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Reencontro.

Reencontro.

 
                                    Um silêncio me trouxe saudades da Vânia. Pus meu corpo para repousar dentro de uma felpuda poltrona na saleta de estar do bangalô da Rua Dezesseis. Era fim de tarde. Durante o dia havia corrido muito de um lugar para outro. As pernas doíam pedindo repouso. Enquanto descansava meu corpo magro, a alma viajou buscando aventuras. Deslizava nas ondas de um pedaço do destino vencido, engajada nos fatos que a memória podia nos trazer.
                                  Quando estudávamos juntos, sempre ouvi dela um forte interesse em ser freira. Voltada para a hierofania, punha sempre as coisas da religião à sua frente. Moça de procissão, terços, novenas. Alma aplicada. Seus cadernos bem zelados causavam inveja aos outros colegas do curso ginasial.
-Quando eu terminar meu curso, vou servir a Deus.
-Mas você já não o faz?
-Quero viver numa clausura, cheia de Deus e oca das coisas falhas do mundo.
-Do lado de cá você não serviria mais a Ele?
-Claro que não. Eu me contaminaria com os desejos perigosos. Não iria prestar.
                                      Eu detestava essa história de viver para a religião. Ir às missas aos domingos, raramente o fazia. Não trocava meu futebol dos fins de semana por nada neste mundo. O tempo passou. Eu me surpreendi comigo mesmo. No segundo grau, lá pelas bandas do segundo ano, minha fé em Deus explodiu. Alguma coisa mudou meus passos. Não pude conter o desejo súbito de servir ao Deus que me chegou. Resumindo, fui ordenado padre nos últimos dias de agosto de um mil novecentos e quarenta e seis. Não optei pela clausura; ao contrário, tornei-me um missionário muito ativo. Fui para as bandas do Xingu, viver entre índios. Não custaria acontecer o acidente que mudaria novamente minha vida.
                          Meus pés inchados supuravam por várias úlceras. Já havia feito três cirurgias. Andava manquejando. Sentia dores fortes. Quando pulei do pequeno trator, caí sobre um velho tronco de maçaranduba cheio de pontas. Esfacelei meus pés quase por completo. Perdi muito sangue. Tive que voltar para Maceió. Passei a morar com meus pais. Ia à missa dominical com dificuldade. Quase ninguém nos visitava. Tomei um nojo pela religião porque dentro de minha confraria religiosa não havia fraternidade. Sentia-me abandonado. Não recebia ajuda de ninguém. Guardei minha fé para reencontrá-la depois.
                           Encontrei-a na fila de um cinema. Não a reconheci de primeira olhada. Ela não havia me visto. Quando saíamos ela e eu, é que cruzamos o olhar e nos reconhecemos
-Quanto tempo, Vânia...
-Digo eu também. Você mudou. É padre, não é?
-Fui!
-Como pode ter sido? Não é para sempre?
-Abandonei a batina.
Você nunca teve vocação para o sacerdócio!
-Você se engana. Minha fé é forte. A Igreja é que não me interessa mais. Fui abandonado após um acidente que sofri. Ninguém me deu valor. E você, não é freira?
-Casei-me.
-Quem diria, não é? Você..., tão meiga e tão santa..., no cinema, sozinha, sem um hábito.
-Na vida, Manuel, o destino se encarrega de escrever dia-a-dia nossos merecimentos.
-Onde mora?
-No convento do Sagrado Coração de Jesus. Sou recepcionista. Moro lá. Voltei a servir a Deus. Tem missa aos domingos pela manhã. Vá à nossa igrejinha. Só assim nos veremos com mais freqüência.
                           O tempo passou. Cheguei a ir à missa na capelinha de Vânia. Conversávamos muito pouco. Ela sempre estava distante de mim. Antes de a missa começar, arrumava o altar, ligava os ventiladores, acendia as luzes da nave da capela, preparava tudo.
-Manoel era um homem forte. Enganava-se quem pensasse diferente. Eu não o via há mais de quinze anos. Havia sumido. Eu conseguira receber o hábito e estava morando em Minas Gerais, em um povoado próximo a São João Del Rei. Quase caí ao aproximar-me do padre que dava a comunhão para a multidão. Era ele. Manoel por inteiro. Havia renovado toda sua vida. Fiz questão de olhar nos olhos do seu coração, antes de comungar. Vi o tamanho do Deus que emergia de sua alma transparente. Passei a acreditar no destino e na força da fé.
-Foi assim que você me viu, Vânia, naquele dia?
-Exatamente assim. O que lhe é bom vive estampado em sua face.
                                      E o conclave acabou, viajamos e cada um tomou destino diferente e hoje senti saudades dela. Meu corpo, agora descansado, dá-me os melhores frutos da memória. Achei que já é hora de ir-me. Um montão de fiéis espera por mim. Meus pés pedem a estrada. Vou deixar essa boa lembrança dormir no leito do tempo, com um manso cobertor de memórias. Amanhã nos veremos novamente. O que me importa é que meus pensamentos não levem o meu corpo, jamais, para a lama do pecado. Dentro de mim há um Deus que é muito maior do que o homem que sempre fui!Eu não sei o porquê de eu nunca esquecê-la...
Paulino Vergetti Neto
Enviado por Paulino Vergetti Neto em 16/03/2007
Reeditado em 07/10/2013
Código do texto: T415333
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre o autor
Paulino Vergetti Neto
João Pessoa - Paraíba - Brasil
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Paulino Vergetti Neto

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