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Desejo

Estavam reunidos em torno de uma mesa num barzinho do centro da cidade. Bebiam aquele chopinho merecido depois de um dia de trabalho extenuante. Jogavam conversa fora como de costume. Fábio e Maurício alternavam entre a estupefação e as gargalhadas ouvindo as histórias e as idéias do Valadão, apelido que colocaram no amigo César que, como o famoso Jece, tinha fama de machão.
- Não é falta de amor, entende? É coisa de homem.
- Quer dizer que homem pode e mulher não? – perguntou Maurício.
- É claro! Mulher é diferente!
- Diferente como? – insistiu Maurício
- Pô, mulher não tem as mesmas necessidades.
Fábio apenas se ria. Já conhecia as idéias do amigo e se divertia vendo a incredulidade estampada no rosto do Maurício.
- Necessidades? Cara... não... pô, Fábio! Não acredito que tô ouvindo isso.
- Tu não ouviste coisa alguma ainda. – respondeu o interpelado, enquanto César bebia seu chope.
Os três trabalhavam em um grande escritório de advocacia do Centro do Rio de Janeiro, perto da Praça Mauá. Fábio e César eram advogados e Maurício trabalhava no setor administrativo. Fábio era um tipo mais intelectual, de falar rebuscado; César era mais despojado e, como o Maurício, torcedor fanático do Flamengo. Todos já somavam anos na empresa e costumavam almoçar juntos. O coleguismo havia levado a uma amizade fora do ambiente do trabalho.
- Só falta ele dizer que ir lá e deitar com aquelas mulheres não é traição.
Valadão, empertigando-se, não deixou barato:
- E não é mesmo! É tudo muito profissional.
- Fala sério! Pô, tu não transa com a mulher?
- Claro que sim! Esse é o trato, se é que você me entende.
- Então? Como não é traição?
- Maurício, presta atenção: é um encontro profissional, não passa de uma prestação de serviço.
- E daí?
- Daí que não me preocupo se ela gostou ou não, se ela gozou ou não, não tô nem aí! Vou lá, me alivio e pronto! Não tem carinhozinho ou beijinho, entendeu?
- Putz! E por isso não é traição?
- Claro que não! É só uma chinelada. Minha consciência fica limpinha, sem marca alguma.
- Se você descobrir que sua mulher saiu com um garoto de programa, mas não rolou beijinho, você a perdoa?
- Não.
- Como não?
- Já disse que mulher é diferente. Não tem os desejos carnais que nós temos.
- Claro que tem!
- Tem nada! Mulher só transa com o homem que ama, só sente tesão pelo homem que tá com ela.
- Você é louco, véio! Parece que está fora do tempo. E põe é tempo nisso.
Fábio deu uma gargalhada de pura concordância.
- Maurício tem razão! Tuas idéias são retrógradas e remontam a uma época assaz antiga.
- É isso mesmo! Pô, como você pode acreditar no que está dizendo, César? A mulherada tá deixando o tesão falar alto, cara. Elas têm o mesmo desejo que nós.
- Tô falando de mulher pra casar, não destas poucas aí que só não são profissionais.
- Mulher pra casar? Essa foi demais! Garçom! Traz mais dois pra mim.
- Mulher pra casar sim! Qual é, Maurício? Tu casaria com uma destas que dá mais que chuchu na serra? Mulher tem que casar virgem!
- Não vou nem responder. Que que você acha, Fábio?
- Inclui-me fora dessa, ínclito, douto, culto, preclaro, dileto, venerando e excelso amigo!
- Você é maluco, Valadão! Ou tá me zoando ou é maluco! Não é possível que você pense assim mesmo.
- Tu não sabes da maior, caro Maurício! Ele tira fotos de todas as “profissionais” com que sai e as arquiva em um local secreto.
- Sério?
- É verdade! A última eu até filmei. Por sinal, a menina era maravilhosa.
- Tu não tem medo da patroa descobrir?
- Não fica lá não. Fica no escritório do meu melhor amigo e, se eu morrer, ele vai queimar tudo.
- Entendi. Ainda assim, acho que você é doido.
O garçom traz a nova rodada de chope e, já conhecido do trio, pergunta:
- Vocês não vão ir ao Maraca, não? Hoje é dia de mengão.
- Vou não. Tô sem pique hoje. – respondeu Maurício.
- Nem eu. Minha mulher é que foi.
- Qual é, Valadão? Sua mulher foi sozinha?
- Não. Foi com o Marcão, um amigo meu.
- Cuméquié?
Fábio, como Maurício, estava perplexo, embasbacado mesmo:
- Caríssimo César, tua esposa foi assistir ao jogo com um amigo teu? O Marcão? Tu não te importaste com este fato? Estás demente?
- Ele é o meu melhor amigo!
- Já viste mulher que trai com inimigo? É sempre com um amigo, quase sempre o melhor deles.
- Por acaso é ele quem guarda tuas fotos? – emendou Maurício.
- É.
- Meu Deus! Tu és de fato um doidivanas!
- Tá pensando que minha mulher é o quê?
- Na boa, Valadão! Penso que ela é uma mulher como qualquer outra.
- Não é não! Minha mulher é uma santa!
- Só falta dizer que ela não sente tesão, não tem fantasias.
- Claro que não!
- Claro que sente! Toda mulher sente. Todas elas querem desejar e se sentirem desejadas. Todas querem dar e sentir prazer.
- Pára com isso, Maurício! Você é muito moderninho. Já falei que a Léa é uma santa.
- Já perguntou a ela as fantasias dela?
- Não! Mas sei que ela vai dizer que não tem.
- Sei! Pergunta na hora que vocês estiverem transando. Você vai se surpreender.
Maurício e Fábio haviam achado o ponto fraco do Valadão e aproveitavam para escarnecer dele. De fato, divertiam-se muito com isso.
- Acho melhor mudar de assunto. Não estou gostando do rumo que isso tá tomando.
- Deixa de bobagem, véio!
- Bobagem é o escambau! Chega deste assunto!
- Tá bom! Não tá mais aqui quem falou.
Mudaram de assunto, mas Valadão não conseguiu tirar da cabeça tudo aquilo que foi falado. Será que os amigos tinham razão? Será que sua mulher sentia tudo aquilo realmente? É claro que não, fora educada do mesmo jeito que ele, sabia que essas coisas eram bobagens. Ainda assim, não ficou tranqüilo. Pediu licença aos amigos para ir ao banheiro, no meio do caminho,  sacou o celular e ligou para a mulher, mas só conseguiu conectar a caixa postal. Tentou ligar para casa, mas lembrou que não havia viva alma lá. Ficou inquieto e decidiu que o melhor era ir embora. Despediu-se dos amigos com a desculpa que deveria preparar uma petição inicial de um cliente particular para o dia seguinte. No caminho até o estacionamento, sua cabeça fervilhava e começava a doer. Já maldizia seu melhor amigo por cobiçar sua mulher e sofria por imaginá-la nos braços dele.
Enquanto dirigia, sua mente divagava e, por isso, quase abalroou outros três veículos e quase atropelou duas velhinhas no caminho. Conseguiu chegar a casa são e salvo, isto é, fisicamente, uma vez que, mentalmente, estava em frangalhos. Estacionou o carro na garagem, pegou o elevador com o coração batendo a mil. Estava com medo de entrar em casa e flagrar a esposa com o amigo. Ficou congelado em frente à porta do apartamento. De repente, percebeu que tudo aquilo era culpa dele, havia subestimado a esposa como mulher e ela estava buscando com outro o que ele não dava a ela.
Num arroubo de coragem, entrou. Escutava apenas o barulho da televisão ligada e começou a procurar a esposa. Chegou à suíte e escutou, pela porta entreaberta do banheiro, o barulho do chuveiro. Aproximou-se devagar e em silêncio. Passou pela porta e, lá dentro, procurou enxergar quem estava atrás da névoa formada pela água quente do chuveiro. Subitamente, o chuveiro foi desligado, uma mão apareceu procurando a toalha. Então, ela saiu.
- Ai! Que susto, César!
- Desculpe. Não tive intenção.
- Que está fazendo aí?
- Estava te esperando.
- Demorei, né? O banho estava uma delícia.
- Cheguei há pouco.
- Você perdeu, amor! Foi um jogão!
- Cadê o Marcão?
- Foi com a Lúcia pra casa dele.
- Lúcia?
- É, ué! A mulher dele, né?
- Não.. é... eu sei. Esqueci que ela ia.
- E ela deixa ele ir a algum lugar sem ela? Tá pensando que ela dá a ele a moleza que te dou?
Ele sentiu um alívio enorme ao perceber que tudo estava bem, que seus devaneios eram absurdos. Levantou-se, abraçou a mulher e a beijou sofregamente.
- Que é isso, César? Tá animado, é?
- Não, meu amor! Estou feliz!
- E qual é o motivo desta felicidade?
- Você, minha pequena, você.
Ela corou e o mandou tomar um banho; ele foi. Demorou-se no banheiro, lavando todos os pensamentos ruins e algumas de suas convicções. Raciocinou que alguma coisa deveria realmente estar errada, caso contrário, não teria sentido tanto medo.
Saiu do chuveiro, enxugou-se, perfumou-se e se encaminhou ao quarto. Sua mulher estava recostada na cama, vendo televisão. Ele a olhou e a achou linda, de rosto e de corpo. Enxergou-a como há muito não a enxergava e sentiu desejo.
- Quer comer alguma coisa?
Ele riu consigo mesmo por conta da pergunta. Queria, realmente queria. Deitou-se ao lado dela e começou a beijá-la; e a beijou da cabeça aos pés. Ela estranhou a atitude do marido, mas gostou do que sentia. Rapidamente, despiram-se um ao outro. E, ainda se beijando, ele a penetrou. Ao ouvir o gemido de prazer de sua mulher, não resistiu:
- Amor?
- Hum?!
- Você tem alguma fantasia?
Havia muitas fantasias, muitos desejos e todos com ele. Descobriu que não precisava rotular as mulheres, pois elas são apenas e tudo isso: mulheres. E a sua, como qualquer outra, quer se sentir mulher, plena, “sem vergonha de aprender como se goza”.
Valadão e a esposa descobriram um mundo novo juntos, descobriram o prazer que podiam proporcionar um ao outro, descobriram uma felicidade ainda maior por estarem juntos, por se amarem e, principalmente, por se quererem.
Fabrício Mohaupt
Enviado por Fabrício Mohaupt em 17/06/2007
Reeditado em 17/06/2007
Código do texto: T530064

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Sobre o autor
Fabrício Mohaupt
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 49 anos
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Fabrício Mohaupt