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O problema de Sebastião pt. IV

Pois foi o afoito Sebastião alegrado falar com uma costureira.

-Cara senhora amiga minha, trago a ti uma proposta de trabalho, creio eu, irrecusável, pois assim, enfim, observando as teias nesta tua velha máquina enferrujada de tecer e costurar, terás, após tempos inerte, uma coisa que gostas a fazer.

        -Claro, nobre cavalheiro. Porém, de tantos anos vividos, reconheço, somente e só, pelo teu odor o poder de tua lábia traquina. Falaste bonito para impressionar, para que com tua delicadeza e nobreza com as letras faladas me fizesse esquecer da questão de mais valia. Sabes tu que sem dinheiro nada somos, e assim não te ouvi citares, uma vez sequer, em pagamento nas tantas palavras bonitas. E se por acaso tu citaste, fale com mais clareza para que fique mais percebível esta palavra que tanto me arrepia.

-Ora, é justo o teu pagamento, mas não me julgues mal, pois se te falei de trabalho imaginei que não seria necessário falar em dinheiro, já que todo bom trabalhador já subentende. Peço-te desculpa pela minha falha e já que tal inconveniente tenha se resolvido com felicidade, espero de ti e desse trabalho o máximo de eficiência e velocidade.

-Pois já fui muito enganada, em tempos de outrora, por palavras como as tuas e foi com a vivência que aprendi a ser esperta. Tu só terás de mim o teu apressado trabalho se primeiro dares o dinheiro em número de dez moedas de ouro muito bem contadas.

“Esta velha caduca desonrosa pensa que tudo sabe! Está tão vaga de serviço e ainda faz exigências nos poucos detalhes...”.

-É justa a tua fala, senhora minha amiga, pois se estivesse eu em teu lugar também reagiria de tal honesta maneira. Mais justa não há. Espere-me aí com este serviço já dito como arranjado, pois hei somente de ir ali, em busca do dinheiro que ganho com tanto suor.

E foi Sebastião pedir as moedas de ouro emprestadas a um velho companheiro de vida que dele já estava meio afastado.

-Eis aqui senhora costureira: dez moedas de ouro das mais novas que eu tinha. Separei-as para te dar por tua honestidade prestada e, claro, pelo teu serviço a prestar.
   
-Que bom senhor cavalheiro! Dá-me aqui estas moedas e me diz o serviço, que de todas as costureiras deste lugar, sou a mais rápida.

-Pois bem, minha cara. Quero do teu serviço uma roupa angelical da mais bonita que conseguires criar, para que eu pareça o anjo mais bem admirado que neste universo já existiu. Espero de ti o máximo de rapidez e fidelidade às vestimentas dos anjos que já viste. Por favor, o mais rápido que puderes.

-Não te preocupes, senhor de respeito em tão belas palavras que me comovem! Só preciso tirar tuas nobres medidas e assim só respirarei quando o trabalho terminar.

Assim se fez.


       


        ***

Em não mais que uma hora a vestimenta já estava completa. Ao mostrar a Sebastião, o tal se sentiu um pouco decepcionado pelo resultado, pois esperava muito mais da velha, por conta de suas imaginações exageradas.

-Muito bem senhora costureira, tu terminaste o serviço com prontidão e rapidez como prometido, mas creio que esta vestimenta não valha nem quatro moedas de ouro, se não de prata. O branco é muito acinzentado pela sujeira e poeira acumuladas. Para minhas medidas, sinto que está um tanto larga, o que me faz crer que não sabes tomar medidas exatas. Por fim: está mais para uma roupa do mais horrendo animal que aqui habitar!

-Ora, seu imundo mal agradecido! Em tão pouco tempo fora o melhor que pude fazer, ou tua perceptível ignorância esperava por um milagre? O branco é o mais limpo que aqui eu tinha, são, pois, teus olhos que estão sujos e aleijados por estas remelas inchadas. Enquanto às medidas, sei tirar sem erro algum com perfeição, porém teu corpo é por demais desalinhado, então, mesmo na mais perfeita medida, nunca uma roupa se ajustaria ao teu físico desafinado. E por fim: se não sabes, és tu o animal mais horrendo que aqui habita! Ora, meu serviço está feito. Já fui justamente paga, e peço que te retires logo daqui, pois tua presença já me incomoda.

-Certo, velha. Mas tu sabes que foste injusta. Disseste isso, mas no coração sabes que eu tenho a razão. Sairei daqui, não por que tu mandaste, mas porque procuro evitar complicações e tenho muita pressa, ainda mais por tua idade, que já não suporta mais este tipo de experiência. Digo-te somente mais uma coisa: esta vestimenta é de muita importância para mim e se algo der errado, de repente, por causa desta, virei aqui cobrar de ti!

Foi-se, o desconsolado servo, embora dali. Irritado, descansou por uns minutos para seu humor melhorar e se adiantou para o céu o mais rápido que pode, lembrando-se que tinha somente dois dias para completar o objetivo.

   
         ***

Encontrando-se na saída do inferno veio à cabeça do servo um terrível dilema. Não chegaria tão cedo ao céu se estivesse a pé, como estava. O transporte mais rápido e eficiente que havia nas terras do Inferno era o Táxi, porém não tinha Sebastião uma só moeda de ouro. Lembrou-se então de um conhecido taxista a quem havia emprestado certa vez umas moedas de ouro, e foi a ele lembrar do acontecido e exigir a troca de favores. Depois do servo tanto insistir, de irritado e entediado que estava o taxista, este resolveu levar-lo pela metade do preço. Sebastião aceitou, porém dissera que só teria como pagar quando voltasse de viagem, pois ia ao céu justamente atrás de serviço, já que no Inferno o trabalho estava tão escasso. Sentindo-se convencido pela intensidade verdadeira posta nas palavras do servo, o taxista o levou. Por ser demais gordo, demorou alguns minutos para conseguir se ajustar no velho automóvel enferrujado, no que irritou muito Sebastião pela demora. O táxi doente ainda somou mais uns minutos de espera para conseguir ligar com vivacidade e se foi tossindo por toda estrada. Ainda no meio do caminho, além do pesado motorista impedir que rápido o carro andasse, o tal morreu com uma tosse escarrada e foi preciso que Sebastião mais uns andantes bondosos que ali passavam o táxi empurrassem, para assim novamente este tornar a funcionar.
Surpreendendo o servo, chegaram com sucesso e vivos no "Reino dos Céus", como mostrava a placa posta na fronteira, antes do dia findar. Desejou Sebastião uma ótima sorte ao taxista na viagem de volta e que o esperasse lá, que logo, nos próximos dias, estaria com o pagamento pela metade, como haviam conversado.

(Continua na parte V, que irá continuar na parte VI, e na parte VII e talvez acabe na parte VIII (mas duvido, ou não...)...)
Calor do cão
Enviado por Calor do cão em 29/01/2007
Reeditado em 29/01/2007
Código do texto: T362650

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Sobre o autor
Calor do cão
Salvador - Bahia - Brasil, 31 anos
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