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Éramos Cinco.

 

 



                                Éramos cinco. Sempre fomos. Meu pai, eu e as três personagens do poema: o poeta, o músico e o pintor. Ele declamava para mim, quase todas as noites antes de eu dormir e eu me fartava com tanta poesia. Sua voz suave encenava o poema, e, realmente, eu me sentia diante dos quatro. Todas as noites isso se repetia. Era gostoso. Uma atitude mansa e humana que saía espontânea do outro poeta que morava na alma do meu velho pai. O sono me vinha como uma doce melodia.
                               Eu dormia feliz abraçado aos anjos do céu que desciam ao meu quarto para me fazer companhia até o fim da madrugada, quando então me chegava a vigília. Menina simples e feliz, eu fui ao seu lado, ouvindo seus versos que me entorpeciam e aprendendo a ser gente grande.
-Não vai dormir agora, minha filha?
-Estou sem sono, pai. Declame aquele poema bonito..., aquele...
-Dos três, não é?
-Dos três, pai, esse mesmo. Comece.
                               O sonho belo saía de seus lábios, aflorados pela força inesgotável de seu espírito lírico e grandioso. Enchia o peito e começava a declamá-lo no compasso do amor que tinha por mim, sua filha querida, admiradora inconteste! Semente de suas esperanças.
Antes de ouvir os versos do primeiro terceto, já começava a ver os anjos descerem do céu. A voz de papai era tão doce que açucarava meus olhos e eu dormia ao lado do meu anjo de guarda sempre vigilante.                           Do poema, o músico saltava sorrindo, tocando um instrumento belíssimo que possuía um som entre a harpa e o violino. Em seguida era a vez do pintor. Nesse instante meu sonho entrava na moldura do céu e seus pincéis alisavam meus cabelos lisos, escorridos no rosto, e eu era meio anjo e meio deusa. Era a vez da figuração do poeta. Ele era o meu saudoso pai e o meu saudoso pai era ele, o poeta fantástico que, de fantasma, nada tinha. Era vivo, vivia sorrindo na alma do velho, quando lia os versos espremidos de felicidade que saíam do seu coração. Ah! que poeta! Ah! que pai...! Ah! que poema lindo, que o tempo não mostra mais! Ah! que sonhos lindos, Ah! que sorrisos fortes! Ah! que anjos, anjos desses que já nem se fala mais! Ouvia verso a verso até onde podia resistir o meu sono. Ele chegava galante e traiçoeiro e não me deixava ouvir o poema até o fim. Era a propósito, eu penso, senão não haveria graça em ouvi-lo de novo, todo declamado, tudo dito dentro de mim. Era-me importante não ouvir todas as suas estrofes.
                                  Dormi muitos sonos, ouvi aquele poema tantas outras vezes, senti a alma feliz, o peito adocicado, ouvido enfeitiçado, a mágoa sumida. Era o verbo que engrandecia minha alma ao ouvir o velho poeta cantar o poema. Todas as noites era como se eu ressuscitasse e ganhasse alma nova. Adorava ouvi-lo mesmo, minha única forma de dormir feliz.
-Não está com sono, filhinha?
-Não paizinho. Declama para mim o poema?
-Deite, abra o seu coração, primeiro do que seus ouvidos e escute o que lhe diz minha alma agradecida por ser seu paizinho querido. Este poema sou eu e nele estou. É a forma ímpar e feliz de pari-la todos os dias em que a ponho para dormir. Ele e eu, na busca da aurora dos seus lindos sonhos de criança. Decore-o, para que, quando não mais me tiver aqui, tenha ele em seu coração, guardado feito uma prece. Dou-lhe como espólio do meu amor verdadeiro, de alma para alma. De coração para coração.
                            Um triste dia, desses muito triste mesmo, perdi o meu pai poeta, aquele que sabia de cor o poema que continha os três: o pintor, o músico e o poeta. Chorei amargamente por duas dores perversas: sua perda e a do poema que nunca havia decorado. Ele só estava completo quando saído dos lábios do meu pai poeta e por isso, acho, nunca o quis decorado.
                             Meu pai era mesmo um homem santo. Eu, já adulta, após ter passado milhares de noites sem aquele poema cadente e melódico aos meus ouvidos, recebi sua visita na madrugada, em sonho. Ouvi-o recitá-lo manso. Era tudo tão perfeito que até pressenti que estava sonhando e tentei decorá-lo. Consegui até começar o primeiro terceto. O sonho acabou frente ao sorriso que enxerguei nos seus lábios; ficaram a saudade gostosa, dois versos vencidos pela memória que os guardou para sempre e a lembrança do maior poeta que tive, meu pai.
                              Quem porventura achou por essas madrugadas frias um poema simples, um espírito altivo e belo, tudo isso dentro de um ser sacrossanto, traga-me esse presente, se possível, hoje, antes do anoitecer pois nada mais é do que meu pai presente num lindo presente de pai, e em um inconfundível sonho de amor.
Paulino Vergetti Neto
Enviado por Paulino Vergetti Neto em 16/03/2007
Reeditado em 06/10/2013
Código do texto: T415331
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre o autor
Paulino Vergetti Neto
João Pessoa - Paraíba - Brasil
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Paulino Vergetti Neto

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