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(Sem título, porém com texto)

  Eis o estado que vos falo, como se já viesse discorrendo antes disto escrever, cinicamente depreciado, tanto apavorante, espantoso. Desde o princípio, o bicho homem, crente em sua soberania existencial, mostrou-se flexível aos obstáculos da natureza. Pois assim, tão aparentemente intenso e potente, viveu com toda eficácia até os dias de outrora. Porém tão frágil e débil assim também sempre fora, e nunca bastou um caso, pequeno que fosse, para lhe pôr em desequilíbrio. Ora, por ser um bicho tão inteligente, abotoado ao raciocínio, devia ter a obrigação de esperar o que o destino já estava a trazer. Caso tal que não chegou como uma tempestade, determinada em consumir toda sua energia em um só tempo, mas sim ocorrendo aos poucos. Daí o bicho homem, em toda sua astúcia, instituiu apegos miraculosos e simples para que se sentisse protegido de qualquer desgraça. Permita-me falar, sem rodeios, no que veio a calhar: tais apegos se constituíram, pouco a pouco, em próprios infortúnios.

      Pois o homem, tão adequadamente fiel à sua religião, ao seu Deus todo protetor, amigo misericordioso, erudito, amável criatura divina dos céus impossíveis, foi se perdendo gradamente até os dias a que quero chegar.

      Não se sabe como começou, mas alguns bichos, ao analisarem os seus dias, talvez com uma criticidade um tanto decadente, ou quem sabe correta (não há o que duvidar nos tempos atuais), começaram a pregar uma greve. Porém, não era esta uma tão comum agitação trabalhista, em busca de melhores condições no emprego; nem havia de ser algo parecido. No começo, tudo fora visto com os olhos do absurdo. Mas, o bicho homem já estava numa situação tão precária e urgente, conseqüência do seu desrespeito com o ambiente que se relacionava, que aos poucos foi se acostumando com a desvairada idéia. No intuito de uma auto proteção, ou talvez numa insuficiência de se encontrar um culpado específico, o homem entrou em greve de vida. A todo tempo gritava aos céus por uma melhora na qualidade da existência, numa esperança incoerente de que Deus, ou algum anjo, estava a ouvir e assim fizesse, como numa negociação entre empresário e operário. A situação que o homem deixou chegar ao mundo era tamanha horrenda, que poucos ateus restaram, e estes próprios foram se deixando levar aos poucos pelo desespero. Começou com um corte na higiene: era proibido o uso de água para se banhar. Assim durou por meses. Os homens, ao verem a indiferença do Empresário Divino, resolveram, então, por consenso, proibir o uso da alimentação como fonte de vida. E foram vivendo de água até vedarem o seu uso também. É claro que muitos faleceram logo e se foram. E era esta a estratégia. Achavam que a morte geral iria pôr a população em extinção, e assim o Empresário Divino iria então ceder aos pedidos de “mais igualdade, menos desgraças, mais felicidade, menos pobreza, mais honestidade, menos poluição, mais paz, menos violência, melhoria na educação, o fim da corrupção e do vício...” Eram tantos os pedidos, que é óbvio imaginar a variedade. Acontecia de uns, como sempre egoístas, extrapolarem nas exigências de negociação. Ouvia-se desses: “casa melhor; aumento do salário; colchão mais macio; aprender a nadar; o fim do ronco; gripes mais fracas, estabelecendo um novo limite máximo para as febres, que só iriam até os trinta e oito graus; fim da miopia...” Passando-se os meses, alguns decididos já se suicidavam na certeza da morte próxima. Outros resistiam, suportados somente pela esperança de seus pedidos serem aceitos. Foi um momento raro em que todos os bichos homens estavam reunidos por um único ideal. Não durou muito até que a raça humana estivesse em aniquilamento, e logo depois extinta.

      Não sobrara ninguém. A não ser pelos bichos animais, que passaram durante este tempo na mesma simplicidade de enfrentar a vida.

      Aí, então, todas as exigências finalmente foram cumpridas: sem violência, mais paz, o fim da corrupção, do vício, das desgraças... Lamentavelmente não havia restado um humano para perceber que o Empresário Divino sempre fora justo e não os havia decepcionado: demorado de ceder aos pedidos, porém assim tinha feito. Talvez um pouco tarde demais... Antes tarde do que nunca!
Calor do cão
Enviado por Calor do cão em 01/07/2008
Código do texto: T1059334

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Sobre o autor
Calor do cão
Salvador - Bahia - Brasil, 30 anos
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