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DOS CONTOS DO VILAREJO-"Letícia e seus filhos"

LETÍCIA E SEUS FILHOS
          eram oito os que estavam deitados no chão da pequena tapera coberta de palha.  lagartixas corriam de ponta a ponta nas paredes perseguindo moscas, muriçocas e persevejos, nas rachaduras das fasquias de taipa.  Pendurada no teto, uma lamparina queimando querosene; fora, no terreiro, (atrás da casa), uma trempe e sobre ela, uma lata preta, no fogo, fervendo o café com rapadura.  Dando susto, (passadas largas espalhando o vento), contornava a vereda alcançando o portal da casa, um andarilho (voz de pigarro), falou para dentro:
         - Oi de casa...
         reinava calma, nenhum movimento que denunciasse a presença de alguém em casa, novamente insistiu:
          - Tem alguém aí?
          Da minúscula sala, apenas uma voz respondeu, vindo de encontro ao portal; era Letícia, a responsável pelos erros e acertos da família.
          - É aqui que mora o seu Otávio- perguntou o andarilho!
            Letícia com espanto dialogou:
           - Queira me desculpar, mas o que é que você quer com ele?
           - Eu venho a mando do Juiz, cumprindo uma obrigação social e trago um papel que só a ele cumpre ler e assinar.
         - Então espere aí disse Letícia ausentando-se.
          Na janela à direita da porta surgiu Otávio; este estendendo a mão para o mensageiro, pegou e assinou o papel sem ler, devolvendo em seguida o recibo.
          Até logo... fique em paz, com Deus disse o estranho retornando pelo mesmo caminho, já ao sol posto.
           Otávio abrindo o envelope, viu tratar-se realmente do que ele já esperava: Uma solicitação do seu comparecimento à  delegacia, com a finalidade de prestar depoimento sobre a morte do Sargento Delegado, da qual participara.  Por momentos gerou-se um burburinho, seguido das lamentações de Letícia:
           - Se você ligasse para conselho de mãe, estava livre disso que não se sabe em que vai dar; procure o compadre Raimundo que ele não deixa acontecer nada e eu vou rezar muito pra isso não terminar mal para nós!"  Otávio mostrou menos preocupação do que sua mãe, no caso.

           Letícia tinha seis filhas solteironas, uma viúva e Otávio o mais velho de todos.  De porte desenvolvido, estatura média, aparentando quarenta anos, conversando desembaraçadamente, - grande desbravador das capoeiras, ao açoite de fortes estiagens.
             Letícia sentava-se ao engenho da manhã ao anoitecer preparando fio para Zelma a tecelona, que os transformava em redes, cobertores e toalhas, encarregando a Zilca de vendê-los na fazenda ou no Vilarejo, acompanhada de Zefa, a chapeleira, oferecendo produtos, tais como: chapéus, abanos, esteiras e surrões de palha de carnaúba, inclusive, fios para tecer rede de tucum.
               Zara, a filha mais velha, enviuvou um ano e meio após o casamento com Rufino que contraindo hanseníaseveio a falecer no meio do mato, entre as cobras e os insetos, completamente abandonado e coberto de feridas, em estado de decomposição, roído pelos vermes, pastoreado pelos urubus que revoavam a palhoça.  Constatada a sua morte foi queimado pela vizinhança que o observava de longe.
          Zara tornou-se parteira, tendo como primeiro rebento, seu próprio filho, nascido de sete meses a caminho de Garapê, cidade para onde se dirigia, com a finalidade de pagar uma promessa, viajando na carroceria de um caminhão, que ao capotar matou Jordão seu pai.  Sozinha debaixo de uma moita de mufumbo, à beira da estrada, deu à luz  uma criança já quase sem vida, tendo que enterra-la ali mesmo, onde foram também sepultados os mais de vinte que morreram no acidente.  A partir desse momento, abraçou a carreira sensível de pegar os filhos das outras mulheres, como parteira, sob a orientação  de Eufrásia, amiga de sua mãe, incumbida de aperfeiçoar-lhe os dotes e introduzi-la no ambiente, como profissional.
             Zoraia, respeitável vidente, lia a mão, adivinhava o pensamento, previa o futuro, influenciava sobremaneira, o comportamento dos casais apaixonados de Vilarejo. Tinha  ligações espirituais com os mandingueiros de Garanhão, de vez em quando, viajando para lá.
              Zilá, a beata, dedicava-se às causas religiosas; cuidava da capela da fazenda e atendia as necessidades da igreja de Vilarejo, colaborando na organização das festas e tomando para si a obrigação de passar a sacolinha na hora do Ofertório da Missa.
              Zilda, a carpideira, ocupava-se com os mortos: puxava os cantos nos velórios; dava banho nos defuntos, costurava e vestia-lhes a mortalha.
              Letícia era grande amiga de Eufrásia, a ressuscitada que morreu três vezes e ressuscitou duas.  Esta exercia o curandeirismo; rezava para curar: unheiro, panarício, espinhela caída, erisipela, mordida de piolho-de-cobra, moleira caída e bicheira.  Antes de morrer pela segunda vez, curou uma erisipela na perna de Jordão marido de Letícia seu xodó particular conforme delineavam as línguas ferinas, alcovitados pela própria filha  Zilca, intencionada de unir Letícia a Raimundo, fazendeiro das terras em que moravam. Esta juntando-se a Zoraia( por não conseguirem atrair o amor de Jordão para Eufrásia), as duas premeditaram mata-la , fundindo seus feitiços às rezas, ainda assim, deixaram de surtir os efeitos desejados, levando Eufrásia apenas a um alto grau de emoção que tristemente desambicionada, teve um desmaio sendo novamente considerada  morta, ressuscitou três horas após,  causando desconforto a Zoraia acusada de planejar o seu desaparecimento.Daí por diante Eufrásia entrou em progressiva decadência física secando uma banda do corpo que já era muito frágil. Consequentemente, acometida de "sezão", deu-se o seu desaparecimento definitivo.  Logo após sua morte por ideia de Jordão foi aberto um profundo buraco no qual, enfiaram-na, socando a terra rente com as folhas, impedindo assim, um outro ressuscitamento. -Diz-se que ainda hoje, ao escurecer, escuta-se gemidos vindo da sua cova no cemitério da fazenda. Letícia mandou rezar missa em sufrágio de sua alma, juntamente com Zilá, a bisbilhoteira pombo correio dos filhos do patrão, no leva-e-traz dos recados e estórias não confiáveis. Tem costume de percorrer as ruas de Vilarejo distribuindo umas mentiras e recolhendo outras, considerada a maior fonte de notícias da redondeza; fofoqueira e língua de trapo; articuladora de conflitos, constantemente, causadora de danos irreparáveis à sociedade.
Zecar
Enviado por Zecar em 23/05/2005
Reeditado em 24/06/2016
Código do texto: T19039
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
Zecar
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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