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Lábios Tintos


O quarto de repente havia se tornado escuro, ou de repente eu me dava conta de que ele estava realmente muito escuro, eu não vi o sol se por, eu nem ao menos havia aberto as cortinas e a escuridão não me incomodou até eu me dar conta dela, de que ali eu não conseguia nem encontrar meu maço de cigarros e sim, a essa altura o quarto já era uma pequena câmara de câncer, meu pequeno refúgio esfumaçado redutor de tempo de vida, e estava tão escuro, havia uma lâmpada mas ela não funcionava porque o senhorio nunca se lembra de vir consertar e eu dizia pra mim mesmo, deve haver alguma luz fora esse monitor, fora o isqueiro, fora o mundo lá fora, uma luz verdadeira, estou farto de reflexos, mal posso me olhar no espelho. Na verdade estou farto de tudo que é corriqueiro. Farto de conveniências, seguir cegamente o roteiro. Eu queria mesmo era andar fora da linha. Sob uma luz de fim de tarde, aquela luz bonita, sabe? Pouco antes do arrebol. Ou depois da hora mais escura, pouco antes do nascer do sol. E que ela fosse comigo, mesmo sonolenta, transgredir o normal. Poderíamos subir lá perto do aeroporto, assistir ao despertar da cidade. Eu levaria um vinho na mochila, algo para o desjejum e um do natural. Falaríamos sobre a vontade de ir embora, sobre cinema, sobre os planos pro Natal, sobre a distância entre a felicidade e o real. Contaríamos estórias inventadas para provocar o riso e quando finalmente o silêncio se abatesse sobre nós, com um pouco de sorte e/ou coragem nos beijaríamos. Eu confessaria que há tempos imaginava como aquele beijo seria, ela me chamaria de bobo, que eu mentia, pois se quisesse mesmo já teria tomado uma atitude bem antes daquele dia e eu responderia que por vezes a insegurança que sinto supera minha cara-de-pau e os resultados variam. Molharíamos os próximos beijos com mais vinho, ficaríamos um pouco tontos, com os lábios tintos.
Talvez depois tivéssemos a ideia de pegar a estrada a procura de um lugar pra mergulhar. Funil, Ijaci, Carrancas, qualquer lugar. Almoçaríamos num restaurante barato de comida caseira deliciosa feito por D. Maria, ou D. Aurora, seria um lindo dia, um dia para se lembrar, voltaríamos cansados, tão cansados que chegaríamos em casa e nos jogaríamos na cama, o som baixo rolaria Caetano, eu acariciaria seus cabelos enquanto você me diria que não se divertia tanto havia anos.
Dormiríamos abraçados enquanto a noite escureceria, mas jamais ficaria tão escura quanto agora, enquanto eu tateio o chão a procura de um isqueiro, pensando que deve haver uma luz, em algum lugar deve haver uma luz.
marvin rosa
Enviado por marvin rosa em 10/12/2014
Código do texto: T5064465
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Sobre o autor
marvin rosa
Santa Isabel - São Paulo - Brasil, 32 anos
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