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Lindóia ( Ficção )

I
 A noite estava fria. O vento soprava e espalhava estranhas sensações , causando arrepios. Lindóia vagueava por entre as dimensões. Estava assustada, perturbada, mas plenamente consciente do que queria e procurava. Cansada, alcançou uma nova fronteira e, desejando respirar um pouco e aliviar o cansaço, estacou debaixo de frondosa árvore, onde se sentou e apoiou a cabeça ao espesso tronco. Aproveitando a leve brisa que acariciava o rosto, dispôs o instante para colocar em ordem seus pensamentos, a esta altura confusos e sem esperanças. Afinal, havia percorrido longas distâncias, nada obtendo. Não percebeu que nobre Entidade a acercava, tomando os seus minutos de reflexão.
- Lindóia, o que buscas não se encontra por estas paragens. Está a quilômetros daqui. Por que insistes?
 Vendo-se tomada de assalto, Lindóia arregalou bem os olhos e tentou identificar a origem daquelas palavras. Seu olhar imperfeito não conseguia divisar o ser angélico que confabulava consigo.
- Por que insisto? Ora, porque é tudo quanto desejo e nada mais me importa. Hei de percorrer todas as estações, entretanto, encontrarei aquele que seduz as aspirações do meu espírito. Sou uma megera, uma perdida, e só o brilho daquelas palavras trarão alívio ao meu ser combalido.
- Tu estás a blasfemar, irmã! Nada encontrarás nestas condições. O teu espírito encontra-se carente de afeto. Verdade, não te contradigo, mas necessário é que busques no trabalho redentor o merecimento do que pretendes.
- Que trabalho poderei fazer? Isto não me apetece. Aliás, não saberei fazer coisa alguma enquanto não localizar o combustível que alimenta minha fome e sacia minha sede. Dizei-me: onde deverei buscá-lo?
- És teimosa e impertinente. Continuas a blasfemar. Só existe um combustível capaz de alimentar tua fome e saciar tua sede: O AMOR!
- Mas não é por amor que perambulo sem destino?
- Bem o disseste: sem destino. Quem ama é senhor do seu destino. Escuta-me, irmã: entra nas profundezas desta Esfera e procura Irmão Álvaro. Certamente ele saberá recambiar-te na trilha do verdadeiro sentimento e ajudar-te-á a encontrar teu tesouro mediante esforços devidos. É tudo quanto a Luz pode te oferecer, por enquanto. Conforma-te e aceita esta sugestão. Por este caminho garanto-te: mais breve do que possas imaginar, estarás a contemplar a face que tanto dizes amar.
 Lindóia compreendeu toda a extensão do conselho dado. Seu espírito imperfeito soube identificar naquelas palavras, a nobreza de uma Entidade Iluminada, o privilégio de escutar sua voz, a candura do aconselhamento. Seus olhos prantearam, emocionados.
 - Com quem falo? Pronuncia teu nome para mim, Anjo Divino.
- Sou mais um grão de areia no deserto e ainda estou na imperfeição das veredas enlameadas. Tão carente quanto ti e tão amante quanto teu coração desordenado. Meu nome é Renato e busco auxiliar-te para atinjas teus ideais. Feliz ficarei caso dês escuta ao que te
 propus.
- Perdoa-me, Pássaro Alado dos Céus. Tuas palavras conseguiram aquietar meu pensar tumultuado. Sim, farei o que me pediste, percebo ser o melhor para mim, agora. Obrigada por tua caridade...
- Segue e eu apreciarei teus passos. Um dia te levarei em busca do que procuras. Prometo-te! E não agradeças a mim, porém ao Pai que está nos Céus. Apenas cumpro suas determinações e satisfaço Suas vontades, por sinal, justas. Paz em Cristo, despeço-me...
 Lindóia estava tão embevecida que não pretendia apartar-se de tão preciosa companhia. Por ela, ficaria ali meses, séculos, somente a escutar os sacratíssimos dizeres e ensinamentos daquele Ser.
- Por favor, não me abandones. Agora que o tenho, não o quero perder. Tu encheste meu coração de esperanças. Sem ti, eu enlouqueceria.
- Não, irmã. Não te deixarei. Já afirmei que te seguirei os passos, confia. É hora de procurares Irmão Álvaro. Entra e acha-o, sem mais tardança.
- Irei neste momento, mas será que não posso ver-te o rosto?
- Não te é permitido, por enquanto. Todas as noites, neste mesmo lugar e hora, aqui estarei à tua espera e tu poderás escutar-me. Quando permitido for, deixarei cair o véu que encobre minha face.
- Virei, sem dúvidas.
 Lindóia, transformada interiormente, adquiriu novas forças e seu semblante estava plácido, radiante de esperanças e graciosas perspectivas.
 Levantou-se, caminhou e chegou apressadamente ao convívio espiritual de Acácias do Amanhecer, denominação da dimensão onde se achava. Confabulou ligeiramente com algumas Entidades e indagou como encontrar Irmão Álvaro. Foi encaminhada por Luiz à presença
 do Coordenador espiritual da região. Adentrou espaçosa sala, cheia de móveis e uma grande mesa, que estava ornamentada por jarros brancos e azuis, enfeitados por belíssimos galhos e flores silvestres. O aroma acolhedor e a simplicidade do local, deixaram-na encantada, segura
 de si e envolta em misteriosa paz. Irmão Álvaro não se fez esperar. Penetrou delicadamente naquele ambiente e esboçou límpido sorriso àquela que o esperava.
- Irmão Álvaro, sei que o senhor é o chefe desta Esfera e, por isso...
- Aqui não há chefes, estimada irmã. Somente dirijo esta região, porém em comunhão com todas as almas habitantes do lugar. Que não haja cerimônias, estou informado sobre seu caso e
 estou pronto a oferecer-lhe de tudo quanto precisa. Sinta-se à vontade, todos aqui sentir-se-ão honrados em auxiliar a irmã no que for necessário.
 Lindóia estava perplexa, não sabia explicar a si mesma como Irmão Álvaro conhecesse seu caso sem que ela ainda nada o tivesse revelado.
- Eu...Eu... não entendo! Como o bondoso Irmão sabe de tudo a meu respeito?
- Amada irmã, breve poderá compreender melhor os mistérios que comandam a Verdadeira Vida. Tudo em Deus é Perfeição e, se somos sua imagem e semelhança, nada mais natural do que dispormos, na medida do nosso adiantamento, de um milímetro do seu harmonioso e in-
substituível Saber. Muito terá com o que entender estando em nossa convivência. Desejo a irmã um rápido aperfeiçoamento e bastante proveito em seus aprendizados.
 Lindóia admirava-se cada vez mais daquelas coisas. Irmão Álvaro a recomendou ao seu mensageiro Luiz, que a levou até seus aposentos. Sentia-se cansada e estava a necessitar de um repouso.
 II
 Vários dias se passaram. Lindóia aprendeu a amar aquela Estação. Devotava-se com ardor às suas tarefas. Pela manhã, ia ao encontro de outras Entidades e, conjuntamente com elas, assistia às aulas dadas pela exuberância de conhecimento do Irmão Álvaro e, às vezes, minis-
tradas por Coordenadores de outras dimensões. Bebia com vivo interesse todas as lições e progredia de maneira notável. À tarde, ia para o hospital da comunidade, onde desempenhava com competência e boa vontade os misteres da enfermagem. Ajudava os irmãos menos esclarecidos a compreenderem suas situações e seus esforços eram baldados de pleno êxito. À noite, sempre todas as noites, não esquecia de ir ao encontro daquele que se tornara afeiçoado do seu coração e, embora ainda não vislumbrasse seus traços fisionômicos,
 tinha-o em conta da mais casta beleza. Dele sempre ouvia conselhos do mais alto valor e servia para embalsamar seu espírito, tendo o amadurecimento e o progresso que sonhava.
 Assim permaneceu muitos anos, até que, um belo dia, foi solicitada sua presença diante do Irmão Álvaro.
- Amado Benfeitor, estou inteiramente à sua disposição. Conte comigo.
- É notável sua presteza, irmã. Tão bem se houve durante estes anos de contínuo trabalho e aprendizagem, que a escolha não poderia ser outra. Parabéns, Irmã Lindóia!
 De nada entendia daquelas palavras. Sua pulsação aumentou, estava momentaneamente mergulhada em profundos enigmas.
- Explicar-lhe-ei, se assim desejar. Chegou aqui a estimada irmã muito aquém dos recursos da sabedoria e do trabalho. Seu empenho foi tão grande, sua abnegação tão extraordinária, que eu não tive dúvidas em assinalar sua promoção, aliás, dupla promoção.
- Promoção? Como assim?
- Acácias do Amanhecer é uma dimensão de bons espíritos. A irmã chegou aqui enferma e com estágio por fazer. Passando em suas provações, a irmã, sem dúvida, atingiu o objetivo de entre nós permanecer com domicílio. Alcançou-o e com grandes méritos. Lindóia, hoje, é uma
 Entidade mais evoluída e acaba de ser escolhida para ser a nova Coordenadora desta região.
- Mas... Isto não é imprudência? – Perguntou nervosa – Não é precoce?
- Nada é precoce ou injusto quanto aos desígnios de Deus, irmã. Chegou a hora de sua recompensa, o instante de uma promoção.
- Sim, compreendo até aí. E mesmo agradeço ao Pai e ao Divino Mestre, humildemente. Se Eles acham que mereço esta promoção, quem sou eu para contradizê-los? No entanto, por quê Coordenadora? Por acaso o irmão voltará à carne?
- A reencarnação é o sonho de todo aquele que busca a Perfeição. É na labuta direta com a matéria e através do sofrimento e da dor, que o espirito se despoja de suas imperfeições, purifica-se e segue em busca de andaimes mais elevados. Esta é um aspiração normal a todo e
 qualquer Ser que tenha o objetivo de galgar os degraus do Paraíso Eterno.
- Porém... O Irmão já não precisa retornar à densidade material grosseira, com certeza é uma Entidade angelical...
- Engana-se, dileta irmã. Pertenço, é verdade, a uma posição mediana e um pouco acima do saber dos que habitam Acácias do Amanhecer, contudo, ainda estou muito longe dos meus propósitos. Bastante terei que fazer e sofrer para alcançar patamares maiores. Quanto à sua nomeação ao comando deste lugar, isto cabe unicamente ao seu merecimento, a nada e a ninguém mais. Eu mesmo a indiquei e, embora a irmã tenha em si emoções e conhecimento similar aos que convivem, em nada afetará seu trabalho. Todos aqui se respeitam na mesma igualdade. Caberá apenas à irmã, orientar as decisões finais dos trabalhos e fiscalizar a ordem e a paz por estas redondezas. As mesmas tarefas que foram executadas por mim. Mais uma vez: Parabéns!
 Lindóia não se conteve. Abraçou-se ao Irmão Álvaro e pranteou em seus ombros, num choro convulso e, ao mesmo tempo, feliz...
 III
 Agora era a mais nova Coordenadora espiritual da dimensão e com muita responsabilidade acatou as decisões tomadas para si. Obedientemente iniciou o desempenho das noivas atribuições e foi, também, felicitada por todas as Entidades de Acácias do Amanhecer. Esperou ansiosa a chega da noite. Precisava contar tudo à sua doce e melodiosa “voz” e,
 dele, escutar recomendações sábias quanto à administração da esfera.
- Meu Anjo dos Céus, agradeço-lhe por tudo o que tens feito em meu benefício. É por tua intercessão que hoje me encontro em tão elevada situação.
- Amada Lindóia: tu plantaste a semente. É devido ao teu merecimento, unicamente por isto.
- Como tu és bom! Como amo tua aveludada voz! Só o Pai é testemunha do imenso amor que nasceu em meu coração por ti. Obrigada, Anjo Divino!
- Não me faças sentir orgulho por algo que não fiz. Tu o procuraste e tu o encontraste. Prometi a ti e cumpro: Irmão Álvaro é o filho transformado em novas vestes que tanto buscavas naquela noite fria. Ei-lo para o teu coração de mãe!
 Lindóia sentiu o corpo gelar de emoção. Grossas e abundantes lágrimas brotaram dos seus olhos e infinita felicidade inundou sua alma. Sentiu-se desfalecer, porém poderosa onda fluidica a reteve de pé e consciente. Era uma espírito vitorioso.
- Como te agradecer, Pássaro Alado dos Céus? Eu, que durante séculos procurei Álvaro por todos os recantos da espiritualidade... Eu, que percorri infindáveis dimensões à sua procura... Eu, que voltei à carne inúmeras vezes em tentativas desesperadas de encontrá-lo... Eu, que o
 tive tão perto de mim e não o reconheci... Como sou tonta, meu Deus!
- Tu não és tonta e não é a mim que deves agradecimento. Agradece ao Pai Celestial que te possibilitou o reencontro. Álvaro foi temporariamente afastado de ti a fim de que pudesses resgatar teus débitos que contraíste para com a Harmonia da Perfeição. Agora estás livre, pagaste aos teus credores e só te resta continuares na faina pela purificação do teu espírito e com o objetivo de encontrá-lo beatificado como Entidade de Luz que passou a ser. Se não o reconheceste, isto se deve ao fato de ter tido Álvaro outras encarnações e, assim, haver adiquirido novas romagens da aparência física. Segue-o como Protetora e Guia, porque assim
 deseja o Pai, posto que Álvaro reencarna para uma santíssima e especial missão. Cumprindo-a, elevar-se-á nos degraus da Vida Eterna e, a ti, com teu desvelo materno, entrego-te o filho, a fim de que com tua proteção e amor, ele possa sentir-se mais seguro e confiante na execução daquilo de que será portador.
- Como poderei protegê-lo e coordenar Acácias do Amanhecer?
- És bastante inteligente para consorciar com sucesso os teus misteres.
- Continuarei a contar com tua sacrossanta proteção?
- De ti não me apartarei, fica descansada. Tende Fé no Altíssimo.
 Após estas palavras, Renato deixou Lindóia em presença daquele que vinha ao seu encontro.
 IV
- Meu filho! Meu filho! Como é misericordioso nosso Pai Eterno ao permitir-nos este reencontro...
- Sim, minha mãe. É a ELE a quem devemos render graças...
- Nunca deixei de amá-lo, meu filho. Eu o procurei alucinadamente em tantos lugares...
- Bem sei disso, minha amada Lindóia. Não se lembra do dia em que chegou à Acácias do Amanhecer? Eu disse na oportunidade que sabia do seu caso...
- E me deixou no silêncio durante tanto tempo... Por quê?
- Não me foi permitido revelar, era necessário o silêncio para sua evolução.
- Compreendo. Ah, e por que Renato disse que eu estava a quilômetros de distância de você?
 Foi neste exato momento que enorme Luz apareceu diante dos olhos ali presentes. Ficaram imóveis, observando o tamanho e esplendor daquele beleza, daquela maravilha que ali se descortinava. Aos poucos, a Luz foi dando lugar a uma linda aparição e Renato tornou-se totalmente visível e palpável. Caminhou até eles e beijou-lhes as faces. Depois recuou um pouco e os estreitou com o olhar.
- Eu sabia que Renato era lindo, mas está muito acima daquilo que minha alma imperfeita o imaginou. É muito mais lindo, é lindíssimo!
- E sublimíssimo também, minha mãe...
 Com um manto azul bordado de faíscas brancas, Renato sorriu e lhes disse:
- Tu, Lindóia, estavas perto do teu filho em presença, mas a quilômetros de distância pelo merecimento. As paragens não se combinavam às tuas intenções. Pediste combustível para tua fome e para saciar tua sede. O Pai, Infinitamente Bom e Justo, concedeu a ti através de mim.
 Eu os amo! Sejam felizes! A Eternidade vos espera. Benditos sejam o Criador, o Espírito Santo e os Filhos Siderais do Espaço!
 E desapareceu do mesmo modo como se fez presente.
 FIM
 ( Texto escrito por Ivan de Oliveira Melo )
Ivan Melo
Enviado por Ivan Melo em 12/10/2014
Código do texto: T4996417
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
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Carpina - Pernambuco - Brasil, 66 anos
2004 textos (24606 leituras)
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Ivan Melo