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O Espinho da Rosa


Ela bate a minha porta, entra, puxa uma cadeira, cruza as pernas, ascende o cigarro, é o começo do fim. Ela não quer papo, ela quer amor. Ela quer a fúria contida entre braços e gemidos, e eu... Eu quero paz. Quero o aconchego de um cafuné de um sábado de tarde. Não terei qualquer paz dela, apenas a guerra.
Seus lábios pronunciam palavras que não sei traduzir, é outra linguagem, é aquela língua que entre mulheres tornassem comunicação efetiva, e para nós, homens, são incompreensíveis. Há mensagens sobre amor e casamentos. Mas não é o mesmo tipo de amor e compromisso que busco. Ela descruza as pernas, se aproxima de mim, rosto com rosto, sussurros ao ouvido e um beijo na boca. Agora, não resta dúvida, o fim está começando.
O sexo é só sexo. Não há “fazer amor”, não há “trocar carinho”, é animal, puro instinto. Unhas nas costas, mordidas nos lábios, gritos e mesa quebrada. Por longos 30 minutos, o prazer prevalece sobre a dúvida; o que de fato ela quer comigo?!
Então o gozo. O fim.
Outro cigarro. Fumaças atrapalham a visão. Não enxergo o que ela quer, mas ela sim, ela enxerga tudo. Aproveita-se. Usurpa-se de meu nome. Meu nome é desejo. Meu nome é amor.
Confessa, enquanto reveste suas roupas, que seu o marido precisa ser morto. Que ela é uma flor em um meu jardim e ele, o “ele”, é o solo infértil que não produz frutos e precisa ser rançado antes que contamine todas as rosas. Que rosa é ela? Fatal? indolor? Ouvi dizer que toda rosa tem espinho, como se cheira uma sem se ferir?
Eu digo que é absurdo. Não sou assassino. Sou amor. Sou desejo. Sou o intento básico de um poeta ferido. Ela questiona isso. Questiona o quão longe posso ir por ela. Juro o fogo na mão. A ferida no peito. O horror dos olhos. Mas não juro assassinato. Há uma moral que invade minha consciência e impede que atos por paixão, acometam crimes contra humanidade.
Ela então bate a porta. Agora é a aflição. Aflição é o segundo caminho para o fim. A guerra começa com aflição. É o incomodo presente no quarto, enquanto ajusto a mesa do trabalho, coço o arranhão em minhas costas, penteio o cabelo. É isso que incomoda. O vazio. O fim. É a sensação de quando acaba a montanha russa. Você não terá aquela adrenalina novamente.
Então eu ligo.
Eu ligo.
Cedo a tentação. Esqueço moral. Esqueço meu nome. Sou dela. Estou no jogo. Agora é para perder. Ela planeja tudo. A língua que eu não sei falar. Só obedeço. Ela fala que não passará de vinte minutos dentro da casa dela, e minha cabeça fala que serão 20 anos na penitenciaria.
O crime ocorre. Piscina vermelha entre quatro paredes. Eu vejo os olhos dele. Não são tão diferentes do meu. É o olho da dor. A visão de quem tentou pegar uma rosa e se feriu com o espinho. O que foi que eu fiz?!
Não há mais como retroceder. Ela me dominou. A pergunta é; quanto tempo terei, até que o espinho me mate?
Tenho que reagir. Tenho que sobreviver. A solução não é só rançar a raiz podre do solo infértil, mas também a falsa rosa indolor.
Eu a mato.
Limpo tudo o que me conecta a essa casa. Fita de segurança. Impressões digitais. E deixo o casal morto no quarto. Dois casais em uma piscina suja de sangue.
Duas semanas depois, a polícia bate em minha porta. O frio no estomago. Como eles podem saber? Questionam o meu envolvimento com a falecida Rosa. Digo que nunca ouvi falar. Eles mostram fotos de nossos encontros. E confessam que o bebê dentro dela não era do marido. Bebê? Ela estava grávida. O quão hediondo sou? Não só matei a rosa, como também, o fruto que ela germinou para mim. Choro. A lágrima entrega tudo.
Minha mente tinha razão. Serão longos 20 anos na penitenciaria.

 
 
Maycon Batestin
Enviado por Maycon Batestin em 21/06/2009
Código do texto: T1659735
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre o autor
Maycon Batestin
São Paulo - São Paulo - Brasil, 35 anos
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3 e-livros (212 leituras)
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Maycon Batestin