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O Andarilho - Dia 02

Ele sentiu que havia despertado. Percebeu um leve cheiro de couro no ar. Mesmo com os olhos fechados, sentia o ambiente girar e uma pressão forte na nuca.

Não levantei em vão. Não caminhei por nada. A cada passo que... Antes de terminar com a oração, seu corpo fora fortemente sacudido. Sua cabeça acertou algo duro e metálico, lhe obrigando a abrir os olhos e interromper o rito momentaneamente. Ele pegou uma pequena faca presa ao calcanhar, e espetou sua ponta no pescoço do motorista que conduzia a caminhonete, onde antes estava deitado no banco detrás.

Pare essa máquina infeliz! Pare essa maldita máquina se quiser seguir em frente com a tua vida.

Depois de ter parado às pressas, furado um pneu e explicado ao andarilho, que havia lhe encontrado na estrada, na noite passada, quase desmaiando e falando coisas sem sentido, eles estabeleceram uma breve amizade ao cair da tarde.

Eu nunca pensei que essas coisas existissem de verdade. Apesar de vê-las cruzarem as estradas, sempre achei que fossem delírios, frutos de minha imaginação Disse o andarilho.

Então nunca havia andado num desses?

Não.

É uma coisa difícil de se acreditar. Disse o velho ajeitando a lona que cobria a traseira da caminhonete.

Onde posso arrumar água quente e um punhado de sal?

A água eu posso até lhe arrumar, pois o radiador ainda deve estar quase cheio. Mas sal? De onde eu venho não sobrou nada. Nem mesmo pra mim. Quem sabe um pouco mais adiante, se a cidade ainda estiver por lá.

Radiador?

É... Fica dentro da máquina. Geralmente eu uso essa água para fazer café durante as viagens. Mas pra quê água quente?

Não é da sua conta. Mas se puder me servir de um pouco desse radiador, lhe desculparia por ter me tirado da estrada.

Tudo bem.

Ele ficou em silêncio. Acompanhou com os olhos cada movimento daquele velho homem. Alguma coisa nele não lhe cheirava bem. Depois de muito esforço, à água quente. O velho lhe serviu em uma generosa caneca de ágata.

O que carrega aí atrás? Pergunta o andarilho.

Não é da sua conta.

Claro. Ele ergue a caneca em sinal de respeito e derrama a água quente de uma única vez pela garganta.

Parados sobre o acostamento, eles se ajeitam para seguirem em frente. Não dizem mais uma palavra. Mochila arrumada, pneu trocado. Eles se despedem apenas com um olhar. Nele, a desconfiança, o medo, e a certeza de que ainda vão se reencontrar.

Ele liga a caminhonete e acelera para testar o motor. Engata sua marcha de força, e ao sair do acostamento, trepida a carroceria de madeira, fazendo cair sobre uma ponta do asfalto, algo muito familiar ao andarilho: um grande punhado de sal. Ele o cata desesperado e enche seu pequeno saco de couro. Risca uma cruz sobre o local da queda e com sua faca ainda em punho grita para a escuridão: Mercenário. Ladrão de almas. Tua sorte é que não caminho à noite. Mas o dia não tarda em chegar, e você agora é mais um motivo para eu continuar. Vou te encontrar como encontrei os outros. Então, devolveras o sal que não te pertence.

Com o corpo ainda de pé, me retiro da estrada. Não me leve contigo essa noite, pois longa é a minha jornada... Salmaré.


Leia todos os dias do Andarilho e acompanhe esta saga surpreendente...
Frei Antonio Silva
Enviado por Frei Antonio Silva em 17/06/2005
Reeditado em 02/08/2005
Código do texto: T25336
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Sobre o autor
Frei Antonio Silva
Areal - Rio de Janeiro - Brasil, 76 anos
11 textos (471 leituras)
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Frei Antonio Silva