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ATROP (*)

Arranhou-o a fechadura, mas a porta se abriu:
- Não, gritava a voz louca!
- Não, gritava a voz rouca!
- Não, gritava muda!  Esse caminho não!
Mas, Atrop, de olhos arregalados e uma curiosidade permeável à razão, não deu atenção e prosseguiu...  A cada passo o passado se apaga e o pequeno se torna apenas um momento em movimento.
Não há escolha!
- Você não tem escolha, nunca houve escolha!
E, de fora olha para o dentro e num piscar de olhos escapa-lhe também a sanidade.  Trêmulo vê então o não visto: o início e o fim mesclando-se no mesmo copo, num mesmo corpo.  Gerações paridas por úteros estéreis, formando uma massa incolor e insípida de cheiro ocre;  passos inúteis que não levam a lugar nenhum; a dor que já não se sente por não se ter semente; a mente que mente.
Atrop caminha entre eles coletando estrelas cadentes em bolsa rota, não sabendo se ainda é cedo ou se já é tarde... mas a tarde arde e, então, com os demais se senta à mesa para esperar nunca mais ter que esperar.  Vestidos de normais discutem quais os fins, sem saber ainda quais os meios.
Sobressai o silêncio e o pequeno amendronta-se.  A alma faz então discursos sobre heróis, mas, Atrop não se reconhece neles.  Ele tem medo de ter medo, entretanto, teme também não tê-lo.
Sem coragem guarda sonhos afoitos quando vê na parede um homem na cruz. Então, a fé vira calo, vai para o ralo e na parede vazia reflete-se a luz!
O tempo enduresse a massa...
O tempo emudece o tempo e nesse lento falecimento se vê de carne e osso e tenta apalpar um além, mas volta de mãos vazias.  Sorri para si num confortar desconfortável, sem saber se sempre foi ou se o é agora e, adormecendo, percebe que já esteve acordado num mundo onde o acordar é crime.
O espaço aperta, a coerência se esconde, lembra e se esquece.
Caminha para trás!
___________________
(*) este é o roteiro de um "curta" filmado por Fabíola Carvalho, baseado em conto de minha autoria chamado Atrop.
Flávia Martin
Enviado por Flávia Martin em 09/02/2007
Reeditado em 09/02/2007
Código do texto: T375124

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Sobre a autora
Flávia Martin
Botucatu - São Paulo - Brasil, 47 anos
294 textos (7949 leituras)
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Flávia Martin