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O Romance do Rio.





                                      O circo estava armado na Praça Onze. Passei com ela de carro e lembrei-me de Carmem. Tão longe estava eu dela! A sobrevivência me exigia um preço muito alto. Nem me lembrava, às vezes, quem realmente eu era. Pecava deliciosamente. O Rio de Janeiro espremia o meu corpo em cima de desejos que, lá de onde tinha vindo, impensáveis eram na civilização onde vivia. Faltava-me o ar, chegava-me uma ventania forte e, graças a Deus, conseguia respirar bem na maior parte do tempo.
                                     Ela comprou nossos ingressos. Assistimos a um espetáculo medíocre. Importei-me bem mais em engolir as pipocas amanteigadas e o sorvete de creme russo, do que mesmo com o espetáculo circense. Como uma sanguessuga à procura de alimentar-se, ela punha suas mãos dentro de minha camisa semi-aberta e beijava-me com dúzias de beijos molhados de sorvete e de manteiga. Nem me repugnar com seus gestos eu podia. Dizia-lhe que a amava e pronto. Eram dois circos: o onde estávamos e o que fazíamos. Tantos palhaços famintos eu via. Apenas o espetáculo comprido não me era fácil tragar com satisfação. Queria ir-me, deixá-la só, sair do circo.
    _Amorzão..., ah!..., já vai acabar.
                                     Dei graças a Deus sair dali. Estava sufocado, angustiado e entupido de comida. Até náuseas sentia: dela, do sorvete e das pipocas. A manteiga, destas últimas, apenas seu cheiro alimentava as náuseas. Pediu-me que fosse dirigindo seu carro. Era quase meia-noite do sábado. Os carros pareciam correr mais. As ruas desertas ofereciam grandes espaços e eu não fiquei para trás: fi-lo correr também .
    _Amorzão..., está correndo muito...
    _Pra chegar em casa logo.
    _Ah! Que horror! Vamos curtir a noite carioca. Leve-me para Copacabana. Por lá a festa está apenas começando. Vamos!
                                      Mudei a direção e o sentido do carro. Lembrei-me novamente de Carmem. Minha consciência pesava como um fardo de pedras. Mas tudo aquilo me era bom. Fui então para a orla de Copacabana. Quase não encontramos um local seguro para estacionar o automóvel. Ficamos a uns cem metros do bar que escolhemos no calçadão desenhado de ondas alvinegras, símbolo do Rio.
    _Cerveja?
    _Não. Tomarei um suco.
    _Ah! Não..., amorzão..., você só presta quente.
    _Ultimamente tenho andado com um balde cheio de água fria.
    _Amorzão..., não...
    _Sim..., por que não?
    _Você está estranho...
    _Cansado!
                                           Quando chegamos à casa dela, até o orvalho já se tinha ido. Os ônibus da Senador Vergueiro haviam saído de seus mágicos esconderijos e o barulho já nos ensurdecia. Domingo e a cidade não queria parar. Fomos dormir, esparramados sobre o tapete fofo da sala de televisão. Quando nos lembramos de ir para o quarto, já era o instante de levantarmos, comermos alguma coisa e mergulharmos na piscina de sua cobertura.
    _Meu irmão lhe adorou. Quer sair mais vezes conosco. Perguntou quando nós nos casaremos. Eu disse que já nos havíamos casado.
    _E ele acreditou?
    _Claro que sim.
    _Você é louca?
    _Amorzão..., eu, louca?
    _No meu mundo, casamento é uma instituição muito séria. Vai desde um namoro, passa por uma festa, filhos etc. Não é tão simples assim como você pensa.
    _Como você é careta!
    _Lá, pra gente, até o significado de careta é outro!
    _Que horror!
                                    Quando ela foi ao banheiro, apanhei o aparelho telefônico e liguei para o meu amor, que havia deixado há dois longos anos e com quem deveria casar-me.
    _Carmem?
    _Oi, Luiz, onde está?
    _No intervalo do hospital. Trabalhei a noite toda
    _Tadinho..., trabalhando tanto!
    _Para garantir nosso futuro.
    _Continue. E hoje vai sair?
    _Acho que não. Vou aproveitar para estudar.
                                   A bruxa gritou querendo saber com quem eu estava falando. Disse-lhe que era com minha mãe. Adivinhara o que estava tramando.
    _ Ah! Deixe-me falar com minha sogrinha.
    _Desligou...
    _Liga novamente, vai...
    _Não. Ela estava de saída.
                                       Deu-me um trabalho imenso arranjar uma desculpa para ela sobre o porquê de ter desligado o telefone abruptamente. Consegui. Conveci-a após longas e tortuosas frases desconexas. Coitada, nem desconfiava de nada. Dentro de sua casa eu a traía.
                                      Na segunda-feira, apanhei um ônibus, deixei-a dormindo e fui trabalhar. Meu apartamento estava uma bagunça. Tive que arrumá-lo , livrando-me da metade de sua sujeira. Só após fui até o ambulatório do hospital iniciar minhas atividades diárias. Ela chegou tarde ao hospital naquele dia. Como chefe da enfermagem, podia dar-se a esse luxo. Trabalhávamos em um mesmo hospital, local onde havíamos nos conhecido.
    _Amorzão, estas flores são suas. Devem pagar o bem que você me fez nesses dois anos de namoro. Tenho uma bela notícia para lhe dar.
    _Então que a diga logo!
    _Estou grávida. Vamos ter um lindo filho.
                                  Quando dezembro chegou e o Natal estava à nossa porta, conheci a outra manjedoura vazia de tudo. O aborto pode ter entristecido a gregos e troianos. Mas, para este alagoano cansado de representar no Rio o que seu coração jamais apoiava, foi uma notícia felicíssima que chegou em vinte e dois de dezembro de um mil e novecentos e oitenta. Que alívio! Estava agora livre... Acabei o romance e só aí me dei conta de que era tempo de voltar. Adeus, Rio; adeus, amor; adeus tudo! Casei com Carmem um ano após o meu retorno. Ela pôs o nome de Lúcia em nossa filha, logo o nome da outra. Foi o destino quem quis?
Paulino Vergetti Neto
Enviado por Paulino Vergetti Neto em 15/03/2007
Reeditado em 20/09/2013
Código do texto: T414086
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre o autor
Paulino Vergetti Neto
João Pessoa - Paraíba - Brasil
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Paulino Vergetti Neto

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