Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

O pêndulo do abacateiro

Uma carteira de Plaza aberta sobre a toalha verde da mesa e o radinho de pilha toca Swing de Campo Grande. Os olhos do elefante tentam buscar o leste, mas os objetos na estante se multiplicam e impedem que o desejo daquele objeto de cerâmica barato e de cor estranha possa ter o seu desejo realizado. No copo ainda uma sobrinha de conhaque, o livro ainda dorme de bruços aberto no sofá. A desorganização da casa traz uma agonia para os gatos e os seus demônios, eles estão cansados de destelharem as casas e gritarem o seu cio durante toda a madrugada. A idéia de ficar ouvindo os cios dos gatos traz insônia para qualquer um e o destelhar lembra o arrastar de correntes por um gigante no corredor da casa, quando estamos dominados pelo medo.
- Você já fumou um Plaza?
Ontem a noite um homem negro de olhos cintilantes e de andar macio envolto por uma calça jeans e tênis desbotados atravessou a rua na frente de uma Variant... Ela falava comigo transbordando a agonia, não lembro uma única palavra, talvez tenha sido o conhaque ou até mesmo o assunto. Era para tê-la acompanhado até a esquina, mas sempre digo que os gatos estão na esquina para espreitarem os desavisados, quis ficar sentado no sofá olhando a televisão e o filme chato, quis saber o exato momento que a programação encerrava. Os gigantes começarão a arrastar a suas correntes quando os olhos fecharem, eles fazem isso todas as noites.
O gosto lascivo do conhaque, uma lança a penetrar, o gosto aveludado e a sua língua navega sutilmente numa baía... A depender do gole é como ser um marinheiro em terra firme. A tolha num tom verde tão suave demonstra a sua velhice, quantas vezes ela já fora utilizada, as gotas de conhaque guardadas em suas entranhas, os poucos jarros por tio, ela sabe mais sobre a casa do que os gatos e talvez seja a única que veja as correntes sendo arrastadas e onde elas são guardadas. Nada de galos tecendo as manhãs, estamos é andando nas trilhas deixadas pelas corujas, a madrugada deixou um vestido dentro daquele guarda roupa.
- Você já ficou jovem alguma vez?
Um beijo na boca numa sessão de cinema e aqueles corpos na exposição... Todos os dias quando eu era velho desejava os olhos e as pernas de Ava Gardner, tinha muito medo que descobrissem isso e eu fosse extraditado ser julgado por estranhos. Era na Sessão das Dez que ela aparecia mais bonita, eu sentado na poltrona sentia o cheiro do perfume e admirava aqueles olhos de gata e os gatos ficavam rondando a sala, passavam entre nossas pernas, ficavam a espiar os acontecimentos do cinema e da minha casa. O cheiro forte do cigarro Plaza, os motores dos carros e os suspiros das senhoras que desejavam andar num Ford nas avenidas de Nova York. Fiquei a noite toda esperando a programação encerrar, era bom imaginar quando se era velho.
- Você sabe muito ou pouco sobre os gatos?
Olhei nos olhos do abacateiro e ele lançou sobre os meus olhos toda a sua rudeza peculiar, todo o seu aspecto frio e todo o sentimento inundada de fel. Quis desviar os olhos, mas ele amarrava a minha atenção, deixava-me cativo e eu quase escravo ficava a mercê dos seus olhos rudes e frios. O império do medo instalado em sua copa e os seus frutos amargos processado num liquidificador. Os gatos colocaram o meu vizinho numa corda num dos galhos do abacateiro e todos nós ficamos sentados numa cadeira de balanço observando a maldade fazer os seus movimentos pendulares.
 Não corra Dinorá, eles são mais fortes, mais ágeis e todos acreditam neles, somente nós dois sabemos sobre os gatos. Resolvi ficar deitado no sofá e deixar a minha mente esculpir como deveria ser o passado, trago comigo uma revista onde tenho o futuro recortado em fotografia em preto e branco. Aquela mulher continua lá em qualquer ponto do futuro seus olhos de gata e as suas pernas caminhando por uma rua cinza e movimentada. Dinorá todos os dias vinha aqui em casa e sentava no meu sofá predileto, perguntava pelo elefante e organizava os recortes sobre o futuro.
- Meu pai beijava a boca de uma cigana e a roda da fortuna girava...
- Tenho um medo daquela música que fala sobre a Fortuna.
- Por que Dinorá.
- Silêncio... Alguém nos ouve!
Risco um fósforo e o Plaza está prontinho para devorar o meu pulmão. Quantas gramas de pulmão um cigarro Plaza consome? Conheci Dinorá num museu ela olhava Nossa Senhora de Fátima e eu procurava Ava Gardner. Bebemos um conhaque, conversamos, contei algumas mentiras, mas ela pensou que eram verdades e ela deve ter contado algumas verdades que até hoje penso que são mentiras. Uma mania incrível de sentar no meu sofá predileto, ficar enroscada em minhas pernas e beber leite gelado e deixar o copo sobre a toalha verde. O gosto amargo do chá de boldo era o sinal que a segunda feira estava sendo cosida no horizonte por um galo que não esperava a programação encerrar e a tela ficar cheia de chuvinha preta e branca.
- Quantos são seus pecadinhos?
  - Você acha que uso fita métrica ou balança para medir os pecados?
- Não perguntei para você ficar nervoso...
- Não estou nervoso, quero apenas ficar em silêncio.
- Gosto tanto daquele abacateiro!
- Traz lembranças ruins.
- Por quê?
- Inquérito?!
- Apenas uma pergunta.
Quando Dinorá olhava para o abacateiro os seus brilhavam e de uma forma sedutora passava a língua no lábio superior. Tinha vontade de beijar a boca daquela mulher toda vez que ela fazia isso, mas nos seus olhos tinha os olhos do abacateiro. Uma bandeira do México tremulava numa casa do outro lado da rua e as cores de Frida estavam na fachada. Os ratos estão roendo a parede e quero saber onde os gigantes escondem as correntes, deve ser em algum lugar bem próximo... Os ratos estão escondidos, sinto o coração deles numa pulsação nervosa, estamos isolados e os vizinhos assistem à televisão no último volume. O homem gordo é sério e o magro invade a madrugada com a sua idiotice. Por que riem das idiotices desse magro com cara de mordomo de filme de terror barato gravado no subúrbio londrino. Eles não sabem das correntes, mas acho que viram o pêndulo no abacateiro.
- Não gosto de televisão.
- Eu também não.
- E por que deixa ligada?
- Inquérito?!
- Somente uma pergunta.
- Gosto de ouvir vozes.
- E gemidos, sussurros e juras?
O seu corpo nu com os pelos arrepiados, a ponta da língua a explorar os recortes do meu corpo... Mamilos rígidos e as pernas a enroscar nas minhas, o seu corpo tinha um sabor de fevereiro mais próximo de janeiro, um leve toque de conhaque e deixar o barquinho a navegar pela baía, mergulhar nessas águas verdes. Descobri ontem que o céu não é azul. E Dinorá acariciava a minha existência e eu gostava da sereia tatuada na sua virilha. A noite ia descendo a Ladeira da Montanha ao som de Ave Maria e o cheiro do cais trazia a saudade junto com ele. Dinorá tomava um banho demorado, cantava uma canção chata e eu ficava ainda deitado na cama com uma vontade danada de perder mais uns gramas de pulmão.
- Estou indo embora.
- Tchau.
- Não é tchau. É adeus.
- Disse para você não correr, não olhar o abacateiro.
- Adeus.
O fósforo acabou e hoje pela manhã vou ter que sair para comprar mais, ainda é três horas da manhã. A mulher na esquina entra num opala azul e as luzes neon invadem o meu quarto e eu fico olhando aquele pipocar de luzes. A lua nua na copa do abacateiro e as folhas vão embalando os sonhos da lua, um protege o outro. Seria bom que aqui tivesse lobos, somente assim os gatos não iriam destelhar as casas. Meu vizinho que adormece no abacateiro sempre me emprestava fósforos. Vou sair andando quando o sol nascer, ir até o armazém do chileno e comprar mais cola para prender o futuro na porta do guarda roupa. Meu pai beijava uma cigana e eu ficava olhando a espada afiada, as pétalas de rosa e a carta da roda da fortuna sobre a mesa com uma toalha verde desbotada.
Dinorá onde quer que você esteja mando um abraço e um beijo. Sinto muita saudade sua e de nossos fevereiros. O Plaza agora adormece no cinzeiro e as correntes estão guardadas debaixo da cama, não consegui alcançar os gigantes. Todos os dias subo ao telhado para consertar as telhas que foram destelhadas na madrugada, os gatos agora sentam nas mesas dos bares pedem conhaque e ouvem as nossas canções. Aquela canção chata que você cantava ao tomar banho... Ouvimos todos os dias as seis da manhã, tornou-se um hino. Quando deito no sofá as estrelas ficam nas frestas piscando os olhos para mim. O moço negro de olhos cintilantes continua a atravessar na frente da Variant, ele continua com o andar macio, mas o tênis não está mais desbotado.
Deitado no sofá deixo o tempo passar e bebo a última dose de conhaque e fico ouvindo os risos dos vizinhos. O magro continua da mesma forma e o gordo não consegue convencer que aquilo é um humorístico, não arrebata risos e não provoca gargalhada. O futuro está na porta do guarda roupa, colocado com cola tenaz, tenho muito tempo, sei que o futuro é amanhã e amanhã já é distante. O som da gaita e a voz de Bob Dylan, entre os sussurros e gemidos, os olhos do abacateiro atravessam a janela. Prefiro os olhos de Ava, fico deitado no sofá os ratos roeram as paredes, tenho agora somente a toalha verde, o telhado, as correntes e o sofá.
- Dinorá onde você está?
- É um inquérito?!

Deijair Miranda – Janeiro 2014.

Deijair Miranda
Enviado por Deijair Miranda em 07/02/2014
Reeditado em 07/02/2014
Código do texto: T4681942
Classificação de conteúdo: seguro

Copyright © 2014. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.

Comentários

Sobre o autor
Deijair Miranda
Pojuca - Bahia - Brasil, 44 anos
116 textos (5728 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 15/12/19 05:28)