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Uma Estória das Antigas.

Tratava-se de um cavalheiro Ibérico, um lusitano para ser mais exato, caucasiano, barbas negras levemente pintalgadas com a neve da idade, trabalhador e com sua  posição definida na comunidade e na vida de um modo geral. Esposa também lusitana, cabelos bem pretos e sempre arrumados ao alto do crânio, levemente arredondada nas ancas e bochechas sempre róseas, que combinavam com os olhos verdes. Os rebentos de bela figura, ora se pareciam com a mão com traços do pai, ora o inverso, mas com certeza umas belezuras.
 Moradia própria.  economicamente estabelecido e freqüentador semanal da igreja, convidava o padre regularmente aos rega-bofes dominicais em sua residência, orgulho da prendada esposa com seus ricos bordados diretamente da Ilha da Madeira, cortinas nas janelas, tapetes de muito bom gosto, castiçais de prata e repasto feito pelas próprias mãos. Era mesmo um mimo de casinha! Salas agradáveis com lareiras em mármore, sem serem suntuosas, quartos suficientes para moçoilos e moçoilas da casa alem do casal e um para os hóspedes. E a cozinha? Ah! Esta era sem dúvida o orgulho da matrona, caçarolas sempre brilhosas cada qual em seu local e serventia, louça decorada, herança da avó, copos de uso, copos de pé, cálices, taças todos de cristal e talheres de prata que pareciam os raios de Selena nos cravos do jardim, com seu brilho seco e argentino. Eram o casal perfeito, com uma família perfeita e uma vida perfeitamente regular: acordar todo dia a mesma hora, enquanto um se aprontava o outro fazia a merenda para o meio-dia, café na mesa, família reunida, as mesmas conversas, os mesmos assuntos, as mesmas pessoas e o mesmo beijo roçado nos lábios ao se retirar ao caminho da faina. Quase esqueço, o mesmo cálice de Porto para dar sustança ao sangue.
 E exatamente nisto tudo, em toda esta perfeição estava o perigo! Nosso metódico amigo e comerciante de artigos da “terrinha” era também um artista, diletante é bem verdade, mas detentor de belos escritos cheios daquela nostalgia característica da velha Europa, aliás não é a toa que nostalgia é palavra exclusiva  da língua de Camões, porem incompreendido pela companheira de tantos invernos, que os achava belos mas sem maior valor literário (engano fatal), os filhos estes não compreendiam bem o que ouviam nos sarais familiares, afinal não se coadunava muito com seu gosto jovem e mais exaltado adquirido pela TV. Quanto aos amigos, bem os amigos sabiam de produtos e épocas de produção; de quando comprar e para quem vender; dos campeonatos  e dos times do coração e até das raparigas que podiam proporcionar bons prazeres, mas de poesia, de sentimentos mais altos, eram meio ignorantes e nem se interessavam em deixar de ser. Há finalidade? A vida é tão boa assim! Vai-se lá gastar a mente nestas coisas de maricas e desocupados. Nosso poeta continuava seu caminho solitário, cultivado no silêncio das noites sob o ressonar pesado da esposa após mais um dia da faina doméstica, olhando as estrelas, a lua e até as nuvens pesadas do inverno como inspiração e não sem certa tristeza expressa e estilada nos versos, na poesia e nas trovas que saiam de sua Montblanc de ouro. Assim seguia a vida em sua poesia e o poeta em sua vida rotineira.
 Os deuses são justos, mesmo tendo se mudado do Olimpo faz tempo, não deixaram de zelar por nós e as musas não se  contentam com papel secundário quando se trata de criação, vendo tudo aquilo, resolveram lá em sua sabedoria merecer nosso poeta de inspiração mais luminosa, que as estrelas do céu, mais cálida que a lua cheia e menos ameaçadora que as nuvens invernais e, o que fizeram? Colocaram uma mulata, daquelas diretamente importada dos trópicos, com cor de chocolate ao leite bem medidos os dois, aquele calor que emana da pele por todos os poros juntamente com um cheiro de sensualidade (só sentido por narizes especiais), que só a verdadeira mestiçagem dá, cinturinha de vespa mas o resto de abelha (menos o ferrão), sorriso branco e faceiro com mil promessas entrevistas (e sempre cumpridas) e aqueles olhos negros, alegres, brejeiros, cheios de um brilho, que só pode ser descrito por quem os tem a sua frente, bem no caminho do poeta, assim cara a cara, foi amor a primeira vista. Verdadeira revolução nas tripas, fraqueza das pernas (e a merenda tinha sido reforçada), uma zoeira nos ouvidos seguida  de uma tal taquicardia, que parecia prenuncio de enfarte fulminante, mas não foi! Bem, até que foi, mas não aquele do miocárdio, foi enfarte de vida, explosão anunciada de uma rotina, devido ao entupimento das artérias do cotidiano pelo hábito e a não mais aceitação daquele pouco oxigênio humano pelo cérebro.
 A bem da verdade tenho que dizer aqui, ter sido energias trocadas, afinal a gaja olhando aquele homem de olhos tristes em seus cilíos negros e longos, boca apertada mas ávida, nariz comprido sobre um bigode farto e bem aparado com suas vestes de boa qualidade mas em certo desalinho, sentiu uma aceleração no peito farto e rijo, a qual nada tinha a ver com a pressa que andava em seus saltos e . . . não resistiu uma espiadinha para trás. Lá estava ele como que plantado no passeio olhando, não com aquele olhar de cobiça, mas de uma forma diferente, inexplicavelmente doce, carente e ao mesmo tempo curiosa, ansiosa, aqueles olhos tinham mudado em apenas três passos do cinza tristonho ao castanho luminoso. Ela parou, virou-se e em toda sua ousadia perguntou – nos conhecemos? – o não saiu meio trôpego, mas saiu, sendo logo remedado por um – creio que não, mas gostaria imenso de conhecê-la – conversa cretina, mas em outras bocas, naquela lhe pareceu bem atraente, seria seu tom respeitoso? Ou o jeito daquele olhar, ao mesmo tempo  guloso mas demonstrando uma admiração genuína? Não dava para pensar, fosse lá o que fosse aquele homem lhe agradou, sentia que havia algo ali que estava bem ao alcance de todos e ao mesmo tempo de uma raridade impar.
- Bom estou atrasada.
- Então permita que a acompanhe.
- Mas o senhor não ia pra lá?
- Estava distraído, minha direção é esta tua mesmo.
- Então vamos estou atrasada.
 E lá seguiram os dois como se já se conhecessem, a conversa fluía com uma facilidade de assuntos, uns sérios, outros jocosos, que produziam sorrisos nos dois e caminhavam e conversavam e se olhavam e não viam mais nada a sua volta, até que ela parou de supetão, bem em frente a um teatro – caramba! Quase que passo e nem vejo, eu trabalho aqui – parecia que a luz do dia diminuiu, que o sol se escondeu, então acabou? Não pode ter acabado bem agora quando só está começando. Mas e o nome dela?
- Bom eu me chamo Marize e sou coreógrafa, quem sabe não aparece para assistir o show?
Tudo resolvido, o nome e como vê-la de novo, á as musas trabalham bem.
- José Antônio sou comerciante e virei com certeza.
Foi uma despedida assim seca, meio sem jeito de ambas as partes, cada um querendo dizer mais, mas sem saber bem o que dizer. Ela entrou ele seguiu, mas nenhuma das duas vidas seria mais a mesma dali para a frente. Afinal os corpos se foram mas os corações, foram esquecidos bem ali na porta daquele teatro e ainda levaram em seu lugar as recordações de um encontro.
 A vida continuou, os mesmos horários, aquele comprar e vender, mas as poesias, ah! Estas mudaram, tinham mais vida,saltitavam de tanto movimento e agora saiam mesmo quando em sua mesa do escritório no meio da faina diária, era lembrar da cachoupa e de imediato afloravam-lhe versos de amor e saudades, falando dos novos horizontes agora descortinados à sua alma. Em casa já não dava tanta atenção a comida, não lia o jornal com aquela concentração peculiar e ao olhar a janela nas noites via astros diferentes dos reparados até então. Dissera a Marize que era poeta e ela de imediato quis ouvir seus versos, quase chorou com a tristeza embutida em alguns deles e o recriminou por ela. Poesia devia trazer a alegria a alma e não mais tristeza, para isto bastava a vida. Incentivou a que olhasse as coisas de uma maneira que até então lhe era pouco familiar, mas sabe que era agradável! Até os amigos de papo o acharam diferente, continuava educado e bastante reservado (como sempre), mas estava mais agradável, mais alegre em seu íntimo, ainda que as vezes meio aéreo do assunto – andas vendo passarinho verde – e o riso era geral, até ele mesmo sorria com a alusão sem dar muita atenção aos gracejos.
 Do outro lado, os dançarinos notaram também mudanças, havia mais vigor nas coreografias exigidas, mais criatividade e mais cobrança também. Os movimentos eram vigorosos mas lânguidos os casais tinham de se apresentar mais amantes, olhos nos olhos, leves roçar de corpos e assim a dança começou a evoluir e dentro de poucas semanas já era citada em alguns periódicos como “um espetáculo de grande expressividade sensual”. Isto agradou a todos, mas todos não sabiam a quem mais isto tinha agradado, afinal ligar a dança e o teatro a zona portuária e ao mercado era tarefa para titãs e não de bailarinos e produtores.
 Afinal foi-se a temporada e a companhia tinha de migrar à novos palcos, à novas platéias. Os amados, que já eram amantes a algum tempo, teriam de se separar abandonando aquele cantinho, que tinham construído só para si e que em nada lembrava a casa dele e menos ainda o quarto de hotel dela. Os móveis eram comuns e pouco convencionais, os tapetes de nylon, só tinham o  aquecimento central nada de lareiras, a louça comprada em uma liquidação era bonita e moderna (os pratos eram quadrados, pode?) e os talheres tinham cabo de plástico. E bem num canto da sala próximo à janela uma rede de armar, local predileto para o amor dos dois, local propício para deitar e ouvir as poesias de seu amado, ou ver as novas coreografias de sua amada no centro da sala com os sofás e mesinha afastados displicentemente pata os cantos, e ela de camisetas e shorts cortados de velhas e desgastadas  calças jeans, descalça com os cabelos compridos, anelados e brilhantes balançando num rabo de cavalo, era lindo! Pura poesia do corpo aquilo, mas aquela nova poesia que agora fazia e já era até publicada regularmente em algumas revistas e jornais especializados, estava mesmo pensando em uma antologia poética, um editor conhecido tinha sugerido e  então por que não? E agora aquilo tudo, que em tão pouco tempo fizera de sua vida o que todos os anos até ali não tinham conseguido corria o risco de terminar, escafeder-se? Tinha de haver uma alternativa.
 Pensa daqui, reflete de lá e eis que o problema pode ser solucionado. Uma academia! Capital não seria o problema, a professora também não, o mercado estava ansioso pelo produto e o local, bem o local já tinham até idéia de onde.
E assim aconteceu, a companhia seguiu roteiro com vaga de coreógrafo, a cidade ganhou uma nova e bem aparelhada academia e com variadas atividades a disposição dos sócios, alem de um novo poeta, que começava a ser conhecido nos meios mais seletos e variados possíveis, o livro foi um sucesso de vendas.
 Mas sei que estão todos esperando o resto do acontecido, e como concordo com a Marize que de tristeza basta a vida, serei sucinto. Os negócios de família seguiram seu curso normal, agora sob a direção do filho mais velho e da irmã, devidamente assessorados pelo pai, o qual foi se afastando progressivamente, mas sem deixar de lado o construído em anos de trabalho e “sofrimento”. A prendada esposa? Bem esta deixo a cargo de cada um o seu destino, só posso afirmar que não se casou com o padre apreciador de sua cozinha, mas está certamente satisfeita com “o andar da carruagem”.
 E todos foram felizes para sempre (para sempre?).
DDJOMMA
Enviado por DDJOMMA em 19/02/2007
Código do texto: T386192
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Sobre o autor
DDJOMMA
São João de Meriti - Rio de Janeiro - Brasil, 65 anos
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