Fuga

“A liberdade é a possibilidade do isolamento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo.” (Fernando Pessoa)

Fuga

E acima de tudo está o bem, mas o que é o bem? Contraponto do mal se volta e vê; há linhas cruzando o caminho dos que querem atingir sua plenitude.

Ouço gritos e sussurros. Ninguém os vê ninguém os ouve. Eu sim. Leve tormenta a banhar a alma que desistiu de vestir-se em luz. Ninguém sabe onde ao certo tudo começou ou de onde partiu. Eram centenas, milhares. Todos levando consigo apenas aquilo que conseguiam carregar. Fugitivos pontos sobre as areias do deserto. Nada além de pontos negros contrastando o branco que se perdia no horizonte, o branco que seguia além do que os olhos podiam alcançar. Pontos negros na tela branca jamais pintada. Pontos negros escorrendo feito a tinta lançada sem nenhuma outra intenção. A não ser manchar a tela nua que à frente pedia por vida. Vida que não tinham. Milhares de vidas buscando por vida e sem saber onde e como, apenas correndo fugitivos de si mesmos.

Aurora tingindo o céu e mais um dia que chegava ao fim. Assim também chegava ao fim as forças de qualquer um que tentava fugir pela areias quentes que queimavam os pés. Calor que se ausentava na noite fria que abraçava um a um parecendo querer arrancar as velhas almas dos corpos gastos pela escravidão.

Deitava minha cabeça sem saber onde apoiar. Eram tantos os corpos deitados sobre a areia branca, corpos caídos sem saber como ali chegaram. Era a corrida pela vida, mas ali, deitado, olhava as inúmeras estrelas do negro céu e me perguntava: que vida? Não havia uma resposta. A verdade é que nos agarramos àquilo que muitos chamavam de vida com todas as nossas forças, que eram poucas, mas, o pouco que tínhamos, mantínhamos agarrados nos farrapos de uma vida que nunca tivemos, nunca conhecemos.

Noite fria, assim era a morte. Fria e indolor, fria, somente fria. Sem sonhos, sem medos, sem pressa, sem fuga. Ninguém foge da morte, nem eu, nem você, nem ninguém. Entre a vida e a morte optamos pela vida, ou por a mantermos na forma que tínhamos. Não seria mais fácil nos rendermos à morte como oferendas pacíficas? Mas não, tínhamos ainda um resto de sangue a correr por nossas veias. Um resto de sangue alimentando um coração que teimava em bater no mesmo ritmo de nossa fuga. Fugir e fugir, seria esse nosso destino?

Pontos pretos escorrendo pela tela branca ainda intocada, imaculada, nobre como os sonhos de seu senhor, ou seria de nossos senhores? Estaríamos nós servindo aos senhores dos quais fugíamos? Não há liberdade para os que fogem. Não há liberdade aos que temem a morte. Não há liberdade aos que se submentem a uma vida em farrapos. Não há liberdade e nós sabemos disso, já sabíamos antes mesmo de fugirmos. Pontos negros sob o negro céu pontilhado de estrelas e uma voz sussurra na noite fria. Uma voz fraca, porém intensa dizendo-nos “Coragem”!

Por amor me mantive cativo e por amor busco minha liberdade. Não sabemos por onde seguir nem onde descansar. Não sabemos nada nem mesmo sobre nós. Somos um grupo de escravos fugindo de um destino que não escolheu ou teria o destino escolhido a nós para estarmos pontuando esta enorme tela branca feita em areias. Teria eu minha história escrita por linhas livres de algum papel? Sábio seria se desenhasse eu mesmo meu destino. Se permitisse a minha alma voar livre entre as estrelas que desenham as lágrimas que meu corpo chora, e chora minha terra e meu chão. Choram meus irmãos de fuga, chora a vida que não tenho e temo nunca ter.

Por instantes adormeci. Por instantes me despi dos medos, receios, preocupações e cansaço. A fome já havia desistido de nos afugentar. Não sentia minhas mãos, tamanho o frio que me abraçava durante o breve adormecer. Frio, fome, e a vida em farrapos onde me agarrava tentando buscar salvação.

Mal o sol despontava e já estávamos em pé, em marcha novamente. O que buscávamos? O que buscamos? Ainda não sei nem mesmo de que somos feitos ou se a direção escolhida é mesmo a certa. Só sei que caminhamos, caminhamos, caminhamos. Esse é nosso destino. Pontos negros escorrendo sobre a tela branca, imaculada, intocada e que chamamos de vida.

E outros dias virão onde o desespero, o cansaço, a dor tomarão conta de nós e nesses dias nos lembraremos da aurora, das estrelas que desenhavam no céu negro, do sol que maltratava nossos corpos, do frio que nos abraçava mostrando-nos a falta do amor que nunca havíamos ofertado.

Éramos agora o fruto do que plantamos. Fugitivos em uma vida onde a morte reinava, onde a dor era aconchego, onde nem o corpo nos obedecia e sentenciado, apenas caminhava pelas areias brancas que nenhum artista jamais tocou.

Centenas, milhares caminhando um caminho sem volta. Mãos vazias na partilha do que nunca ofertou. Mãos secas e frias de um amor que nunca amou.