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Lembranças

“Ninguém mais pode decidir como você vai reagir... Cada um deve marchar ao som de seu próprio tambor.”
John Powell

Outro outono. Mais uma vez parti em busca de algo sem saber o que. Naveguei por mares desconhecidos, cruzei reinos, atravessei abismos... Ouvi o som do vento, esperando obter as respostas às inúmeras perguntas que vestiam meu corpo cansado, exausto por peregrinar só.
Os pés sangrando não impediam de mais uma vez recomeçar emergida em esperança,  tantas vezes vazias, mas mesmo assim, única bagagem que carregava e no entardecer dos dias, despedia-me do sol que se punha através das dunas que nunca marcavam meu chão.
Na noite, a escuridão desenhava meus sonhos. Os olhos não fechavam, apenas deitavam-se sem buscar compreender ou desenhar as sombras do dia que se foi. E só então tudo fazia sentido. Nos sonhos desenhados em nanquim, descobria meus traçados na folha de papel em branco que nunca vi. Mapas desenhados marcando o tempo e o espaço entre as linhas de uma escrita primária. Cores desbotadas mostravam as lágrimas que, derramadas em cascatas, cortavam as pedras desenhando nova paisagem.
Procurei por mais detalhes que mostrassem mais de mim. Andei pelos cômodos vazios da casa onde cresci, a balança, ainda no jardim, denunciava o tempo que correu apressado como que fugindo de tudo que vivi. O velho portão rangia, denunciando a entrada  de algum intruso e o silêncio quebrado, mostrava-me mais do tempo que se foi. O jardim perdeu suas cores, e a velha casa, suntuosamente austera, parecia não mais me reconhecer. Por onde andam as luzes e os risos? Onde foi parar a vida que da própria vida se ausentou?
As escadas corroídas ainda marcavam os passos apressados que por ali passaram, a velha porta, assim como as paredes contavam do tempo que passou. E eu ali, o que buscava? O que queria? O que esperava encontrar? Nada além de mim mesma em um tempo onde um sorriso desenhava e denunciava a alegria de viver. Ainda havia alguns poucos sonhos pendurados nas velhas e rachadas paredes, sonhos em preto e branco, sonhos tantas vezes sonhados, idealizados, e o compromisso para com a felicidade desmanchou-se em pranto ao ver bem ali ao lado, o velho retrato do que um dia foi vida.
E na noite onde os olhos descansam sem desenhar sonhos, perco-me novamente a esperar pelas respostas que revestem meu corpo agora sem forma, sem som, sem luz e que carrega apenas a bagagem do início da uma caminhada sem fim.

A.C.R
02/07/2013
Aisha
Enviado por Aisha em 02/07/2013
Código do texto: T4369316
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Aisha
Jundiaí - São Paulo - Brasil, 53 anos
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1 e-livros (57 leituras)
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