Às vezes pensava que fosse uma questão de merecimento e, em sua comprometida auto-avaliação, não merecia.

 

Condenava-se quando vinha a irresistível sensação de que tal ventura não fosse para ela.

 

Ao mesmo tempo, invejava quem a alcançasse.

 

Lembrava-se de quando pensou no assunto pela primeira vez.

 

Era muito jovem!

 

Engolida pelo tempo, somente esse anseio não mudou.

 

Sonhava com isso, todos os dias.

 

Jamais perdia uma oportunidade de falar do assunto com amigos e parentes.

 

Aprendeu truques com poder de atrair para si, o  objeto do desejo.

 

Tentava provocar o acontecimento, mas sentia culpa, declarando a si mesma:

 

- Assim não vale!

 

Negociava com Deus.

 

Fazia promessas e penitências.

 

Aconselhada, acabou na terapia para livrar-se da obsessão.

 

O terapeuta cutucava, mas com ele não conseguia falar sobre o tema.

 

Deitada no divã, falava de tudo um pouco.

 

Algum tempo depois cismou que o médico sequer a ouvia.

 

Notou incomodada que, estivesse até no meio de uma frase, ou no meio de um silêncio revelador, ele encerrava a sessão, devidamente faturada.

 

Lá fora outro paciente já esperava.

 

Concluiu que desejos muito intensos não se realizam, se compartilhados.

 

Abandonou a terapia.

 

E nunca mais falou com ninguém.

 

Bom esse terapeuta não?