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Os ratos do cabaceiro






                     “Um cabaceiro-amargoso produzia muito. Sobrevivia fincado à terra dura em frente à casa velha da fazenda. Todos os anos se colhiam dele, frutos maduros, punham-nos para secar e depois guardar a farinha branca da mandioca da roça. Sob suas raízes moravam dois ratos enormes que falavam francês. Eram lindos. Gostavam muito de mim e eu deles. Coisa estranha, não?
                     Certo dia de verão, sol bravo queimando a alma do vento, acordei para passear. Fui ao pote, dois gargarejos d’água fria fiz, andei até achar a mesa onde me sentei para em seguida comer dois pedaços de beiju duro com café frio sobrado da noite vencida.
    -Pra onde tu vai, Damião, já essa hora...
    -Dar uns passos, mãe. Ver o mundo quente lá fora.
    -Vai caçar preá pra gente comer que é melhor...
    -Matar os bichinhos...
    -Se não vai, então vou tocaiar aqueles ratos do pé de cabaceira.
    -Aqueles não! São gente como nós. Nunca pense nisso.
    -Só pra tu mesmo é que são assim aqueles nojentos. Destá! Eu ainda os vejo hoje. A soca-tempero tá cheia até a boca!
    -Mãe, tás doida?
    -Deixa de chamar tua mãe de doida, cavalo!
                    Meus ratinhos cantavam o hino da França tão bem! Os meus avós paternos eram do sul da França. Falavam latim, misturado a um difícil dialeto provençal. Quando falavam, pareciam cantar.
                    Naquele dia não saí. Tive medo de que mamãe matasse os dois. O que seria de mim sem eles? Não fui. Fiquei cabisbaixo sentado no batente da porta de entrada da casa, recebendo as baforadas do vento quente que vinha de longe, só não sei de qual fogueira acesa.
    -Damião?
                   É ela. Quer que eu saia da porta, perca o olhar para o cabaceiro e ela, achando meus amiguinhos, detone a arma maldita contra eles.
    -Damião?
                 Ela de novo. Meu Deus, que horror!
    -Tais mouco, peste?
                 Vou responder, senão não terei mais sossego com sua latumia.
    -Diz, mãe!
    -Diz mãe, o quê, filho duma égua, venha cá com pressa!
                Ouvi a conversa de sempre. Devia arranjar dinheiro para ajudá-la nas despesas da casa, ou então pôr um roçado atrás de casa. Só se fosse eu doido e quisesse aguar a lavoura com a baba do sol. Eita serviço! Mamãe era demente para algumas coisas e agitada para outras. Falava pelos cotovelos. Eu tinha que estar sempre disposto a ouvi-la, senão...
               O dia passou, a lua chegou por trás da serra de pedra e iluminou tão bem a escuridão da noite que deu para ver as estrelas cintilando na alegria do céu. Eu estava atento aos movimentos de minha mãe. Os ratos saíram da toca e se puseram a passear pelo terreiro da casa. Sentaram-se à minha frente, pediram grãos de milho. Tinham fome. Eu me levantei, apanhei uma xícara deles e lhes dei. Comeram todos os grãos, alisaram a barriga e perguntaram o que queria em troca.
    -Vocês sabem cantar “La vie rose”?
              Cantaram melhor do que Edite Piaff. Eu me deliciei com as duas vozes. Que vozes!
              Mas a noite se foi, e os ratinhos amigos dormiram entre as brechas das raízes do cabaceiro-amargo. Eu também fui dormir. Sem sono, sem estar cansado, mas fui. Dormi um sono leve àquela noite. Ouvi as corujas chilrearem por cima da casa e o bacurau gritar sem medo da escuridão. No meu agrestão, quase sertão, já, era assim: a escuridão tinha uma boca grande que sabia cantar.
              Madrugada alta, quase nos pés do dia, ouvi um tiro vindo das bandas do cabaceiro. Pensei: mamãe matou meus ratos amigos.          Levantei-me da cama, corri à porta da casa e saí. Estava no terreiro comprido. Olhei por seus lados e nada. Quase meia hora perdida procurando os dois corpinhos.
              O sol achou de sair. Vi-o pelegando numa mansa subida por trás do mesmo lado onde a lua saíra ontem. Estava frio ainda e não me era forte sua luz. Mas deu pra ver que, na aresta direita da casa, havia um corpo no chão.
                       Mãe estava morta, caída sobre o chão duro, agora molhado de sangue. Do outro lado da casa, a soca-tempero no chão e, ao seu lado, imaginem os leitores, estavam os ratos do cabaceiro.
    -Quem a matou?
    -Nós dois.
    -Por quê?
    -Por você.
    -Por mim? Não entendo.
                     Soube deles que ainda era tarde da noite e mamãe saiu com a arma e pensou alto e eles ouviram: “ Hei de matar meu filho para não ter que aturar sua loucura.”
                     Foi aí que o rato macho mordeu o dedão do pé direito de mamãe, a arma caiu e eles dois, com muito sacrifício, puxaram o gatilho. Foi fatal o tiro.”
                     Acordei apavorado, saltei da cama e gritei por mamãe. Minha irmã mais velha, Eliza, dirigiu-se ao meu quarto e me tranquilizou:
    -Meu irmão, sonhou com mamãe?
    -Sonhei, mana. Sonhei que ela matava meus ratos.
    -Que ratos?
    -Os da cabaceira...
    -Menino, tu endoida! Os bichos que você matou nas raízes da cabaceira ontem foram dois preás.Tá vendo, sujeito..., você ficar com pena deles, veja o que deu: sonhou com outros bichos. Vai dormir. Ainda é madrugada alta!
                    E fomos dormir o inconsciente e eu. Se há uma língua que gostaria de saber falar, é o francês. Mamãe falava bem. Hoje faz três anos do aniversario de sua morte. O que mais há perto de nós é água. Moro na beira da praia, chove o verão todo, o apartamento não possui terreiro, mas eu continuo a duelar com o que não conheço. Por que a gente sonha com essas coisas esquisitas? Sei que não acharei mais sono. Vou ler. Apanhei a “Revolução dos Bichos” de George Orwell. Vai dar certo essa leitura.
Paulino Vergetti Neto
Enviado por Paulino Vergetti Neto em 16/03/2007
Reeditado em 14/10/2013
Código do texto: T415353
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre o autor
Paulino Vergetti Neto
João Pessoa - Paraíba - Brasil
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Paulino Vergetti Neto

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