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Viagens sob o signo do sol



Sol alto na manhã. Calor. O suor resvalava pela face.Cruzava o pescoço.Juntava-se ao charco que se tornara seu peito.O digital próximo ao porto apontava 40 graus.Rio de Janeiro.Pleno estio.

O táxi imprimia grande velocidade. Sorte ser domingo.Vias urbanas quase despovoadas.Nenhum sinal de fiscalização.Nervoso, ele clamou ao motorista :

- Mais rápido, meu avião sai ao meio-dia. E o Galeão está longe.

Cruzou a avenida margeando o  porto num relance. Ao longe, a Ilha Fiscal se recortava contra o horizonte de um azul irreal. Mais velocidade. O ponteiro já sinalizava 120 km/h.
Deixou para trás o porto.Surgia a sua frente a Av. Brasil. Logo a percorreu. Estava entrando na Linha Vermelha. Voltou a falar ao motorista :

- Cara, sinto te fazer correr, mas deu problema na saída do hotel e me atrasei
- Não esquenta, mermão, a gente chega lá tranqüilo.

Agora, já estava em plena Linha Vermelha, o odor da Baía da Guanabara entrava por suas narinas.
Uma fragrância de coisa podre, empestada. A face pouco glamurosa do Rio. Na outra margem, a Favela da Maré. Felizmente, os bandidos ainda estavam dormindo. Fim-de-semana , sempre é de muito trabalho. Conseguiu chegar à Ilha do Governador. Já divisava a estrada que conduzia ao aeroporto. O coração acelerava , descompassado. Falou entredentes ao condutor :

- Vamos conseguir, caralho, vamos chegar a tempo.
- Falei chefia, eu sou braço na direção.

Como um asteróide cruzou a ala dos vôos internacionais.Mal conseguiu distinguir alguns aviões da American Airlines, ao fundo.Quando voltou a cabeça, já tinham alcançado à área doméstica.Galeão, finalmente. Ou, melhor, Tom Jobim.Infelizmente, o criador de Garota de Ipanema não tinha emplacado este sucesso.Pelo menos, no aeroporto, que na boca do povo atendia pelo velho nome.

- Muito obrigado, cara. Você chegou a tempo.
- Eu sou o cara, mermão. Deixa uns trinta e cinco reais pela viagem.
- Não dá pra ser trinta?
- Trinta e cinco.Vou ter que voltar sem passageiro até o ponto.
- Certo. Valeu , um abraço.
- Outro.

Pegou sua bagagem. À direita, enfileiravam-se carrinhos de transporte. Pegou um e acomodou seus volumes. Deu um sorriso e um suspiro aliviados. Adentrou o paraíso de ar condicionado. Já não suava quase. Apenas, esfregava um guardanapo feito lenço improvisado no rosto. Consultou suas axilas. Tudo em ordem. Passou a mão nos cabelos.
A passos calmos, caminhou pela área de embarque.
Lojas e lojinhas vendendo souvenires. Típicos artigos para gringos. Camisetas do Vasco e do Flamengo.Réplicas do Cristo Redentor. Pratos envernizados.Papagaios e araras em cores escandalosamente cafonas. Seguiu adiante. Queria tomar um café. Depois faria o check-in.

Bebeu um carioquinha. Nome local para o café com uma porção generosa de água, tirando o gosto forte. Pegou suas bagagens, de novo. Dirigiu-se ao local do check-in de sua companhia.

- Olá, vôo para Porto Alegre.
- Olá, pode colocar as bagagens para pesar.
- Dezoito quilos.
- Beleza, então não pago excesso de peso.
- Tranqüilo. O embarque é no portão C, daqui a 30 minutos.

Resolveu dar uma circulada pelo aeroporto. Uma voz feminina chamava os embarques mais próximos. Era uma voz bonita, agradável. Sensual.

- Passageiros do vôo Gol com destino à Belém, dirija-se ao portão D.

A mulher exagerava na languidez. Quase sussurrava as palavras. Imaginou uma loura curvilínea.Seios e pernas opulentas. Lábios carnudos. Batom agressivamente vermelho.

- Senhores passageiros queiram dirigir-se ao portão F. Ponte aérea para São Paulo.

Aquela voz macia. Encantadora. Quem sabe, a mulher de seus desejos. A fêmea lasciva e disponível. Não podia frear sua imaginação.Que, neste instante, atropelava a racionalidade. Precisava conhecê-la. Perguntou a um rapaz que limpava o chão.

- Gostaria de uma informação. Como poderia falar com esta senhora que faz a locução dos informes de vôos.
- O senhor segue adiante. Atravessa aquela área da INFRAERO e bate na porta onde está escrito : Informações
- Muito obrigado

Apressou o passo. Seu coração percutia assustadoramente. Cruzou a área reservada. Já estava chegando à porta indicada. Bateu, de leve. Três pancadinhas. Uma mulher abriu e pediu para ele aguardar um segundo. Ele ,então, fitou o objeto de seu desejo. Uma senhora balzaquiana com maquiagem borrada e rugas em profusão. Levemente gordinha com o cabelo pintado onde se sobressaiam as raízes brancas. Quase caiu para trás , quando ela apossou-se do microfone e falou :

- Vôo para Porto Alegre. O avião já está na pista. Aguarda ordem para decolar.
- O que o senhor deseja, disse ela virando-se ?
- Deixa pra lá.Eu só queria saber onde era o banheiro...






Ricardo Mainieri
Enviado por Ricardo Mainieri em 12/04/2005
Código do texto: T10896
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Sobre o autor
Ricardo Mainieri
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 59 anos
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1 e-livros (110 leituras)
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Ricardo Mainieri