermuda, não podemos sair assim. Por que escureceu de novo? Tão rápido! Não vai embora, fica mais um pouco! Eu não conto pra ninguém!  Desculpa-me não queria te fazer mal. Desculpa!! Vou te ligar, pois preciso ouvir tua voz. cadê o número dela? Ta aqui na memória do celular. Droga! Ocupado. Só escuto um tuuu, tuuu, tuuu. Tenho que caminhar de novo, mas não sei para onde vou melhor seguir as luzes dos postes. Estou me sentindo vigiado apesar de não ver ninguém, estou com fome, sinto frio é o meu sonho escuro de novo. Já não sei mais e nem quero saber, estou confuso.
Por que disseste-me para eu não ficar confuso? É claro que quero um abraço teu. Sabes que isso é o que mais me importa. Como o dia ficou tão claro? Sinto-me aliviado. Sabes meu amor, mais uma vez tive um sonho ruim.  Sonhei que eu estava em um quarto de hospital, meus pais choravam em meu leito, pois eu estava à sete anos vegetando em cima de uma cama respirando com a ajuda de um aparelho que fazia tuuu, tuuu, tuuu. Tu vinhas me visitar aos prantos e eu não conseguia te consolar. Eu só sabia sentir saudade!
Hermison Frazzon da Cunha
Enviado por Hermison Frazzon da Cunha em 27/06/2008
Código do texto: T1053408
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Hermison Frazzon da Cunha
São Leopoldo - Rio Grande do Sul - Brasil, 39 anos
103 textos (30222 leituras)
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Hermison Frazzon da Cunha