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O asfalto segundo Otávio

Situava-se entre o amor e o ódio. Já sentira o catalogo todo: culpa, dó, raiva, medo, inclusive flertou com aqueles sentimentos que somente os facínoras carregam. Boiando neste espaçoso meio-termo, no limiar da cólera mas nem tão longe da compaixão, a cara  coalhada de mal elemento seguia adiante rumo à estação.
Neste dia, aquela coisa gostosa que era olhar as mulheres na rua, uma a uma, passando sobressalente à seu ombro, mesmo sendo diva e tal, sequer o comovia. Naquele momento, era um homem de plástico; flácido e frígido. Cafajeste de alma cortada. Sentia-se na pele de uma daquelas senhoras de quintal, lavando bosta com o esguicho,  que todo os dias observava em seu caminho para o trabalho
Otávio estava assim, fétido - e não pelo cheiro do colarinho. Era sua mulher, senhorita com quase trinta, que o deixava afetado. E era justamente por isso que ele, cansado até às bocas, desviou de seu caminho para a esperar os vagões do trem.
Era seu meio mais fácil - e perto - para sair do marasmo urbano de cidade média. Vivia numa cidade meio vira-lata, pra lá de chinfrim.
Para ir à grande metrópole, Otávio caminhava alguns passos, suficientes - é certo  - para borrar a sola de seus calçados com tudo o que é de mais pútrido - inclusive com a bosta que as senhoras "esguichavam".
Com os pés sujos, o homem carimbou o cimento da escada que dava acesso à estação. Àquela hora do dia - quase seis da tarde, momento de retorno do trabalhador para casa - encararia, fatalmente, a multidão do populacho local. Comprou a passagem, passou a catraca e esperou o trem chegar.A lataria chegava, sempre, apitando num longo decibel. A máquina estampava "FEPASA 1977".
Dali avistava o telhado da casa que morava, e que certamente estaria caso não ocorresse o que se sucedeu. Ficava possesso em cada momento passado, pensando sobre os motivos que o levaram a estar ali. De seu lado, um velho de asas abertas. Folheava um jornal com ânsia. Otávio entendia o grisalho: a novidade que ele buscava era a mesma que ele queria. Estava cansado de tapar o nariz para o ar.
O trem chegou, o moço embarca. A seu lado, logo ali na outra poltrona plástica, um casal entrelaçando-se. Otávio anteviu o futuro deles. Sabia que aquilo não iria tão longe, tão curto quanto à viagem de trem que pretendia.
A primeira viagem de trem foi lá perto dos doze. Antes disso, tinha pouco conhecimento espacial. Sabia que se situava numa cidade à beira da mediocridade. Logo sorriu quando viu o novo. Era cidade mesmo, com cartão postal vidrado nos olhos.
Mas logo descobriu que às idas precedem às voltas. Tavinho, apelido de criança, voltou a seu lar. Casa nos fundos, teto de estuque.
Enquanto a chegada vinha - observador que era - olhava para além da janela do vagão. Aquilo tinha jeito de passado - engraçado como toda beira de trilho não conversa com o presente. Fica lá, parada, esperando o trator demolir. Mas tinha gosto por aquilo. Ao invés de pensar na mulher ingrata, vislumbrava aquilo com uma disposição de quem aguarda um pantanal de beleza no pó da cal dos muros.
Sua mulher, Ana Flávia, o aguardava para ter com ele. Queria uma definição: ou o que ela queria ou acabou-se. Segurava Otávio nas mãos como quem guarda a tampa premiada da Coca. Otávio, liberto, sempre sofreu com isso. Tentou negociar várias vezes, mas ela era irredutível. Queria colocá-lo num aquário e lhe fazer festinha pelo vidro.
Trabalhava num desses largos cheios de gente. Era ali o destino final de Otávio. Ao sair da estação sentia calor. Era verão e o Sol se espreguiçava no chão em pleno fim de tarde, Era um cenário odioso, e ele odiava. Cheirava óleo usado, era um ambiente basicamente sujo. Essa coisa de cimento, ele nunca gostou. Lembrava-se das casas de alvenaria que chegou a morar. Aquela coisa eternamente inacabada o deprimia. Começava ali seu martírio.
 
 
 
- Preciso ser respeitado, entende?
- Então tá bom
- Não, você jamais me ouviu. Era para isto jamais acontecer.
- Tá bom, Otávio. Faça o que você quiser.
- Você me enche de bronca e se acha a correta. Será que precisamos continuar com isto?
 
Seria assim, ele sabia desde o primeiro carimbo na pedra da escada. Logo que a viu, cortada pela mágoa de não sei o quê, já imaginava que não haveria razão que criasse equação naquele momento .
 
- Então me faça chorar. Vê? Não choro por isto. Não me desespero por bobagem.
- Você acha que tudo isto é bobagem, Otávio, este é o problema.
- Sabe o que eu penso? Tá vendo tudo isso, tão grande? Essa cidade toda, mesmo desse tamanho, não consegue me deixar menos do que solitário, você não percebe isso. E tem mais: percebeu como canto rápido as palavras? Não sei, a cada dia me sinto cada vez mais ansioso. Sinto um nó a todo o momento, aqui, na garganta, sabe?
- Do que você está falando?
- Como aquela à frente. O senhor carregando a banana. Não vê como ele perdeu sua essência neste meio? O meio não o acude. Tem sobras e faltas e ninguém vê. É como você, Ana Flávia. Quando lhe conheci, com quinze anos, era só mais uma menina mimada nas asas do pai. Você sabe que o medo mudou. Nosso medo é outro. Não conhece nem um pouco o marido que tem. Tenho problemas, você não sabe?
- Tenho muitos problemas também, Otávio. Acabei de saber que devo abrir as rédeas para não perder você.
- Quem lhe disse isto?
- Aquela minha amiga que você não gosta.
- E porque a ouve, Flávia? Falo com um muro, toda vez!
 
Flávia, neste momento, larga a calma que a encobria. As pálpebras tremiam, parecia ódio mesmo. Otávio emenda outro argumento. O silêncio que precedeu deixou em ambos uma sensação física de mal-estar.
- Queria que você me ouvisse, Flávia. Tenho muito a lhe falar. Sou discreto às vezes, eu sei. Prefiro guardar e peco por isso.
- Somos dois doentes, Otávio.
 
 
 
Em meio a toda essa conversação, o casal se viu por várias vezes acuado pelo grande fluxo de gente que passava por aquela calçada. Era fim de ano, época de festas, e diante daquele conglomerado de comércios de todas as espécies. Otávio e Flávia eram somente dois animais pouco sabidos do que realmente significavam naquele instante. Eram somente carnes ambulantes que atiçavam os desejos dos vendedores de porta. O casal chorava quieto, andava. Abaixaram as cabeças procurando evitar contemplações indesejadas. Eram somente carnes estranhas.
Um rapaz com uma boina enorme - maior que a testa - vem no contrafluxo. Vestia-se como um entregador de pão dos anos 20. Um corpo estranho bem no meio daquela estética. Na dança que é vislumbrar um lugar longe sob o Sol, o casal, e mais ninguém, percebia aquela diferença no cenário. Pois bem; somente o casal os via. Pela primeira vez em todo o percurso, os dois se olharam; se olharam olho no olho. Não deram risada; não era momento de dar risada.
O céu se coloriu em pardo. Quase noite. Viram a praça se encher de velhinhos. Estavam mais amenos, como o vento que batia no prédio e desmanchava o penteado. Sentado à beira do asfalto, ficaram ali, esperando uma novidade para emendar um assunto. Muito embora fosse cidade, o clima era mais de silêncio. Otávio, sentado, cultivava sua maior mania, a de arrumar a camisa. Enquanto que Ana, com as pernas cruzadas, divagava sobre algum assunto, lá em seu íntimo. Dava sinais claros de que queria falar alguma coisa.Abria a boca, bocejava demais. As palavras eram engasgos.
Otávio sabia o quanto Ana era insegura nessas retomadas. Era como se estivesse no purgatório, à espera do juízo final. O veredicto, no caso, era uma palavra que fosse. O silêncio, como disse, deixava meio estática a rapidez que vivia no asfalto.
Nenhum dos dois tinha carro. Andarilhavam mesmo com a modernidade beirando à calçada. A modernidade, que já batia nas canelas há muito tempo pedindo a compra de um carro,  não os comovia. Sobretudo a Otávio, pouco materialista, mesmo sendo um freqüentador de shoppings.
 
- A ansiedade é o mal do século
 
Otávio vocifera do nada. Busca uma voz serena, menos rouca do que a  de costume  Pega Ana em algum transe. De certa forma, mesmo não havendo um retorno por parte dela, ele sabia que aquilo a atingia. Parecia, até, que esta frase foi planejada durante todo percurso; como o saco de pipoca se enchendo no microondas, no avançar do segundos que precedem o apito da máquina.
 
- Veja como nós estamos mais calmas agora. Parece que nada aconteceu e tal. Eu até achei que seria o fim desta vez, mas sabe; acredito ainda que nós iremos nos acertar. Você não acha?
 
 
 Alfinetada pela pergunta, Ana manteve-se intacta. Olhando em direção a algum ponto do asfalto à frente, sabe-se lá o que tecia. Parecia um ser em si, livre de qualquer desprendimento com a exterioridade. A moça depois de alguns minutos de receio se levanta com autoridade - e ela era linda. Ele ainda sentado levanta as sobrancelhas, meio que espantado com sua beleza de lady. Diante do cenário sujo que estavam, Ana ganhava ainda mais pontos com isso, pois seus cabelos acobreados se destacavam da argamassa cinza, borrada.
Começou a andar no labirinto que era os caminhos formados pelas árvores da praça.  Não se mostrava previsível, mesmo Otávio crendo que sim. O rapaz, quase sorrindo, se esgueirava nas coxas das pernas para alcançá-la em um ângulo de visão melhor. Chegou num ponto que, mesmo se esticando não mais a via. Decidiu levantar-se e ir de encontro.
 
- Não se aproxime e tape os ouvidos!
- Calma, o que acontece?
- Sorri demais para você, escrevi cartinhas, muitas cartinhas.
- Do que você está falando? Ana pare de gritar.
- Anda não vai tapar os ouvidos? Então, irá me escutar, não é isso?
 
Otávio, meio sem saber o que se sucedia, assistia ao espetáculo que virou sua vida, do mesmo modo que todos que se aproximavam - com uma diferença básica: ele era um dos protagonistas. Aquilo o enrubesceu. O deixou com a cólera por entre os vales do rosto.
 
- Você está vendo todos os que se aproximam daqui? Flavio, Eduardo, Augusto, Sérgio, e até  aquela moça atrás do Almir...
 
Começou a declamar os nomes de todos àqueles que, parados, assistiam o bom andar da cena. Apontava para cada um e, pausadamente, deixava correr o nome pelas papilas da língua.  Falava continuamente, no mesmo tom e jeito, numa dízima periódica particularmente prazerosa a ela. Por fim, terminou declamação deixando reticências no ar.
 
 
- Poderia saber o que isto tem a ver com nossos problemas? De onde você tirou esses nomes?
- Pois saiba Otávio que estes homens vieram aqui para saudar você. Sim, foram ver mais um espetáculo de imbecilidade de sua parte. Estavam por ai, a toda hora, retirando tua atenção. São meus homens, de fato - e algumas mulheres também.
- Você me tirou a paz, me fez um boçal para entender as coisas; agora quer me deixar louco, paranóico ou coisa que o valha.
- Eu não trabalho aonde você pensa que eu trabalho, não freqüento os lugares que você pensa que eu freqüento. Não tenho o nome que você pensa que eu tenho; aliás, você nunca se importou mesmo, não é? Você me deu liberdade e eu retribui com  libertinagem!
 
Além do alto tom de voz - quase um comício em plena terça de noitinha - Ana intercalava ódio e ironia, ponderando gargalhadas e gritos em seu breve discurso. Otávio descobrira o que de fato cercava a vida de sua mulher - e de uma forma incrivelmente inusitada.
 
- Mulher da vida, é isso que você é! (após Otávio gritar, todos começam a gritar e falar, outros ensaiam um grito em uníssono ''Lídia, Lídia''.
- Ouviu meu nome, Otávio?
- Eu quero morrer...
- Pois morra, mas se entregue antes ao coro de meus homens.
 
Dentro do bando que se ajuntou, cerca de 20 homens e 1 mulher, Otávio seguiu diante, levado pela pequena multidão que o empurrava. Não pertencia mais a seu corpo. Ana, que agora é Lídia -  que havia subido num banco da praça em certo momento para amplificar o discurso  - , desceu dali e se enveredou por uma rua nos arredores que dava acesso a uma pequena porta luminosa no fim  do trajeto. Ninguém; nenhum policial sequer apareceu para desmontar a balburdia. Passando, ali, por entre os pedestres pouco  atônitos ,  ia sem declamar destino. Ouvia-se somente ''lídia, Lídia'' em altos decibéis.  Enquanto isso, Otávio   seguiu quieto, levado pelos braços, como quem vai à masmorra pagar o crime cometido.
O homem que não fez nada de errado; matou-se por si só. Levado primeiro pela multidão de vinte e um. Depois, deixado pelo os que carregavam, caiu na calçada pela inércia, sem maiores resistências.  Otávio agonizou sem alma. Dentro daquele ambiente noturno, sob a luz de mercúrio da rua, se repuxou, caiu na sarjeta e se posicionou no meio da rua. Esparramou-se no asfalto.
Colorido pelo negrume do pneu, Otávio morreu logo após a tentativa da freiada.  Ficou, ali, às moscas, por alguns dias; afinal, o asfalto não come carne.  E de noitinha, ninguém ligou no celular dele.
Michell Niero
Enviado por Michell Niero em 15/06/2007
Reeditado em 21/03/2008
Código do texto: T528174

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Michell Niero
Osasco - São Paulo - Brasil, 35 anos
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